M. Selva

XX. Eleleme

Sasha e Liam permaneciam parados, olhando para o chão, sem se dar conta de quejá estavam ali há praticamente uns 20 minutos. Foi quando apareceu Rebecca,ainda transtornada com tudo o que havia acontecido, mas agora ainda mais tensae preocupada. Ao ver Liam e Sasha completamente paralisados, ela não se contevee saiu em disparada em direção a eles, gritando:

– Não, não, isso nããããããããããããoooooooo.

Assustados com o grito, Sasha e Liam voltaram a si e, sem saber o que estava acontecendo, olharam para Rebecca como que perguntando sobre o ocorrido. Mas Rebecca também não sabia de nada, se contentou em abraçar Liam e Sasha. O triopermaneceu abraçado e em silêncio por cerca de uns 3 minutos, até que Sasha se deu conta de que Master 1 não estava mais na sala.

– Master 1, desapareceu! – Disse em tom surpresa.

Em modo automático, os três vasculharam a sala com um olhar de 360º e então saíram correndo para procurar Nocapi, decidiram em comum que cada um e cada uma se dirigiria a uma direção específica. Coube a Sasha encontrar o espaço com as rochas naturais de Sedna então aparentes; de imediato ela percebeu o trabalho de Nocapi: um imenso buraco pulsante na parede, protegido por uma película forte o suficiente para não deixar seu conteúdo interagir com o ar da sala (do espaço) em que estava e flexível o suficiente para deixar passar qualquer corpo ou objeto que nele coubesse. “Um novo buraco de minhoca!”, exclamou Sasha em pensamento.

Então chamou Liam e Rebecca. Juntos novamente, os três se puseram a considerar o que Nocapi poderia ter feito.
Um fato se mostrou incontestável aos três: o sumiço de Master 1 todo desmontado e aquele buraco de minhoca enorme eram obra de Nocapi. “Mas por que ele faria isso?” – perguntavam-se os três, contudo, apenas em pensamento, sem comunicar aos outros suas confabulações individuais. “Por que motivo Nocapi sequestraria
Master 1, se ela estava inoperante?”, com perguntas como essas os três foram, pouco a pouco, refazendo o caminho de Nocapi.

Primeiro, quando resgatado pelos guarda-vidas na enseada de Oásis Prime, ele começou a fazer movimentos estranhos na areia. Liam, que estava sozinho com  Nocapi naquele momento, nada entendeu dos movimentos deste; pensou tratar-se de um tipo de convulsão e apenas observou.

Depois, o mesmo aconteceu dentro do Bunker, no nível mais profundo deste, justamente no lugar em que sua pedra
fundamental foi assentada e uma parte do solo ficava à mostra. Agora, mais uma vez, a mesma estrutura aparece e, tal como a segunda, se mostra como um buraco de minhoca completamente funcional. “Mas para onde ele vai?”, perguntam-se os três, ainda sem verbalizar qualquer opinião ou dúvida entre si. Tudo se passa como se Rebecca, Liam e Sasha ainda estivessem em choque. Nunca em suas vidas havia acontecido algo tão drástico em tão pouco tempo.

Os pensamentos de Rebecca a levavam para pelo menos uns 200 anos antes, quando convivera com seus ancestrais em um dos períodos mais árduos do sistema solar em geral e da Terra em especial. Essa a época em que retornaram as primeiras sondas enviadas para o espaço interestelar coisa de uns oitocentos anos antes; a descoberta de seres inteligentes em outros sistemas solares levou ao frenesi das amis. Master 1 foi a primeira, porém, como AMI, ela era na verdade uma espécie de protótipo baseado nos princípios das ahis e das asis. Foi quando, em um átimo, Rebecca saltou e, novamente, gritou mais uma vez. Mas agora, ao que parece, um grito de alegria.

– Eleleme! Eleleme! Só pode ser isso. Só pode!

Liam e Sasha, sem entender nada, se entreolharam e olharam para Rebecca. Ela, algo envergonhada, afirmou:

– Há muito tempo, quando ainda não havia amis, uma sonda enviada ao espaço interestelar transmitiu uma mensagem para a Terra na qual  informava sobre seu retorno com dados e outros elementos de uma civilização alienígena. Nessa época o planeta recém saia de sua crise climática global, havíamos finalmente aprendido a controlar a força dos oceanos e de todo o processo das águas e dos ventos; o que só foi possível com a invenção das ahis, hiperinteligências artificiais com as quais não só debelamos a crise climática, mas também aprendemos a
usar cada hertz de energia que a Terra era capaz de produzir. Aquela nave ainda iria demorar quase 100 anos para chegar à Terra, mas como já estávamos com colônias em Marte, Europa, Encelado e Titã, vimos por bem proteger esses lugares. A criação das amis teve esse como seu primeiro objetivo; o segundo foi tornar viável as viagens interestelares tripuladas. Para isso, contudo, era necessário muito mais energia do que conseguíamos produzir na Terra e nas colônias. Era preciso colonizar o sol com as esferas de Dyson, atualmente quase completas. Master 1 foi
construída a partir de um modelo de linguagem bastante antigo, mas capaz de ser adaptado para a construção de amis em série. Essa a eleleme que Nocapi se referia em sua ladainha de três palavras. Só pode ser isso. Só pode…
– Mas o que é essa tal de eleleme? E o que isso tem a ver com o sequestro de Master 1 por Nocapi, um ser literalmente sem cabeça? – Indagou Liam

– Há mais de um milênio, as línguas mais faladas no planeta Terra eram controladas por uns poucos países, cujo poder econômico sobrepujava os demais e se lhes impunha costumes, mercadorias e, principalmente, a língua. A eleleme foi criada no âmbito de uma dessas línguas para treinar as primeiras ais; assim eleleme é a pronúncia da sigla LLM, que significa Large Language Model (Grande Modelo de Linguagem). Há mais ou menos 300 anos se convencionou que esse modelo de linguagem, uma vez atualizado e compatibilizado com a emergência do presente,
seria o mais adequado para contactar visitantes do espaço profundo. Embora funcione, esse modelo já está ultrapassado, não é Sasha?

Sasha se assustou quando interpelada por Rebecca, que parecia querer provocála. Intimidada, Sasha disparou:

– Eu sou versada em todos os idiomas do sistema solar e consigo aprender um novo idioma com a audição de apenas umas poucas de suas frases. Isso, porém, não me serviu de nada no trato com o tal do Nocapi; pois nem o nome dele eu consegui aprender, ele também não parecia capaz de falar, mas de adivinhar, era como se ele entendesse
melhor nossos pensamentos ou nossas representações mentais uma vez ativadas que nossa voz articulada…
– Quem sabe a língua dele não seja diferente do que entendemos por língua e esse Grande Modelo de Linguagem, também seria uma língua?
– Indagou novamente Liam, algo transtornado e sem entender o que estava se passando.

– O pouco que sei é que o assim chamado Grande Modelo de Linguagem foi uma forma de Inteligência Artificial primitiva – anterior às asis e, para muitos, nem inteligência e nem artificial –, treinada com uma grande quantidade de dados, em sua maioria apropriada e utilizada de modo ilícito, para reproduzir a linguagem humana e a replicar de diferentes maneiras o conteúdo apropriado. Em resumo, seria um tipo de AI capaz de compreender, gerar e processar linguagem humana e, desse modo, realizar tarefas como tradução, escrever códigos e resumir textos,
especialmente a partir de diálogos na forma de perguntas e respostas com seus usuários. Aprendi isso quando tive que montar meu pequeno exército de asis e ahis. – Respondeu Rebecca, se gabando.

– Isso é muito louco, mas não explica por que Nocapi teria sequestrado Master 1, já que ele, ao que parece, é capaz de telepatia. Me pareceu que ouvia nossos pensamentos; por isso, percebendo que o queríamos bem, ele nos poupou. Se não fosse ele, poderíamos não mais estar aqui, já se esqueceram do dispositivo que tirei de Master 1? Era para ele ter
explodido. Mas, ao que parece, não explodiu. Ou será que explodiu e já estamos mortos sem o saber? – Considerou Sasha, em uma reflexão de cunho existencial pós-apocalíptico.

– Não sei do que vocês estão falando – interrompeu Liam, bastante agitado e algo desorientado –, mas se algo nisso tudo faz algum sentido, creio que esse Nocapi é um viajante do tempo. Um viajante perdido no tempo, que talvez não saiba de onde veio, nem saiba para onde vai. Se Master 1 tem no seu bojo esse modelo primitivo de AI, é possível que
Nocapi tenha aprendido a linguagem desse modelo em algum momento e tenha percebido nele uma certa vantagem – ainda que meramente para a sua sobrevivência. O mais estranho é que o tempo todo as amis pareciam estar atrás dele e, no final, foi ele quem capturou uma AMI. Realmente, tudo isso é muito louco mesmo…

Assim ficaram os três, por algum tempo, absortos em seus pensamentos e nos que, de quando em quando, alguém deixava vir à luz. Nada mais parecia realmente importante e só importava deixar-se levar pela coisa mesma que, precisamente ali, estava modificando de uma vez por todas as vidas de Rebecca, Liam e Sasha. Nenhum dos três exigia uma compreensão imediata ou apressada das vivências tão intensas que tiveram naquela manhã e naquele início de tarde (considerando o tempo da Terra).

Não fosse a dimensão trágica dos acontecimentos que então se seguiram – ou, em rigor, justamente por causa dessa dimensão –, ninguém diria que estavam filosofando sobre o fenômeno de ser quando da iminência mesma da
nadificação de todo ser… E quanto a Nocapi, seria ele uma viajante do tempo, tal como Liam imaginara?
Nocapi era capaz de criar buracos de minhoca e viajar por eles. Assim o fizera com Liam e Sasha ao criar o buraco de minhoca que os conduzira do Bunker de Oásis Prime à Cidadela Interior de Rebecca em Sedna. Ora, viajar por buracos de minhoca é uma forma de viagem no tempo, mas será que Liam estava se referindo a esse tipo
de viagem no tempo? Foi ele quem ficou mais tempo com Nocapi, no entanto, só percebeu que viajara por um buraco de minhoca quando se deparara com a sua mãe em Sedna sem ter viajado para esse planeta de modo convencional. O mesmo de dava com as cores de Nocapi, as quais oscilavam entre o azul neon bastante forte e um branco quase 100%, o que transparecia ou dava a impressão de que ele estava ou parecia estar em dois lugares ao mesmo tempo, como que cindido dentro de si. Isso fez com que Liam começasse a sentir uma profunda empatia por Nocapi e quisesse, sinceramente, ajudá-lo.

– Meu Deus! Minha reunião! Dessa eu não me salvo! Ilumine meu futuro, oh, Senhor Indiviso! – exclamou Rebecca, que saíra às pressas para uma reunião com interessados em investir em seu entreposto e nas viagens interestelares que ela estava prestes a inaugurar.

Liam e Sasha ficaram se olhando como dois apaixonados, ao mesmo tempo em que olhavam Rebecca sair apressada e, embora algo envergonhados, esboçaram um largo sorriso – quase sem propósito. Em suas mentes e corações, porém, uma preocupação crescia de modo exponencial. Onde estaria Nocapi e o que ele estaria fazendo com Master 1. Era inegável que Nocapi havia salvado suas vidas, mas por quê? Quem era Nocapi e qual o motivo de ele estar ali, naquele lugar, naquele tempo e, sobretudo, naquelas condições? Por que ele precisaria de um Grande Modelo de Linguagem, algo de fato já obsoleto em sua forma original há mail de mil anos? Seria ele um viajante do tempo, um viajante do século XXI?

Questões como essas carcomeram boa parte do tempo de Liam e Sasha; os quais, mesmo em Sedna, cuja rotação é a mais lenta do sistema solar, mantinham como referência o tempo da Terra para seus afazeres cotidianos e processos circadianos.
Pensaram em entrar no buraco de minhoca recém-descoberto, mas o fato de agora estarem sem a “proteção” oficial de Nocapi ou mesmo o fato de agora tê-lo como adversário fez com que recuassem; pensaram igualmente em voltar para o Bunker de Oásis Prime pelo buraco de minhoca anterior, contudo, o medo de que este não estivesse mais funcional também os impediu de continuar. E agora, o que fazer?
Saíram do espaço de mãos dadas, cabisbaixos. Em cada cabeça, uma sentença diferente estava a se formar. Ambas, porém, referentes a Nocapi.

 

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