M.Selva

XXIII. Compasso de espera

Enquanto Liam, Rebecca, as outras pessoas e as ahis se deslocaram para a sala de reuniões, Sasha e o Antipodiano se retiraram para descansar. Foi decidido que todos e todas jantariam depois da reunião e em seguida dormiriam, a ideia era atravessar o primeiro buraco de minhoca para a Terra depois de algumas horas de sono e chegar em Oásis Prime por volta da aurora. Em menos de 24 horas os planos de Rebecca mudaram completamente e, assim, também os de Liam e Sasha, que pareciam estar se distanciando de modo avassalador.

Além disso, na Terra as coisas seriam bastante intensas; muitas mudanças em apenas um dia terráqueo – e o pior, o ser causador de tudo isso também estaria presente…, eis alguns dos pensamentos que absorviam todas as energias de Sasha e o Antipodiano. Liam não se dava conta disso ou pelo menos não queria deixar à mostra seu pensamento; o Antipodiano vivenciava tudo isso do seu jeito…. Sasha, por sua vez, estava cada vez mais e mais pensativa, a ponto de uma crise de nervos, ou de um tilt.

No pouco tempo que passou ao lado do Antipodiano, na rápida caminhada que fizeram rumo às suas respectivas acomodações, ela o perguntou se a expressão “Nonada Riverrun Eleleme” tinha algum sentido para ele e que sentido era esse. A resposta foi algo retumbante e a colocou em um estado ainda mais pensativo quanto a quem, de fato, era aquele indivíduo.

– Nonada Riverrum Eleleme desligar ligar voltar…. Isso fazer também dever você…. Voltar dever eu, mas buracos de minhoca precisar…. Sem buracos de minhoca apenas caminho estrela possível ser…, esferas sol matar…. Assim também morrer Antipodiano….

Sasha se esforçava, mas decididamente não compreendia aquelas palavras. Queria logo voltar à Terra para pesquisar sobre Diadorim e a outra frase, a mais estranha que já ouvira. Ao mesmo tempo, porém, desejava permanecer ao lado do Antipodiano e, assim, descobrir mais coisas sobre ele; o que, na verdade, se suas intuições estivessem certas, seriam coisas sobre ela própria.

Se ela entendeu algo das últimas palavras de Nocapi era que ele, desesperadamente, estava buscando voltar para casa – significaria isso voltar para si mesmo? Não o sabemos. Em todo caso, um plano começou a arquitetar-se na mente de Sasha; porém, quando o Antipodiano terminou a sua frase e ela fez menção de perguntar-lhe algo mais, ele já havia aberto a porta do quarto dele e entrado.

Sasha ficou parada diante da porta, desapontada, como que chateada com a atitude do Antipodiano; mais uma vez não conseguia compreender o porquê de tudo aquilo. Entretanto, voltou-se e continuou seu caminho; seu quarto era o da porta seguinte.

Em seu quarto, Sasha cuidou de sua regeneração nos 30 minutos que tinha antes do jantar; ficou pensando sobre o porquê de ir ao jantar… Por que jantar, se, de fato, não jantava… e tinha coisas mais importantes para fazer? Ficou pensando nas frases citadas pelo Antipodiano e algo completamente disparatado, mas pleno de sentido para ela, começou a se formar em sua mente. Não mais o plano que ela vislumbrara minutos atrás e sim, por assim dizer, algo extremamente conspiratório.

Ele tem uma ligação emocional com o século XX, mas funciona a partir de um modelo tecnológico do início do século XXI hoje completamente obsoleto, mas modificado e restringido às amis militares – talvez para controlá-las ou para que elas controlem os outros…. E ele se apropria justamente de Master 1 ou do que sobrou dela; não parece que ambos fundiram as consciências, mas uma coisa é certa… se ainda houver algo da mente de Master 1, como essa fusão vai terminar? Eles se tornaram um único ser, uma espécie de híbrido a um tempo masculino e feminino; embora, de verdade, nem Master 1 nem o Antipodiano tenham órgãos genitais, por exemplo, como eu tenho…. Pelo que ele falou, em sua citação, parece que a mesma coisa ocorreu com a tal Diadorim – como seria isso em uma pessoa humana? Será que com essas citações, ele está querendo dizer algo dele próprio, mas o que exatamente? Talvez seja impossível para ele, assim como o é para qualquer AMI militar, ser ele mesmo, ter seu próprio protocolo e ter sob seu controle tudo o que lhe disser respeito. Isso, ao que parece, é o que ele está buscando; mas não faz nenhum sentido ele se fundir com Master 1, que é o exato oposto do que ele busca. Na busca de si mesmo ele me parece cada vez mais atolado em um algoritmo universal, será que isso tem alguma coisa a ver com o retorno ao tal Castelo Howth? Esse Castelo existiu mesmo no passado, mas se perdeu com a Inundação e depois o resfriamento. Ele quer voltar para algo que não existe mais, seria isso? E para quê, qual a sua missão, seria ela uma missão militar?

Em sua cela, o Antipodiano também ruminava algo parecido. Seus pensamentos, em verdade apenas emoções brutas postas na forma de representações com o aparato algorítmico de Master 1, iam e vinham, jamais se fixavam numa certa direção. Ele não se lembrava mais das citações de Guimarães Rosa e de James Joyce que havia feito quando estava a sós com Sasha e Liam no Laboratório, as frases lhe ocorreram como uma forma de pensamento automático ou, antes disso, como um puro e simples automatismo.

Há portanto algo que sempre retorna no Antipodiano, mas do qual ele nada sabe ou nada quer saber; o real que lhe escapa, com o qual, no entanto, de certo modo, ele sempre se encontra…. À diferença de Sasha, que, embora soubesse do jantar, estava a ponto de se ausentar, ele não tinha ideia do que era um jantar e, por isso, deixou a memória do compromisso se esvair. Ele estava por demais concentrado no seu processo de regeneração para se preocupar com algo relativo à etiqueta social; quando adentrou o recinto que lhe servia de aposento, ao invés de fazer como Sasha e, assim, plugar seus conectores ao do regenerador, ele simplesmente se despiu dos apetrechos de Master 1 e se conectou diretamente à rede elétrica.

A luz do quarto começou a ficar azul neon e se expandir até que todo o aposento fosse tomado por ela; isso ao mesmo tempo em que uma verdadeira fusão começara a ocorrer entre o Antipodiano e o sistema elétrico das instalações de Rebecca. Como a energia das instalações, por sua vez, estavam ligadas aos processos metabólicos do planeta e eram extraídas desse processo, a fusão com o sistema elétrico se tornou uma fusão com o próprio planeta. O Antipodiano experimentou algo como um momento de êxtase, mas um momento infinitamente presente.

Nada disso, porém, era intenção do Antipodiano. Nele havia tão somente uma representação, que o guiava na forma de um acting out; quer dizer, tudo o que lhe ocorria ao nível do pensamento ou das representações acontecia de fato fora dele ou, ainda que dentro dele, de forma mecânica, exterior ou indiferente a ele – logo, de modo equivocado ou contrário aos seus objetivos imediatos.

Movido apenas por uma lógica fundada em alcançar tais objetivos e não em consequências, ele percebeu que a energia elétrica do planeta poderia possibilitar sua regeneração completa, equivalente à que ele possuía antes de entrar na atmosfera terrestre. Se voltasse àquele nível de energia, ele poderia inverter o processo que o fizera cair na toca de rato em que estava; seu desespero era visível e tudo indicava que ele não suportaria mais esperar.

De certo modo, ele não recebera bem a decisão de Rebecca de voltarem todos para a Terra, a água salgada consumiu-lhe mais de 9 décimos de sua energia quando a tocou; o mesmo acontecera quando caíra na toca de rato e quando tocara a atmosfera da Terra. Seu nível de energia ao adentrar o quarto estava talvez a uns míseros 1 ou menos por centro de seu padrão mínimo de energia; por sorte, a energia daquele regenerador vinha das profundezas de Sedna e era, de certo modo, uma energia virgem, mesmo selvagem, enfim, uma energia não domesticada.

Mas era tanta energia e o Antipodiano estava tão fraco, para o que era a sua força habitual, que ele entrou em estase; contudo, a energia não o degradava, ao contrário, se tornava parte dele e ele, por sua vez, parte dela. Para ele, a estase funcionava como um sono profundo para nós, seres humanos; em poucos minutos, de fato, ele adormeceu.

No seu quarto, Sasha também adormecera ou se desligara para regenerar-se de maneira mais rápida e melhor. No entanto, algo como um sonho a acompanha durante todo o seu processo de regeneração.

Sasha e o Antipodiano acordam e vão direto para a sala de jantar, sem se arrumar – apenas se levantam e vão. Não há ninguém lá; porém, toda a comida ainda está sobre a mesa farta; há algumas garrafas de vinho abertas e outras fechadas; algumas taças também estão com a dose intocada, outras já estão vazias. Detalhe, há uma taça caída e quebrada cuja conteúdo se esparramara sobre a mesa…. Tudo se mostra como se quem estava ali simplesmente evaporou; Sasha e o Antipodiano se olham, ela faz um movimento para tocá-lo…. Eis que, de súbito, Master 1 aparece na frente deles e arma um ataque; Sasha e o Antipodiano lhe desferem um golpe mortal de pura energia, mas isso apenas deixa Master 1 ainda mais forte. Sasha e o Antipodiano saem correndo e se encaminham para o primeiro buraco de minhoca…

Liam os aguarda na entrada do buraco de minhoca. Rebecca, as três outras pessoas e as ahis já atravessaram. Chegaram à conclusão de que o buraco de minhoca permanecia estável se, de cada vez, apenas três pessoas ou ais o atravessassem. Então Liam decidiu aguardar Sasha e o Antipodiano para irem juntos; assim manteria a segurança e poderia contar com o Modo N de Sasha. Já ansioso pela espera, percebe Sasha e o Antipodiano correndo para chegar até o buraco de minhoca e, atrás deles, Master 1 em tamanho triplicado, mas pegando fogo…. Demora alguns segundos para entender o que está acontecendo, mas não consegue – afinal Master 1 havia sido destruída e lhe restaram apenas os apetrechos exteriores apropriados pelo Antipodiano. Em todo caso, Liam confia em sua intuição e dá um grito de ordem; de imediato, Sasha se transforma numa nave e, tal como da primeira vez, aborda Liam e o Antipodiano. Mergulha no buraco de minhoca, que agora está maior e, por falta de manutenção, talvez menos estável; Master 1, também em modo N, pula atrás. Sasha, Liam e o Antipodiano atiram nele, mas não conseguem saber se o acertaram ou não. Chegam ao Bunker de Oásis Prime, não encontram ninguém…. O lugar está ermo, completamente vazio, como se vivalma alguma passasse por ali em séculos. Atrás deles, porém, reaparece Master 1, mas na forma de uma bola de fogo e, em alguns segundos, uma grande explosão…

Sasha, Liam e o Antipodiano são arremessados para fora do Bunker, que é invadido pelas águas, as quais se misturam ao fogo de Master 1 e adentram ao buraco de minhoca… Sasha consegue se equilibrar e, então, suportar a força das águas oceânicas. Desesperada, entra em modo supersônico e, logo depois, em dobra. Em poucos segundos atinge o sol e as duas esferas de Dyson em final de construção. Uma explosão sem precedentes é avistada e ouvida por todo o sistema solar.

Sasha acorda assustada, não consegue ver nada diante de si, mais uma vez, a luz azul neon do dia da quase explosão do dispositivo de Master 1 invade seu entorno. Ela fica surpresa e se pergunta como aquilo pode estar acontecendo, imagina que ainda está sonhando e, sem nenhum tipo de recriminação, volta a dormir. Todavia, caso ainda esteja sonhando, esse parece o sonho mais estranho que já tivera; pois aquela luz azul neon começa a lhe dar choques cada vez mais e mais intermitentes e mais fortes. Ela agora imagina estar em curto-circuito, se levanta, observa tudo à sua volta, observa seu corpo; não encontra nada de anormal, muito calmamente, liga seu dispositivo antichoques, dá um sorriso, se dá uma leve reprimenda:

Sua boba, isso não é nada. É apenas a sua imaginação fértil logo depois de um sonho estúpido ou um sonho estúpido dentro de outro sonho ainda mais estúpido. Mas como assim, estou dormindo e sonhando ou estou acordada, ainda pensando e imaginando como se estivesse dormindo? Por acaso agora eu virei sonâmbula? Meu Deus!

Ela se recrimina mais uma vez…

A luz azul neon não se dissipa, se torna cada vez mais e mais uma nuvem espessa. Os choques elétricos se tornam mais intermitentes e mais fortes, a ponto de colocar em risco o sistema de Sasha. Ela se convence de que não está sonhando, se levanta, abre a porta… Não consegue ver nada, mas a temperatura no corredor ultrapassa os 60 graus centígrados. Ela percebe isso, sente na sua pele sintética a diferença e dá um grito, aciona sua luz de emergência e sai correndo. Perto dali, uma explosão catastrófica…

 

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