M. Selva

XXII. Riverrun

O Antipodiano havia se declarado, à sua maneira, amigo de Sasha e Liam. Mas nem ele, com as suas palavras descarrilhadas, nem Liam ou Sasha, com o pouco alcance histórico de sua formação cultural, conseguiram decifrar o sentido de ‘Nonada’. A palavra simplesmente desaparecera, não havia mais nenhum registro seu à disposição dos três, pelo menos em Sedna, onde estavam; porém, Sasha intuiu algo de seu significado e se pôs a pensar – e isso de um modo que nunca lhe havia ocorrido.

Embora entrecortadas, as palavras do Antipodiano lhe tocaram de forma surpreendente, era como se algo dentro de Sasha houvesse partido; ela começou justamente ali a sentir algo, sentir de verdade. Até então Sasha jamais havia sentido, ela se limitava a simular sentimentos e emoções.

Algo também havia se partido no Antipodiano, sua queda em nossa dimensão temporal o destituiu por completo de suas tesselas e de seu agir imediato. Agora ele teria que lidar com o tempo propriamente dito, situação da qual permanecia em fuga desde a queda no mar de Oásis Prime – a obsessão em construir buracos de minhoca o demonstravam perfeitamente.

Mas o Antipodiano estaria fugindo de sua lida com o tempo tal como o conhecemos ou, em rigor, da fratura temporal que todos experienciamos, de um modo ou de outro, na primeira dimensão? Em que pese a identificação de Sasha com o Antipodiano, as fraturas de ambos se distinguiam por completo. Talvez Diadorim fosse o fiel da balança, por um lado, ao possibilitar a Sasha sua descoberta de si, assim como, de outro, tornar possível ao Antipodiano o enfrentamento com o retorno do real, do qual ele fugira desde sua chegada ao sistema solar.

Difícil saber se o Antipodiano apenas estava repetindo pedaços de Grande Sertão – Veredas sem saber os sentidos por trás das palavras ou se elas começavam a fazer sentido para ele. O que, para ele, ‘Nonada’ poderia significar? Quando chegou ao laboratório, logo depois de sua fusão com Master 1, o Antipodiano repetia e repetia sem mais…

– Nonada. No nada. Non ada. NonadAdananon. Non Adan on. Nona da.

Ele parecia assim apenas estar brincado com as palavras e letras; o que seria de nossa parte uma pura e simples projeção normalizadora. Embora não consciente – ou de modo propriamente inconsciente – pode-se dizer que, na verdade, ele estava a elaborar sua nova condição, de uma existência submetida ao tempo, talvez para sempre distante no mundo fotônico da existência sem tempo.

Estaria ele deixando de ser um antipodiano ou estaria apenas manifestando seu conflito com a condição temporal, que – devido à queda – lhe fora recém imposta? Junto com os pedaços de texto rosianos e as repetições de ‘Nonada’, o Antipodiano também repetia a esmo o termo ‘Riverrun’ e algumas palavras em um inglês do início do século XX. Algo tão dramático quanto…

riverrun, past Eve and Adam’s, from swerve of shore to bend of bay, brings us by a commodious vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs… A way a lone a last a loved a long the

[correrrio, depois de Adão e Eva, do contorno da costa à baía curva, nos leva por uma generosa jornada de volta ao Castelo de Howth e arredores… Um caminho, um só, um último, um amado, ao longo][1]

Dessa vez foi Liam quem se prontificou a colocar o dedo na ferida do Antipodiano, à queima roupa, sob a forma de uma longa e complexa pergunta, ele disse:

– E desde quando você se perdeu de seu caminho? De fato, isso explica de modo genuíno sua obsessão por buracos de minhoca, elas também seres sem cabeça, em busca de um caminho do qual nada sabem, e, por isso, se limitam a fazer buracos; os quais, no entanto, nos permitem colher o húmus e nos fazer quem somos …, algo análogo é feito pelas abelhas em suas colmeias espirais, e de tudo o que nos é fornecido por elas, seu excremento nos alimenta; por isso, hoje, elas têm uma reserva só delas na Terra…. Mas, e você? Em menos de 24 horas terrestres você fez dois buracos de minhoca, ambos estáveis; mas para quê, o que você queria com eles, voltar a reunir-se consigo mesmo?

 

Sasha e o Antipodiano ficaram de queixo caído, sem saber o que dizer. Na verdade, o Antipodiano até sabia o que dizer e o disse em alto e bom tom, quer dizer, talvez nos limites do que, para ele, poderia ser assim compreendido.

– Você e povo seu Nocapi chamar Antipodiano. Dupla natureza ter eu sim, mas nenhuma cabeça, meu caminho é nunca sair do lugar, estando em dois ou mais. Porém, cair em toca de rato eu. Neste buraco de rato estar eu com vocês agora, mas querer estar eu? Queria eu não. O que você buraco de minhoca chamar, tessela é. Como voltar não mais saber eu, saber você? Sim, três buracos de minhoca ou tesselas primitivas fazer eu. Funcionar nenhuma.

A verdade é que Liam ficou muito irritado quando o Antipodiano falou aquelas palavras em inglês do século XX. Ele não entendeu nada, a não ser uma ou duas palavras que também apareciam em Unilux 3228. Então explodiu. A resposta do Antipodiano, contudo, nos possibilita compreender alguns traços essenciais de sua natureza; o que, no entanto, passou desapercebido por Liam e mesmo Sasha. Liam, parece ter ficado ainda mais nervoso com o Antipodiano, talvez tenha se arrependido de ajudá-lo e de praticamente ficar preso com ele e por causa dele – a essa altura – exatas 24 horas (contadas segundo os relógios da Terra). Liam então explodiu mais uma vez:

– Três buracos de minhoca! Você é louco? Assim você vai destruir todo o sistema solar e, portanto, toda a humanidade. E outra! Como assim, buracos de minhoca são tesselas primitivas? Cara, você despirocou de vez, por isso sim é um sem cabeça…

Slap!!! Paf! Paf! Plafff! Plafff!

Em um átimo, o Antipodiano se voltou contra Liam para lhe dar um tapa na cara. Liam virou ao contrário, como que para correr, então o tapa do Antipodiano, na verdade, acertou na parte da frente do ombro de Liam, que bateu contra a parede e caiu no chão, se contorcendo e gritando. Ao mesmo tempo, seu braço, junto com um pedaço do seu ombro caíram no chão, espatifando algumas partes menores. Mas não só isso, o braço bioeletrônico de Master 1, que o Antipodiano vestia, se soltou de seu braço – ou do que parecia ser seu braço – e, também, se espatifou…, bateu primeiro na parede e logo depois no chão. A discussão se aprofundou…

–  Louco não ser eu! Buraco de minhoca intenção sua seguir deixar eu. Vocês dois proteger eu!

– Claro que protegemos você, do contrário não estaríamos aqui!

– Nããããão! Vocês dois proteger eu, não eu protegido ser vocês. Não entende você?!

Sasha começou a dar uma sonora gargalhada, embora preocupada com o braço e o ombro de Liam e o braço de Nocapi, que nesse momento parecia ser energia pura, ela não conseguia para de rir. Teve uma crise de riso, tão infantil foi a discussão dos dois marmanjos… Enquanto ajudava Liam com os primeiros socorros e o processo de recuperação de seus ligamentos, assim como o Antipodiano na contenção de sua energia – essa a razão pela qual ele se revestira com a armadura de Master 1, ela não podia deixar de dar razão ao Antipodiano.

Ele estava certo, aquele buraco de minhoca só se constituíra daquele modo porque Liam desejou estar em Sedna e o Antipodiano, embora tivesse os meios de construir um, não tinha – como ainda não tem – um propósito minimamente esclarecido de para onde ir. De fato, ele parece irremediavelmente perdido ou destituído de si. Mas como, mesmo assim, ele conseguiu criar e estabilizar três buracos de minhoca em um mesmo dia, além de nos transportar com segurança por um deles?, pensou ela.

Com pensamentos como esses, se produzia em Sasha uma profunda admiração pelo Antipodiano, algo misturada com um igualmente profundo sentimento de aversão.

“– A linguagem do Antipodiano é extremamente bárbara, que coisa brutal isso? Mas como pode um ser tão assim ser capaz de fazer coisas desse tipo, tão inimagináveis por toda uma civilização, até agora uma das mais avançadas de nossa galáxia?” – pensava Sasha…

Já com os ligamentos completamente refeitos por intermédio de um instrumento utilizado por Sasha, Liam ficou sério dessa vez, começou a chorar, pediu desculpas ao Antipodiano e disse estar sobre forte pressão. Disse que deveriam voltar para a Terra e resolver a situação do outro buraco de minhoca, afinal, agora eles tinham três buracos de minhoca em suas propriedades e isso tinha que ser visto de uma maneira mais formal. Contudo, Liam estava era com medo de permanecer em Sedna e ter que lidar com Nocapi e o outro buraco de minhoca, o que o Antipodiano utilizara para uma explosão controlada do dispositivo de segurança de Master 1.

De repente, algumas vozes foram se tornando mais e mais estridentes, até que Rebecca, juntamente com mais três pessoas e pelo menos duas ahis apareceram no laboratório – outras ficaram do lado de fora aguardando ou vigiando alguma coisa. Mais que depressa, sem perceber o que recém havia acontecido ali, Rebecca exortou a todas e todos.

– Bem-vindas, bem-vindes, bem-vindos ao maior empreendimento de viagens interestelares e serviços de manutenção de naves e de estoque em geral de todo o sistema solar! Em breve, também de viagens para sistemas ainda mais distantes através de buracos de minhoca estáveis! Consegui resolver agora há pouco uma disputa com guardião do Oásis Prime em torno de um buraco de minhoca descoberto na enseada hoje pela manhã no horário da Terra. E o mais fascinante, ele é estável e não exige muito para operá-lo. Venham todos vocês para a Terra conosco, precisamos agilizar esse processo para não perdermos essa chance!

Liam, o Antipodiano e Sasha se entreolharam cabisbaixos. Naquele momento, em seus respectivos íntimos (embora ainda extremamente superficiais) estava em processo de nascimento algo que eles nunca tinham vivenciado. Será que deveriam mesmo mexer com buracos de minhoca?

Em todo caso, tanto Oásis Prime e seu Bunker quanto Sedna eram propriedades de Rebecca; isso lhe dava o direito de explorar tudo o que estivesse nesses locais ou o que eles possibilitassem, desde que não ferisse nenhuma norma aplicável das civilizações terrana e solariana. Liam, depois de olhar fixamente para cada pessoa presente no laboratório, em especial para o Antipodiano e Sasha, virou-se para a sua mãe e disse.

– Mãe, isso é um direito seu. E eu concordo com você. Mas precisamos conversar com mais calma, porque há mais de um buraco de minho


[1] Trecho retirado de Finnegans Wake, de James Joyce, a tradução é do autor, a partir da versão de Dirce Waltrick do Amarante, em Finnegans Wake (por um fio).

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