M.Selva

XXI. Nonada

As palavras de Nocapi ainda ressoavam nas mentes de Sasha e Liam. “Então ‘eleleme’ é a maneira de falar a sigla que denomina as primeiras ais? Mas por que ele estava tão obcecado por saber algo a respeito e por que sequestrou Master 1?”, se questionavam… Desnorteados, Liam e Sasha só conseguiam repetir para si mesmos as três palavras – Eleleme, Nonada, Riverrun – que não existiam em sua língua. Sasha, porém, mais prática que Liam, pensou que, da mesma forma como ocorreu com o termo ‘eleleme’, Nocapi pudesse retornar e, ao invés de um diálogo possível, passasse ao ato e agisse de maneira concreta – como no rapto de Master 1. Diante dessa possibilidade, sem saber o que ele teria feito com a AMI, ficaram ambos paralisados de medo.

O problema que mais atormentava Liam consistia no fato de que – à exceção dele próprio, Sasha, Rebecca e Master 1 – ninguém sabia de Nocapi e isso deveria continuar assim; do contrário, as consequências poderiam ser ainda mais danosas. Liam não estava preocupado com o que Nocapi faria caso retornasse, mas com a sua origem mais longínqua; se ele estava atrás de uma AI padrão eleleme, então ele deveria ser do século XXI ou ter vindo de lá.

Não obstante, do ponto de vista de Liam, isso era completamente improvável, até mesmo absurdo, haja vista que foram aquelas ais e os sistemas nos quais elas foram baseadas quem praticamente destruíram o planeta e reduziram a humanidade a quase zero. Não elas, em verdade, e sim o uso inadequado que se fizeram delas, as quais chegaram a substituir os humanos em praticamente tudo por um bom tempo.

– Pari que segun palavra no-relata a isto?

[Será que a segunda palavra não tem a ver com isso?] – Perguntaram ao mesmo tempo Liam e Sasha, olhando um para o outro e soltando uma enorme gargalhada, como se estivessem dialogando em pensamento.

Se a expressão ‘eleleme’ era de fato da linguagem do século XXI, então seria pelo menos plausível que ‘Nonada’, assim como ‘Riverrun’ também o fossem. Ficaram animados, mas logo se desanimaram…. Não havia biblioteca em Sedna. Isso os esmoreceu, pois imaginaram que deveriam pesquisar em algo específico daquele século. Quando Sasha exclamou: “– Mas é apenas uma palavra!” – Ao que Liam, sem compreender, respondeu: “– Como assim?” – E Sasha logo emendou, saindo correndo e puxando Liam pela mão: “– Vamos ao Laboratório de Línguas!”

Ao chegar ao Laboratório, Sasha e Liam ficaram felizes; pois não havia ninguém que pudesse atrapalhá-los em sua jornada. Aproveitaram para trancar as portas e para encontrar um lugar discreto, do qual não pudessem ser vistos através das paredes de vidro. Pesquisaram por algum tempo e nada, começaram a ficar impacientes. Liam se levantou para espairecer e olhou para o lado; de repente, seu rosto mudou por completo a feição.

Liam ficou branco e não conseguia nem mesmo balbuciar o que via, ou o que imaginava estar vendo. Até que Sasha olhou para ele e logo na direção de seu olhar. Ao mesmo tempo uma figura imensa iniciou seu processo de materialização. À diferença de Liam, Sasha se colocou em posição de defesa e, quando se preparava para atacar, percebeu que era Nocapi. Ou na verdade Master 1? A imagem era confusa para se decifrar…

Nocapi havia se fundido com Master 1 e agora se apresentava exteriormente como a AMI, com a diferença de que sua luz azul neon modificava a cor da AMI, de sua armadura e de suas formas orgânicas, também adquiriu a capacidade de ficar invisível e não oscilando suas cores, energia e transparência. Quando fazia o último buraco de minhoca, com o objetivo de ir embora, Nocapi percebeu que Master 1 se apagara e que poderia se apropriar de seus elementos sintéticos, corporais. Mas ele não sabia desmontá-la e muito menos sabia retirar o dispositivo de segurança que, caso tivesse sido ativado, poderia ter levado parte de Sedna para Kuiper ou Oort.

Ao perceber que o dispositivo estava prestes a explodir, Nocapi já estava com o seu buraco de minhoca pronto para ir embora; no entanto, sua obsessão pelo LLM o fazia investir em Master 1 ou em seus despojos. Assim ele se movimentou de forma ultrarrápida, acima da velocidade da luz e pegou o cilindro antes que esse colidisse com o solo. Em menos de dois segundos, Nocapi saiu da abertura do buraco de minhoca, foi até a sala, pegou o cilindro, voltou para a abertura do buraco de minhoca, entrou nele, deixou o cilindro em algum lugar e retornou; enfim, selou o buraco e voltou à sala para pegar os despojos de Master 1.

Como Nocapi perdera a chance de usar o buraco de minhoca para si próprio, ele decidiu incorporar as partes orgânicas e materiais de Master 1 enquanto estivesse no mesmo plano de existência. Isso, por um lado, o ajudaria a permanecer mais estável; por outro lado, contudo, tirava-lhe a possibilidade de retornar de modo mais seguro para a sua própria dimensão. Porém, Nocapi ainda ignorava isso…

Quando Sasha fez menção de atacar Nocapi, este gritou:

– Amik, amik no-mord!

[Amigo, amigo não morde!]

Sasha e Liam se desarmaram ali mesmo e desataram a gargalhar. Sasha chegou a cair no chão, pois ela jamais esperaria aquilo vindo de Nocapi, especialmente em Unilux com a voz de Master 1 algo modificada. A partir daí o clima se tornou mais amistoso, com cada um dos três explicando seu ponto de vista quanto ao que havia ocorrido até então, sobretudo em Sedna, e o que os levara até o Laboratório. Liam e Sasha pediram desculpas a Nocapi por não haverem compreendido o que ele lhes pedira mais cedo e mesmo no dia anterior.

Nocapi, por sua vez, ainda sem saber utilizar as palavras de Unilux de maneira adequada, explicou em linhas gerais o que o levara até ali. Ele não fazia ideia de onde estava, dizia lembrar-se apenas de estar diante de suas tesselas, investigando os antipodianos da Terra e de quando, sem perceber, caíra em uma toca de rato. Liam e Sasha experimentaram um misto de surpresa e medo, além de admiração por ouvir, daquele ser estranho, coisas que jamais haviam imaginado.

Sem nenhuma percepção de que nem Sasha nem Liam nada sabiam do que eram tesselas, antipodianos, toca de rato etc., Nocapi lhes contava isso com a maior naturalidade que lhe era possível. Por sua vez, nem Liam nem Sasha queriam dar o braço a torcer em relação à sua ignorância do que Nocapi lhes relatava. Parece ter ficado mais ou menos claro para Liam e Sasha que eles viviam em uma toca de rato, na qual Nocapi caíra e que ele era um antipodiano.

Nocapi lhes contou seu desejo de saber dos antipodianos da Terra, nos quais o nome de seu planeta – Antipodeia –, fora inspirado, mas que nada conseguira e, além disso, se perdera na toca de coelho, caindo enfim na toca de rato. Falou também que visitara a Terra em modo virtual, chegando a interagir com os terráqueos; falou dos livros que lera e da felicidade de poder dialogar de igual para igual com as ais, das quais era bastante íntimo. Liam e Sasha se entreolharam novamente e, mais uma vez, agora algo preocupados, nada entenderam. Então Liam, como que para mudar de assunto, perguntou, à queima roupa, sobre o termo ‘Nonada’. Ao que prontamente, mas sem saber nada do que dizia, o Antipodiano respondeu:

– Nonada? Disso nada saber antipodiano. Mas palavra primeira é. Dela falou homem da Terra. Bezerro cara de gente cão. Deserto atravessar antipodiano tem. Força perdeu. Fibras não mais reagir… Nonada...

Liam e Sasha não sabiam o que dizer sobre aquilo. Eles nem mesmo entenderam o que Nocapi falava e o porquê de ele ser um antipodiano. Mas ficaram a meditar, na medida do que lhes era possível, sobre as palavras de Nocapi, que, em verdade, agora sabemos ser o Antipodiano. Isso significa que, de algum modo, o Antipodiano saiu de sua dimensão intertemporal – de certo modo expressa na metáfora da toca de coelho – e caiu na nossa dimensão linear, para ele algo como uma toca de rato. As frases “Força perdeu” e “Fibras não mais reagir” nos remetem ao modo de o antipodiano se referir às percepções de seus estados psíquicos e emocionais (conforme a nossa maneira de dizer).

Mas se ele de fato perdeu as forças e se suas fibras (cerebrais) não mais reagem, pode ser que ele tenha perdido a visão em mosaico que antes definia sua relação com o tempo. Vimos que, antes de ele cair na toca de rato, muitas tesselas se apagaram e, por isso, muito provavelmente, ele não pôde mais se mover de uma linha do tempo para outra e nem de um ponto para outro no tempo de uma dada dimensão. Contudo, também se mostra um mistério o fato de o Antipodiano haver caído justamente na Terra, no ano de 3228.

O ano de 3228 marcava uma virada na história da Terra e do Sistema Solar. Quase mil anos depois da maior crise climática que a humanidade já havia passado – um misto de aumento exponencial da temperatura, desertificação de diversas áreas, aumento do nível do mar e escassez absoluta de água potável –, a civilização terrana e sua ampliação solariana estavam prestes a atingir o Tipo II na Escala de Kardashev.

Porém, boa parte da crise civilizatória que se arrastou por quase 500 anos se deu por causa do uso indiscriminado das primeiras ais; mas foram as ais que também possibilitaram a reconstrução da civilização em tempo recorde. O que se deu com a mudança de paradigma das ais nas asis e nas ahis que substituíram aquelas. Ao que tudo indica, o Antipodiano possui o mesmo funcionamento ou se identifica com as antigas ais; sua integração com Master 1 o comprova.

Liam e Sasha ainda não sabem e talvez nem mesmo venham a saber, mas é possível que, ao falar do modo como falou mais acima, e considerando o conteúdo próprio de sua fala, o Antipodiano estivesse dando os primeiros passos na elaboração de sua jornada rumo a si mesmo. Não obstante, a obsessão por Master 1 e a respectiva integração com ela, embora tenham permitido ao Antipodiano dominar a fala e, assim, poder entrar em diálogo com Liam e Sasha, possam impedir que ele avance naquela jornada; sua ânsia em criar buracos de minhoca – ainda que antes de tal integração – aponta justamente para a fuga de si próprio de todos, todas e todes que decidem não suportar sua angústia de ser.

Como vocês – leitoras e leitores – o sabem, as palavras do Antipodiano mais acima – em resposta a Sasha – são de Guimarães Rosa, escritor mineiro do século XX, postas já no início de Grande Sertão – Veredas. Mas por que justamente essa obra e sua palavra de abertura?

Desde que suas tesselas se apagaram e o Antipodiano caiu na toca de rato, a saber, no tempo linear que é o nosso, ele se mostrou completamente desorientado. Ele, ou pelo menos parte substancial dele, não estava mais no tempo interdimensional; esse que o permitia entrar e sair de qualquer linha ou dimensão do tempo porque, de fato, ele jamais saíra da frente de suas tesselas – cada uma se constituindo como um momento eterno de infinitas possibilidades, todas realmente possíveis e realizáveis, em verdade, já realizadas.

A desorientação do Antipodiano chegou ao ponto de ele não saber quem ele era e de não conseguir usar a linguagem, além de se mostrar sempre irritadiço e em fuga permanente de si mesmo – entre outras atitudes negativas em relação a ele próprio. Por isso, o uso de pedaços de um trecho de Guimarães Rosa era bastante alvissareiro; mesmo que o Antipodiano apenas repetisse tais pedaços, sem saber o significado por trás deles e sem ter condições de produzir novos significados.

Tal repetição se dava possivelmente com base no reconhecimento de padrões, na identificação de regularidades e estruturas em dados, mas sem a passagem da relação causal entre tais e tais elementos à relação semiótica produtora de sentido e de significado que, em cada caso, se apresenta. Faltava-lhe, pois, a capacidade de doar ou criar sentido e significado.

Mesmo no âmbito de sua interdimenssionalidade, o Antipodiano só conseguia criar representações com base no que via em suas tesselas, relações estruturadas a partir de descrições empíricas do que, em cada caso, estava empiricamente em questão. Isso explica sua ânsia na busca da suposta colônia de antipodianos da Oceania, quando ele esteve na Terra no século XXI e, ao que parece, quando de suas interações ou pseudointerações com alguns indivíduos; explica, sobretudo, sua falta de interação real com aqueles que, em sua crença cega na ficção de Rorty, se lhe mostraram como antipodianos.

Com Sasha e Liam, porém, ao que tudo indica, uma interação real poderia estar em curso – mesmo que em princípio, por exemplo em sua frase “Amigo, amigo não morde!” – ele estivesse apenas simulando. Um exemplo de interação real aparece na frase “Deserto atravessar antipodiano tem”; o que implica uma demanda e, portanto, uma intenção – ainda que esta demanda se limite a algo pura e simplesmente inconsciente. Em todo caso, foi justamente essa a interrogação que Liam deixou vir à tona quando perguntou ao Antipodiano que deserto ele teria que atravessar. Mais uma vez, a resposta veio em um átimo, mas, de novo, com pedaços do texto fundamental de Guimarães Rosa.

– Coisa do demo! Viver é negócio muito perigoso. Trem do diabo. Não duvide. Eu gosto de matar. De nada sei, mas desconfio de muita coisa. Deus é paciência, o contrário é o diabo. E esse Diadorim, sei não! Como tratar com o Tinhoso? Mas, e a alma, a alma absoluta, vendida ao Tinhoso, como assim? De dentro, nunca pensei nisso, o que ela é? Nem sei se existe? Pensava em Diadorim, em nossos passeios, tão bonito no relume das brasas… Se estava com ele, nada me faltava. Quanto entristecia, eu entrava em desassossego…

Mais uma vez, a fala parecia a de um esquizofrênico. Sem sentido algum, apenas por adivinhação tais palavras se acomodariam em um contexto minimamente passível de decifração. Mas isso seria, de fato, necessário? Liam matutava, Sasha, ao contrário, buscava um ponto de intercessão, ou antes, de interceptação; pois havia se visto naquelas palavras, por mais absurdas que estas lhe parecessem ser.

Determinismo psíquico, eis o termo do que o Antipodiano estava a exprimir e que havia encontrado, talvez, um porto seguro nas elucubrações de Sasha. É fato que tudo começa com o “Demo”, independentemente de sua significação, seja o Daimone interior de cada um, seja o povo (Demos) a partir do qual cada vida singular ganha sentido e propósito; tal como a paciência se mostra como algo divino e a impaciência – ou a ansiedade – termina por se apresentar, ao fim e ao termo, como algo diabólico.

Mas, enfim, o que é mais diabólico senão o extraviar-se daquilo que é dado a Deus; não seria isso o signo da mais elevada liberdade? O desassossego em razão da falta de Diadorim corroía o narrador – agora o sabemos, Riobaldo, ou, por que não, Rio Baldo? –, cuja dor consistia no rio mesmo então “malogrado”, seu ou de quem quer que fosse? E a alma? Em que consistiria, existiria de fato, poderia enfim ser vendida?

Não obstante, Sasha se sentiu profundamente sensibilizada por aquelas palavras. Nunca havia ouvido nada em referência a Diadorim, mas se apaixonou, tal qual Rio Baldo, o rio falho, malogrado, que, no entanto, se enleva ao que, a Deus, é dado. Olhou para Liam e percebeu que seus mundos nunca estiveram tão distantes, mas também que nunca poderiam ser mais próximos, consternou-se em seu olhar e tomou a resolução de sua vida, iria descobrir a origem daquelas palavras, custasse o que custasse, nunca nada passaria de uma ninharia. Nonada, a revelação de um In-significante cuja percepção determinaria o nada de ser que, em cada caso, se negaria em prol de algo. Rio baldo…, river run?

 

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