Selva
XVIII. Tensão em Sedna
Ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo. Embora conscientes, mas sem poder mexer um músculo sequer, cada uma e cada um dos presentes só podia fantasiar o real que, ali, lhe escapava de modo inexorável. “Quem havia prendido quem?”, eis a pergunta que, na prática, todas e todos estavam se fazendo; tudo se passava como se nada do que havia acontecido até ali naquele dia – ou nas últimas 18 horas, no horário de Oásis Prime, fosse real. Talvez estivessem em um mundo paralelo ou em um sonho, mas um sonho partilhado por seres humanos naturais e Inteligências Artificiais – seria isso possível? Eis aí outro pensamento ou hipótese que perpassava as mentes ali presentes e como que equidistantes.
No centro da sala, sentada numa cama cabana – em volta da qual, no chão, como que em um círculo, pairavam milhares de bolhas minúsculas, pequeníssimos pedaços de vidro arredondados, espatifados que foram pelo grito de Rebecca – permanecia a Senhora de Sedna, como uma figura petrificada ante uma visão cara a cara com medusa. À sua esquerda, para onde ela ainda olhava como os olhos arregalados e uma expressão de pavor, que se irradiava para toda a face, estava Master 1, a qual, por sua vez, olhava para Sasha com uma cara de arrependimento, como se tivesse cometido um erro irremediável, algo como uma expressão de dor infinita – talvez devido à sua posição, meio encurvada na direção de Rebecca e meio encurvada na direção de Sasha. Se isso era dor mesmo, é impossível saber; em todo caso, essa expressão revelava o equívoco fatal de Master 1 em se mostrar de imediato, sem antes estudar melhor o local e saber se o ambiente lhe era seguro.
Todavia, Master 1 compreendia muito bem a sua desvantagem e a necessidade de ganhar posições, seu corpo entortado para lá e para cá, refletido nos olhos de Rebecca, fazia com que seu movimento reptiliano ganhasse contornos de uma serpente em pleno ataque. Nesse caso é possível que a expressão de dor fosse apenas uma forma de mascarar o desespero e as consequências de uma captura sem precedentes, inesperada.
Sasha percebia o desespero de Master 1, que jamais a enganara. Mas isso tornava tudo ainda mais difícil de se compreender, pois Rebecca não possuía o poder de paralisar entidades como Master 1 ou como Sasha; e nem ela mesma, Sasha, possuía esse poder. É verdade, porém, que ela, assim como Master 1, possuía uma determinada fração desse poder; entretanto, mesmo que uma delas estivesse utilizando tal poder, isso não explicaria o fato de justamente quem estivesse ali, ao fazer uso dele, ficasse nele igualmente enredada. Nos limites de seu ponto de vista, completamente focada em Master 1, Sasha não via mais nada nem mais ninguém; foi ela quem primeiro detectou a presença de Master 1 e, por isso, se adiantou numa posição defensiva.
Em vista disso, Sasha não conseguia deixar de se representar a possibilidade de Rebecca e Liam estarem mentindo, afinal eram humanos…, a possibilidade de estarem por trás de tudo o que estava acontecendo. “– Em resumo, não foi Rebecca quem pediu para que eu fosse atrás de Liam no cair da noite do dia anterior? Tudo o que aconteceu depois disso teria sido mera coincidência?”, se perguntava em um tom de descrença total…
De fato, na noite do dia anterior, Sasha estava em seu apartamento no aguardo de Liam para reverem os últimos detalhes da viagem para Sedna, onde ficariam por tempo indeterminado. Porém, com os acontecimentos na enseada de Oásis Prime e a demora de Liam em chegar em casa, Rebecca entra em contato com Sasha em busca de alguma informação sobre o paradeiro do filho; pois ela também precisava resolver situações da viagem com ele. A demora de Liam em chegar em casa, assim como no apartamento de Sasha fez com que esta aceitasse o pedido de Rebecca para procurá-lo; o que ela faz de bom grado, sem saber o que a aguardava na praia.
Lá estavam Liam e um ser estranho, esse deitado na areia e em movimentos de braços e pernas no formato de anjo ou de estrela – Sasha não sabia muito bem os nomes das brincadeiras de crianças anteriores à Era da IA –, o fato é que o ser parecia formar um perímetro de pelo menos dois metros de diâmetro. Naquele momento, ela não percebeu aqueles movimentos como algo proposital e apenas considerou certa angústia ou ansiedade. De qualquer modo, o ser parou de fazer tais movimentos assim que ela chegou no local; algo que Sasha, mais uma vez, considerou como uma atitude de relaxamento ante a sua presença e a decisão de Liam de saírem dali o mais rápido possível.
Premida pelas circunstâncias, pelo inusitado daquele ser sem cabeça e pescoço, que, mesmo assim, media mais de dois metros de altura, tinha uma cor morena-escura, ligeiramente azulada, meio que para o roxo, braços e pernas musculosos, mas sem nenhum pelo, assim como pelas luzes no céu que se aproximavam cada vez mais, sua única decisão só poderia ser uma, refugiarem-se no Bunker de Oásis Prime.
A criatura não parecia oferecer nenhum perigo, seus olhos, nariz e boca se mostravam bastante suaves e tinham um quê de angelicais; o que reforçou ainda mais esse aspecto – embora algo mítico e mesmo místico – foi a ausência de sexo, quer dizer, seu sexo ou não existia ou não era aparente. Algo preocupante, que produziu certa ansiedade (ou algo do tipo) em Sasha, consistiu no fato de que, embora o ser possuísse nariz, ele não parecia respirar; pois seu nariz, assim como seus olhos e boca se localizavam no seu tronco. Se ele respirava, é certo que também seria capaz de ver, comer, beber ou dizer o que quer que fosse, mas nada disso tinha se comprovado até então (já em Sedna); não obstante, ainda na praia de Oásis Prime, o ser parecia definhar a olhos vistos, uma situação patente, por exemplo, no decaimento acelerado de sua temperatura.
Por tudo isso, Sasha considerou segura a decisão de levar Liam e o ser para o Bunker – agora, contudo, ela se questionava se essa teria sido, de fato e de direito, a decisão correta. “Até que ponto tudo o que estava acontecendo não era algo orquestrado pelo próprio Liam ou por alguém se utilizando dele? E agora, sem poder vê-lo, mas vendo diante de si apenas Master 1 dando mostras de toda a sua força destrutiva; onde Liam está e o que ele pensando nesse momento, será que ele ainda é confiável? O que fazer com Master 1, como ele apareceu aqui, do nada!?! Estaria ele coligado com Liam, com o ser estranho ou se trataria de um outro movimento que eu ainda não me fiz capaz de compreender?” Se perguntava Sasha, em pensamento, quase chegando ao desespero.
Liam permanecia atrás de Sasha, um pouco mais à direita que ela, e algo ainda mais próximo de Rebecca, à sua direita, numa posição diretamente equidistante à de Master 1. Ele via Master 1 de modo privilegiado, mas esta não o via justamente por estar com os olhos fixados em Sasha; o mesmo acontecia com Sasha, a qual, por permanecer fixada em Master 1, não conseguia perceber mais nada e portanto ninguém – donde sua paranoia em relação a Liam e a Rebecca.
Naquele exato instante, Liam era atravessado por um imenso sentimento de culpa, pensou que teria cometido o maior erro de sua vida e que teria estragado de vez o projeto de sua mãe, de transformar Sedna no primeiro e maior entreposto interestelar da galáxia. Tudo ia tão bem, da terraformação ao uso de todas as energias do planeta, dos contatos com exploradores, pesquisadores e mesmo aventureiros de todos os tipos, o entreposto seria a redenção da família como um todo, mas agora, isso…. E como sair disso?
O melhor seria ter saído correndo à toda, como o fizeram todos os outros que estavam na praia na tarde de ontem, sua curiosidade o havia colocado naquela enrascada. O pior de tudo era como explicar o que estava acontecendo, será que sua mãe estaria entendendo algo, por mínimo que fosse? E por que Master 1 estava ali, como ela teria tido acesso ao Bunker? E por que justamente no Bunker se abriu, naquela hora, aquele buraco de minhoca, que os levaram até Sedna? Nada fazia sentido, a menos que…
Naquele mesmo instante, em que todas e todos refletiam sobre o acontecimento do qual eram parte involuntária, um barulho começou a se fazer notar, uma luz azul neon inundou o ambiente como que embriagando ainda mais os presentes. O barulho era na verdade uma voz, mas não uma voz pronunciada via cordas vocais, mediante o aparelho fonador dos seres humanos ou por algum tipo de construto artificial como os aparelhos fonadores de Sasha e Master 1, mas antes por algo como uma voz esofágica, extremamente difícil de entender. Ninguém fazia ideia do que estava acontecendo, até que uma figura de aproximadamente dois metros chegou perto de Master 1 e lhe dirigiu as seguintes palavras: “– Nonada, riverrun, eleleme.”.
Era o ser estranho que Liam e Sasha haviam salvado na praia 15 horas atrás, o assim chamado Nocapi, o sem cabeça: “Então ele fala…”, pensaram ao mesmo tempo Sasha e Liam, ambos olhando fixamente para Master 1 através de Nocapi, que se mostrava a essa altura algo transparente, a ponto de se poder ver através de seu corpo, ou antes, de sua silhueta. Diante de Master 1, Nocapi repetiu diversas vezes as três palavras, das quais a AMI jamais havia tivera qualquer notícia; isso produziu dois movimentos inusitados e, justamente por isso, perigosos: de um lado, percebendo o que interpretara como certa hesitação de Nocapi, Master 1 tentou se mover para ataca-lo, precisamente quando Nocapi a libertou da prisão de movimentos que então a paralisava; contudo, de outro lado, buscando algo como o apoio de Master 1, mas notando sua reação violenta, Nocapi quebrou de um só golpe e com a maior facilidade os quatro membros de Master 1, que também voltou a ficar paralisada mediante um movimento feito por Nocapi. Da mesma forma que se aproximara de Master 1, Nocapi se virou para Sasha, olhou fixamente nos olhos dela e disse em tom de pergunta:
– Nonada, riverrun, eleleme?
Sasha não sabia o que dizer, até porque ainda estava completamente paralisada. Todavia ela imaginou algo como um diálogo na linguagem da antiga internet das coisas, mas sem sabê-lo de fato. Em nossa linguagem, isso soava assim: “– Meu amigo, não sei o que essas palavras significam, mas posso ajudá-lo, na verdade eu e o meu amigo aqui (imaginando Liam atrás de si) podemos ajudá-lo a descobrir.”. Nocapi pretendia fazer com Sasha o mesmo que fez com Master 1, entretanto, algo na expressão inconsciente de Sasha o conteve; então ele a libertou da paralisação. Ela fez um movimento de agradecimento e pediu desculpas por não o ter entendido anteriormente; quer dizer, por não haver compreendido que Nocapi queria falar-lhe algo.
Aproveitando-se do fato de que agora podia se movimentar, Sasha fez um movimento de cabeça – em uma espécie de súplica – para Nocapi também libertar Liam e Rebecca; Nocapi não a ouviu, porém, com um movimento interpretado por Sasha como para que ela o aguardasse, quando ela demonstrou assentir, Nocapi se aproximou de Liam e lhe dirigiu a mesma pergunta com as três palavras, a saber: Nonada, riverrun, eleleme.
Em seu íntimo, Liam se mostrou entristecido, embora gostasse de ler e falasse várias das línguas então existentes por todo o sistema solar, ele quase não se interessava pela cultura humana pré-IA. Aquelas pareciam palavras da Era pré-IA, mas algo que ele não fazia ideia do que significava ou do que poderia ser ou representar. Como esse foi um pensamento genuíno e abriu por assim dizer algumas janelas para o entendimento das referidas palavras, Nocapi como que esboçou um sorriso e, com isso, automaticamente, Liam se viu libertado. Ato contínuo, Nocapi fez para Liam o mesmo movimento que fizera antes para Sasha e então se aproximou de Rebecca, que ainda olhava fixamente para o lugar onde antes estava Master 1.
– Nonada, riverrun, eleleme?
Nocapi dirigiu a Rebecca a mesma pergunta antes dirigida a Master 1, Sasha e Liam. Rebecca, com o rosto completamente assustado, a boca aberta na forma de alguém gritando, responde em pensamentos: “– Não sei o significado exato destas palavras, mas uma coisa é certa, eu já as ouvi, não sei nem onde nem quando, mas sei que já as ouvi.
Me dê um tempo, até que minha memória chegue no lugar, e eu possa enfim te ajudar, o farei com o maior prazer no pouco que, infelizmente, eu sei sobre tão importante questão.”. Nocapi se afastou quando ouviu tais pensamentos como que a queima roupa, Rebecca de imediato se mostrou arrependida e, do seu modo, confessou para si mesma que havia exagerado e que, se houvesse uma punição, ela a aceitaria de bom grado. Isso não passou despercebido por Nocapi, cujas habilidades – de ler a mente daquelas pessoas – ele próprio não entendia, tão repentinamente tais habilidades haviam aparecido; o fato é que, percebendo a mea culpa de Rebecca, Nocapi também a liberta.
Isso, porém, não retira de nenhum dos quatro ainda inteiros naquela sala a memória do que acabara de acontecer entre Master 1 e Nocapi; então, reciprocamente desconfiados, todos e todas ficaram ali – em um misto de medo e curiosidade – tão somente se entreolhando. Ficaram assim por alguns segundos infinitamente incomensuráveis. Até que Rebecca, finalmente, resolveu quebrar o gelo.
– Algun de vos podia diz-me que real-ocurr en enseada ayer noit-ik e mas-tarde en Bunker? Eu senti pressent fort moment antes de deixar praia; senti vos en apuro por algu motivo que escap-me… E como vos apareci justo aqui — vos tres, incl ta, que pari es centro istu ocurr — e tam-bem aque-la, como tot vos veni parar aqui sin transport tradit? Ja pensa que vos ruin meus negocio? Isto es mi ultima chance…
(Algum de vocês poderia me dizer o que aconteceu de verdade na enseada ontem à noitinha e mais tarde no Bunker? Eu tive um pressentimento muito forte momentos antes de deixar a praia, senti que estavam em apuros por algum motivo, que me escapava… [falava abaixando o tom de voz e olhando fixamente para Liam e Sasha], e como me aparecem justamente aqui [aumentando novamente a voz], tanto vocês três, inclusive você (dirigindo o olhar e apontando o dedo para Nocapi), que, ao que parece, está no centro desses acontecimentos, quanto aquela ali [indicando Master 1], como todos vocês vieram parar aqui, sem qualquer transporte tradicional? Já pararam para pensar que estão arruinando meus negócios? Essa é a minha última chance [começou de súbito a chorar e a soluçar] ….)
Ao ouvir isso, sem saber o sentido daquelas palavras, estruturadas em uma língua que ele jamais havia ouvido até a noite do dia anterior em Oásis Prime, e sabendo menos ainda a motivação do choro de Rebecca, Nocapi se afastou. Ele era capaz de ouvir pensamentos, mas as palavras proferidas oralmente provocavam nele algo como uma repulsa, de algum modo o machucavam; contudo, ele também tinha a capacidade de falar, será que não possuía a capacidade de ouvir? De imediato, Nocapi deu dois passos para trás, como que de um só pulo, e, afastando-se de ré passo a passo, mas com os olhos fixados em Rebecca, saiu da sala movimentando os braços de maneira frenética. Aos berros, como um garoto de quatro anos, mas com a sua voz esofágica, clamava:
– Nonada, riverrun, eleleme!!! Nonada, riverrun, eleleme!!! Nonada, riverrun, eleleme!!! Nonada, riverrun, eleleme!!! Nonada, riverrun, eleleme!!! Nonada, riverrun, eleleme!!! Nonada, riverrun, eleleme!!! Nonada, riverrun, eleleme!!! Nonada, riverrun, eleleme!!! Nonada, riverrun, eleleme!!! Nonada, riverrun, eleleme!!! Nonada, riverrun, eleleme!!! Nonada, riverrun, eleleme!!!
Os gritos, estridentes no início, foram cedendo espaço a tão somente uma leve modificação no ar artificial, produzido para sustentar a vida alguns quilômetros abaixo da superfície de Sedna. Contudo, aquelas palavras e seu som esofágico ficaram ecoando por muitos minutos nos ouvidos de todas e todos ali presentes; os quais, atordoados, tiveram a leve sensação de perderem suas respectivas noções de tempo e espaço. Naquele instante, tudo se passava como se não estivessem ali e sim em um lugar diferente, existente apenas em suas memórias as mais arcaicas – se é que se pode afirmar isso, por exemplo, nos casos de Sasha e Master 1.
Tais memórias arcaicas, porém, se mostravam confundidas ou contaminadas com as imagens do presente, em especial o eco das palavras esofágicas de Nocapi como que ecoando de suas cabeças, quando estas como que recebiam – do lado de dentro –, como um gongo, os golpes de uma baqueta aveludada…. Cada qual “via”, a seu modo, tudo o que teria acontecido arcaicamente, mas agora, de certo modo, misturado com os eventos ali presenciados.
Desnorteada, Rebecca ensaiou ir atrás de Nocapi, deu inclusive alguns passos na direção em que ele havia seguido. Porém, devido à ansiedade à flor da pele que a consumia por completo, Rebecca foi contida por Liam e Sasha. Estes, sem saber de fato o que estava acontecendo, se entreolharam…, um misto de medo e riso sem graça percorreu seus rostos e suas almas de alto a baixo, ou o equivalente a isso…. Mais para o fundo da sala, exatamente no lugar em que Nocapi a jogara, Master 1 permanecia no chão, toda desconjuntada, ainda se contorcendo em pensamentos, ou melhor, em representações…


