M.Selva
XVII. Sedna
Ainda quando estava na enseada de Oásis Prime em busca de alguma informação sobre Liam, Rebecca sentiu um aperto no peito e seu coração começou a acelerar de modo vertiginoso, a respiração ficava cada vez mais e mais dolorida e ofegante, seus músculos também se enrijeceram…. Quando se apercebeu dos sintomas, ela abaixou a cabeça, olhou na direção do Bunker de Oásis Prime e, como que numa espécie de adivinhação, se despediu de seu filho; ela constatou que, se permanece ali, aqueles sintomas poderiam se desenvolver para uma irradiação da dor no peito para os ombros, os braços (sobretudo o esquerdo), o pescoço e a mandíbula. Ela não queria isso, seu suor já estava ficando frio e isso não era um bom sinal.
Da última vez que isso aconteceu, Rebecca também teve que lidar com náuseas, tontura e até mesmo um desmaio; ela não chegou a ter nenhuma sensação de morte iminente ou pânico extremo, mas se movimentava com dificuldade e sentia uma necessidade extrema de sair de onde estava. Tudo parecia estar ocorrendo outra vez, só que agora o acontecimento era real e ela, de fato, estava entre a cruz e a espada, se não fosse para Sedna logo, perderia a chance de sua vida, sem falar nas possibilidades que deixaria de alavancar para os seus pósteros, especialmente Liam. Ao olhar em direção ao mar, porém, Rebecca sentiu uma leveza de espírito que nunca havia sentido antes; paralisada por alguns segundos em razão da rigidez muscular e como que suspensa no ar, uma espécie de visão espiritual se apoderou dos pensamentos da jovem senhora.
Sedna cuida dos que buscam as profundezas e dá o castigo merecido a quem burla suas regras ou penetra em seu território sem a benção necessária. Escuta-se: Liam está bem, esse filho querido, no coração de Sedna ele está…, um novo mundo em sua experiência gesta…, se você realmente a quiser, abrace a escuridão, só assim a luz nascerá. Podem mutilar-me, mas os que o fizerem terão a justiça certa que a eles tempo oportuno incidirá.
Rebecca nada entendeu dos pensamentos que lhe sobrevieram; mas, como não era religiosa, apenas levantou a cabeça – ainda que lentamente, com os olhos fitos no mar, olhando em direção ao Bunker –, deu meia-volta e seguiu plena de si para sua residência. Uma força descomunal se apoderou dela, que em pouco tempo estava pronta e já em sua nave; “Liam pode cuidar de si mesmo e, de fato, onde quer que ele esteja, ele está bem, é hora de cuidar dos negócios da família e dar continuidade à grande tradição dos desbravadores”. Pensando assim, Rebecca entrou em sua nave, registrou o plano de voo interplanetário, delegou os controles à Ahis e se acomodou para dormir. Em poucos minutos, já estava dormindo em sono profundo; com todas as funções do voo delegadas à Ahis, ela não precisava se preocupar com mais nada – afinal, de preocupações ela já estava cheia…. Pensando assim, adormecera.
A nave de Rebecca, do porte de um ônibus espacial daqueles do século XX, mas ligeiramente maior, mais potente e com acomodações para até 5 pessoas confortavelmente instaladas, ao se aproximar de Sedna – já prestes a assednarizar – iniciou um processo de aceleração. Sedna, à frente, ficava cada vez maior, seu vermelho intenso se espraiava e como que ficava mais e mais denso, como sangue, mas um vermelho escuro ou amarronzado, denso, denso, denso e quente, tão quente que penetrava a pele de Rebecca fazendo-a desmanchar-se, fazendo, enfim, com que Rebecca e o sangue fossem um. Lambuzada de sangue, tudo se mostrava como se um nascimento estivesse a ocorrer, mas aqui, ao contrário de um jorrar para fora, a nave prosseguia cada vez mais para dentro de Sedna – tanto que passou como um raio por sua fina atmosfera, consumindo-a inteiramente como o rico oxigênio produzido em suas entranhas, agora misturado ao sangue das tolinas provenientes do metano e do etano que permitiam a Rebecca enriquecer com as suas usinas. A nave rasgou não só a atmosfera, mas também o solo e, cada vez mais, rumo ao centro de Sedna, mostrou à Rebecca o calor do útero de sua mãe, muitas vezes crítica da pelo seu visual congelante e sua atmosfera rarefeita.
– Nãããããããoooooooooo! (Rebecca deu um salto e gritou com todas as suas forças). – Não, mamãe, não! Ele ainda precisa de mim e eu não irei decepcioná-lo!
O compartimento de segurança de Rebecca abriu-se automaticamente quando de seu movimento também automático de sentar-se. Completamente molhada de suor, sua primeira e mais incisiva palavra foi:
– Água, água, água pelo amor de Deus!
Há muitos anos Rebecca não pronunciava a palavra ‘Deus’. Se a pronunciara, isso acontecera no máximo duas ou três vezes em toda a sua vida em um contexto carregado emocionalmente. Contudo, um segundo após acordar toda enxarcada pedindo água, Ahis já estendia o braço mecânico com uma taça de água gelada e com as seguintes palavras de consolo:
– Respire fundo e relaxe, Madame! Tudo não passou de um pesadelo. Estamos prestes a assednarizar e tudo está bem, logo a Madame estará confortavelmente em seus aposentos pessoais.
Rebecca tomou toda a água de um só gole e, não satisfeita, pediu mais. Olhou para fora – porém, ainda com medo – e percebeu a nave se aproximando devagar à Sedna majestosa. Suspirou, respirando lenta e silenciosamente o seguinte pensamento:
Então foi tudo um sonho. O que tudo isso quer dizer? Primeiro aquela voz dentro de mim que de certo modo me confortou, mas agora esse pesadelo… por quê? Tudo bem que não sou religiosa e isso nunca foi um problema para mim, mas por que justamente agora? O melhor é ficar quieta, me recolher e descansar um pouco mais, logo meus clientes estarão aqui e precisarei estar bem – se Liam pelo menos estivesse aqui, eu ficaria mais tranquila, mas onde ele estará, para onde ele foi? –, mas ouvirei o que a voz disse em minha mente. Será que era mesmo, o planeta? Oh, não! Estou delirando…. E se fosse a deusa, afinal, naquele exato momento, meus olhos estavam diretamente sobre o mar, de certo modo, atravessando-o…. Mas será que existe mesmo?! Nada, estou delirando, tudo isso não passa de mitologia…
Enquanto Rebecca dava azo ou não aos seus pensamentos, Ahis entrou com a nave pelo túnel do hangar subterrâneo privativo de Sedna. O lugar era imenso e ali cabia pelo menos 200 naves como aquela; por isso, demorou mais para a nave taxiar do que para pousar efetivamente. Ela parou em frente a um portão prata com uma porta menor de aproximadamente dois metros e meio de largura e altura. Foi somente nesse instante que Rebecca percebeu que já havia chegado em casa. Mais uma vez respirou fundo, dessa vez com os olhos fechados e com as roupas ainda úmidas.
Agradeceu Ahis, que, já em modo H, se dirigiu para a direção oposta à de Rebecca para lidar com as suas próprias questões de manutenção. Rebecca passou pelo portão menor e, diante de um átrio igualmente enorme, se dirigiu para algo como um elevador, na verdade a sala de teletransporte – que possibilitava o livre acesso dali para todo o planeta –, apertou o número 378 S3, fechou os olhos mais uma vez e ficou assim até chegar ao lugar correspondente ao número digitado.
Lá chegando, saiu da sala de teletransporte na qual desmaterializara, virou à direita e caminhou por alguns metros, uma esplêndida porta de madeira trabalhada de modo artesanal se abriu e Rebecca passou por ela. Enquanto fazia todo esse movimento, acompanhada com os olhos as dezenas de mensagens que havia recebido durante sua viagem, seu sono e seu pesadelo.
Concordou com algumas mensagens, assentindo com movimento de aprovação com a cabeça, mas também deixando transparecer certa raiva (em verdade profunda) e proferindo algumas palavras entredentes, “Por que fui dormir? O que ganhei? Um pesadelo e, agora, isso! Merda!”. Viu-se em uma sala toda mobiliada e, no mesmo instante, percebeu que não estava sozinha, mas não teve voz para gritar e nem mesmo para falar, a dor no peito e a falta de ar lhe retiraram tudo o que ela podia ainda possuir de força para tal. Rebecca simplesmente não acreditava na imagem que via diante de si, entre surpreendida e assustada, ela não sabia se chorava ou se sorria, uma confusão mental sem precedentes apoderou-se da Senhora de Sedna. Não houve qualquer alternativa, ela tombou ali mesmo.
– Rápido! O kit de primeiros socorros e a maca. Inicie já uma tomografia para vermos se está tudo bem. Essa queda pode ter consequências imprevisíveis!
(Gritou Liam como que ordenando Sasha para fazer tudo aquilo)
Liam se abaixou para verificar se sua mãe estava respirando e se tinha pulso. Saha, com um momento dos dedos, fez Rebecca levitar e acomodar-se na maca sem mover um músculo sequer. Falou rápido para Liam:
– Melhor levá-la para a enfermaria, vamos!? – Ao que Liam, de maneira ríspida, imediatamente retrucou:
– Não, ele já está lá! Vai ser pior se ela o vir. Poderemos perdê-la para sempre. Tudo, menos isso! – exclamou Liam.
Sasha ficou paralisada, simplesmente não sabia o que fazer. Liam então disse para cuidarem de Rebecca ali mesmo. Não havia mais ninguém ali e se tudo desse certo, em pouco minutos sua mãe já estaria de volta novamente. Assim o fizeram, Sasha acionou um mecanismo que logo tomou a forma de um pequeno aposento todo em vidro e assepsiado. Contudo, por mais que o cuidado com Rebecca fosse o mais carinhoso possível, sua volta a si demorou pelo menos uns 25 minutos.
Quando Rebecca voltou a si, os três conversaram longamente sobre os acontecimentos do dia anterior terrestre em Oásis Prime e o sumiço de Liam e Sasha, que teria saído de casa para procurá-lo, mas também desaparecendo sem deixar vestígios. Depois a situação na enseada em Oásis Prime, da qual ela soubera apenas depois de chegar em Sedna e, “coisas do destino…”, disse ela sorrindo – em silêncio – para si mesma, mas algo meio triste, “…depois de um pesadelo horrendo”.
Precisamente enquanto proferia em pensamento essas palavras, Rebecca olhou à sua esquerda, para uma das portas que então se abrira naquele momento e deu o grito mais estridente de toda a sua vida. Daquela porta saiu um vulto imenso, que – por estratégia ou devido a uma reação automática ao grito de Rebecca – se jogou no chão e rolou em diagonal, atirando rajadas de plasma, na direção do aposento de vidro, a cada volta que seu corpo fazia. O aposento de vidro transformou-se numa infinidade de pequenos pedaços arredondados, mas isso antes mesmo que Master 1 começasse a atirar.
Seus tiros, porém, foram contidos por um campo de força do mesmo estilo e potência, embora menor, daquele do Bunker de Oásis Prime. Master 1 descobriu finalmente a origem do escudo defletor que tirou Master 5 de circulação, agora era apenas uma questão de tempo provar que Sasha e Liam estavam por trás de tudo o que estava acontecendo. Entretanto, sem que Master 1 se atinasse para o que de fato acontecia, o campo de força criado por Sasha como que remodelou o plasma atirado e o transformou em uma bolha hiper-resistente ao redor de Master 1.
Assim, preso em seu próprio plasma, Master 1 ficou imobilizada por completo; o máximo que ela poderia então fazer era responder às questões de Liam e Sasha, além de observar Rebecca completamente petrificada depois de seu próprio grito. Imóvel acerca de quatro metros de distância de Master 1, Rebecca era toda fúria – se ela pudesse se mexer, ninguém naquela sala escaparia…
Mas Rebecca não era a única pessoa a ficar paralisada naquela sala. Master 1 e Sasha também estavam imobilizadas, Liam igualmente, sem compreender o que quer que seja do que estava acontecendo. As razões disso, porém, se mostravam as mais diversas; a ponto de ninguém falar nada até entender minimamente por que Liam e Sasha estavam ali sem que nenhum transporte convencional os tivessem levado.
O mesmo poderia ser dito em relação a Master 1, que embora pudesse fazer a viagem convencional sem qualquer veículo que não fosse sua própria propulsão, uma viagem utilizando-se apenas desta última levaria algumas semanas para se realizar, e isso se a velocidade fosse máxima e constante o tempo todo. Esses eram sobretudo os pensamentos de Rebecca, cuja conclusão sobrevinha-lhe repleta de ressentimento: “Então havia um outro caminho…”, pensava; “… e por que não me informaram, esses desgraçados, vão me pagar, aah se vão…”, continuava remoendo seu ódio repentino dentro de si a Senhora de Sedna.
A seu modo, Master 1 também pensava; porém, algo do tipo: “Por que esconderam isso de todos nós, de todas as autoridades? Uma coisa é certa, sairei daqui direto para o Quartel General e levarei todos presos…. É só uma questão de tempo…”.
De seu lado, sem poder mexer um músculo sequer, Liam e Sasha, no entanto, pensavam igualmente. “Por que ela veio até aqui, pelo caminho convencional é impossível – não teria conseguido entrar –, mas será que foi pelo outro caminho? Ele nem existia desse tamanho até ontem ou, antes, até esta madrugada no tempo da Terra. Será que essa AMI sabe realmente onde ela está?
Que perigo estamos correndo com ela aqui, o que é possível fazer? E mamãe, devemos dizer para ela? E se não dissermos? Que drogaaaa!”. Ou ainda: “Como segurar essa AMI aqui por mais tempo? E as outras, sabem que ela chegou até aqui? Se sim, é uma questão de tempo chegarem com reforços? Mas como encontraram a passagem? O que devo fazer? Até quando esperar? Uso força? Diplomacia? Astúcia? O que cada uma destas entidades está pensando nesse exato momento? Essa é a chave…”.
Pensando assim, cada qual formulou, a seu modo, a estratégia para o que deveria fazer quando recuperasse seus movimentos; isso, porém, nos limites de sua compreensão do que estava acontecendo. O fato é que ninguém presente naquela sala possuía informações completas e seguras sobre qualquer um dos outros presentes e muito menos do porquê cada qual estava ali e do meio pelo qual havia chegado; alguns nem mesmo sabiam como haviam chegado ali e precisamente ali.
Em razão disso, a insegurança e o desespero tomaram conta de todos – não era apenas pelo medo ou pelo susto que estavam inertes, deveria haver mais alguma coisa, mas o quê? Alguns suavam frio, mas quem não suava permanecia como que em stand by involuntário…
