M.Selva
XV. Alerta máximo!
Já passavam das duas da madrugada, mas na praia tudo ainda estava para ser resolvido. Não havia mais sinais do caminho seguido por Liam, Sasha e Nocapi – a maré alta apagou o essencial das pegadas e as sobrepegadas dos 300 e curiosos que chegaram depois cobriram o que restara. No entanto, as patrulhas restantes montaram um acampamento justamente no lugar em que a primeira desapareceu. Seu objetivo primário consistia no resgate dos companheiros desaparecidos e, com isso, descobrir quem estava por trás daquela armadilha. Nada, porém, os ajudava na compreensão do que poderia ter ocorrido.
Aquele acampamento, porém, mesmo não sendo especificamente militar, não poderia estar ali – essa era a reivindicação dos proprietários cotistas do resort. A mãe de Liam estava entre a multidão e mesmo liderava um grupo importante, que estava em busca de seu filho – que, conforme algumas pessoas da multidão, teria sido levado por Nocapi. Assim, para Rebecca, mãe de Liam e uma das maiores proprietárias do resort comunitário, a tragédia já teria acontecido; pois quase doze horas já haviam passado e ela ainda não tinha qualquer informação sobre seu filho. Nem mesmo de sua companheira, que, ao primeiro sinal dos distúrbios na praia, saíra à sua procura. Ambos estariam desaparecidos e naquela situação terrível.
Ao longe, fora do alcance das patrulhas e dos sensores de Oásis Prime, Master 1 e suas comandas estavam com acesso privilegiado às informações que Master 5 lhes enviava. As masterinteligências permaneciam de prontidão para agir e já haviam esquadrinhado todo o perímetro adjacente aos limites de Oásis Prime; no entanto, as informações enviadas por Master 5 eram por demais insuficientes.
O sumiço da patrulha também se constituía como um mistério para essas inteligências; as quais, pensando como um só indivíduo, chegaram a hipóteses que poderiam ser consideradas absurdas até mesmo pelo membro mais perspicaz das patrulhas de Oásis Prime. Mas não para Rebecca, que gritava em alto e bom tom que seu filho teria sido sequestrado por alguma inteligência alienígena; errada ela não estava. Contudo, de modo algum se tratava de sequestro.
A raiva de Rebecca era compreensível. Ela precisava de seu filho logo pela manhã (no horário de Oásis Prime) para iniciar um importante empreendimento nos confins do sistema solar. Uma espécie de estação espacial civil, de cunho privado, que serviria de entreposto para viagens de turismo e exploração econômica ou científica. Esse empreendimento pioneiro dependia substancialmente da presença de Liam e de Sasha para que seu início efetivo fosse o caso.
Rebecca já estava ali há algumas horas; sabia, porém, que seu filho não estava no local e muito menos Sasha. Não sentia que eles estivessem em perigo, mas se mostrava ultrajada pelo que estava acontecendo na praia, em cujo projeto eles haviam trabalhado de modo ininterrupto por longos anos. Não entendia muito bem o que estava acontecendo…
Por volta das quatro horas da madrugada, já cansada e algo resignada, Rebecca se retirou. De algum modo, ela sabia que seu filho e Sasha estavam seguros; também sabia de seu compromisso em Sedna, do qual jamais poderia se furtar. Afinal, ali estaria a redenção de todos os seus e uma maneira de estar a salvo do que os donos do poder estavam fazendo com o sol. Toda a civilização estava migrando para a orla exterior e a Terra seria doravante apenas um lugar de descanso.
Quem quisesse ver a luz do sol novamente teria que migrar para um novo sistema solar. Ela queria ser a primeira a proporcionar essa conquista para pessoas físicas e jurídicas não subordinadas aos donos do poder. Rebecca olhou fixamente para o lugar – o centro equidistante entre os extremos da enseada – no qual Sasha submergiu com Liam e Nocape. Ficou assim por alguns segundos, como que em cataplexia, ou de fato em cataplexia…, ao recuperar suas forças, saiu dali sem dizer nada a ninguém…
O olhar de Rebecca não passou despercebido por Master 5, que, protegido por seu manto de invisibilidade, calculou exatamente o alcance daquele olhar e, em um átimo, sem levantar nenhuma suspeita, entrou na água e seguiu para o fundo do oceano. Ao mesmo tempo, Master 1 e as outras Amis – agora em modo invisível – também entram na água e vão direto para uma fossa submarina, que, conforme o Direito terrano, seria uma zona livre e, em vista disso, embora não estivesse sob a jurisdição das Amis, também não estava subordinada ao controle de Oásis Prime.
Em poucos segundos, as seis Amis se reuniram no oceano profundo e, mais uma vez, retificaram seus planos; elas se mantiveram em contato o tempo todo e sabiam exatamente para onde deveriam ir. Entretanto, não se podia descer muito rápido aquelas águas gélidas, cuja pressão também era extremamente alta. E se a leitura que Master 5 fizera do olhar de Rebecca fosse inconsistente?
Em todo caso, uma escolha foi feita. Retroceder não estava em cogitação, a fonte de neutrinos ainda estava no planeta – encontrá-la era a prioridade. De repente, uma grande explosão leva consigo algumas Amis para a superfície completamente destroçadas, as outras ou ficam perigosamente avariadas ou são jogadas para longe da fossa. Por algum motivo, uma das Amis não aguenta a pressão e explode – isso destrói duas outras e deixa as duas restantes bastante danificadas.
Foi Master 3 quem explodira e levara consigo as Amis 4 e 6; Master 5, que estava mais adiante destas, é projetada em direção à entrada da fossa. A velocidade com a qual ocorre a projeção a faz chocar-se diretamente com algo que não deveria estar ali, um escudo defletor; com isso, Master 5 também fica inutilizada. Restam apenas Master 1 e Master 2, as quais, por sua vez, também foram arremessadas para longe.
A explosão produziu um tsunami extremamente vigoroso que atingiu a superfície de maneira espetacular. Infelizmente, todas as patrulhas em um raio de 100 km de enseada foram dizimadas; porém, nada passou para além da praia. As defesas inteligentes funcionaram de modo perfeito e, ao mesmo tempo, colheram toda a energia dispensada nesse tipo de ocorrência. Da mesma forma, o lugar onde a primeira patrulha desapareceu também permanecera intacto, embora inacessível devido justamente ao tsunami. A essa altura, Rebecca já estava em sua viagem para Sedna; ela queria chegar lá com alguma antecedência e, no melhor dos cenários, compensar qualquer atraso ou contingência encontrada no caminho.
Não ir seria o equivalente a perder o pioneirismo da exploração espacial e dos negócios de aventura, algo em alta desde que os terranos colonizaram Tritão e expandiram a conquista do mundo transnetuniano. Como dormira durante toda a viagem, ela só ficou sabendo da tragédia em Oásis Prime quando chegara em Sedna, por volta das 10h00 (no horário de Oásis Prime).
Ainda no fundo do oceano, as AMI se reagruparam. Master 1 e Master 2 requisitaram reforço e, com extremo cuidado, juntamente com duas outras patrulhas AMI, investigaram toda a extensão do campo de força projetado pelo escudo defletor. Depois de algum tempo, elas conseguiram uma autorização do Alto Conselho de Segurança Planetária – ACSP – para forçarem seu desligamento e assim adentrarem ao lugar. O que só foi possível com a liberação dos responsáveis pela manutenção do lugar, seu Zelador Mor, que estava do outro lado do planeta em uma conferência; quando tivera que designar pessoas e Amis civis de sua mais extrema confiança para acompanhar as Amis militares.
O lugar, porém, se mostrava completamente limpo e sem qualquer pista de ter sido utilizado por quem quer que fosse nos últimos dois ou três meses; isso inviabilizou a tomada do lugar pelas Amis. Este, na verdade, era um bunker há muito construído e que protegera milhares de pessoas no passado. Há mais de 100 anos ele era propriedade da família de Liam e Rebecca.
Master 1 não se conformava de não haver nada ali, ela simplesmente se proibia pensar na possibilidade de, em um momento sequer de sua existência, poder equivocar-se. O fato, porém, é que não havia mais pistas e o bunker realmente estava completamente vazio – nenhuma radiação de fundo foi notada, nenhum ente extragaláctico poderia ser o caso naquelas condições. Além disso, o bunker se constituía em uma propriedade privada e, sobre esse tipo de propriedade, nenhuma AMI possuía qualquer jurisdição.
Com a explosão das Amis 3, 4 e 6 e a destruição que se seguia na enseada, em virtude do tsunami, aquela poderia ser a sua última cartada. Ela estava, portanto, na defensiva; seu olhar acompanhava o Zelador Mor em tudo o que lhe era possível; sabia que ele tramava algo, pois fora informada – ainda antes da explosão das Amis 3, 4 e 6 e da inutilização de Master 5 – de que um processo teria sido instaurado contra as Amis, devido à invasão de Oásis Prime, em especial da enseada e adjacências. Para Master 1, o que ocorrera nas imediações do bunker não estava previsto e, por sua responsabilidade, poderia decretar o fim de todas as Amis militares…. Foi quando veio a decisão final contra ela, como líder de sua patrulha, e contra o próprio ACSP – além de Master 2.
Mas nem tudo estava perdido. Master 1 e Master 2 se retiraram do lugar ao primeiro sinal de que a decisão do juiz – do Tribunal Virtual Permanente – iria ser proferida. Não mais havia o que fazer em relação às Amis 3, 4 e 6, que foram completamente pulverizadas. Master 5 já havia sido recolhida e muito provavelmente, a essa altura, já estava desligada para sempre. Mesmo que fosse possível uma reinicialização, nada garantiria que ela voltasse a ser a mesma AMI. Master 1, porém, se recusava a ir embora para o Quartel General, ainda havia algo que ela precisava descobrir, nem que fosse pura e simplesmente pela honra de Master 5.
Sua função primordial era descobrir novas formas de ultra-alta energia e de seu controle, a situação que ocorrera na tarde do dia anterior era ideal para isso e dificilmente ocorreria de novo em décadas, séculos ou ainda em milênios; simplesmente não se podia perder a oportunidade que se apresentara. Faltava muito pouco para as Amis completarem a construção da megaestrutura em torno do sol e qualquer informação – por mais diminuta que fosse – daquela energia colossal que se solidificara ao entrar em contato com a atmosfera, ajudaria muito nos trabalhos de concepção, construção, montagem e manutenção.
Master 1 e Master 2 evadiram-se do bunker minutos antes da sentença contra elas ser exarada; como o representante legal das Amis já estava em contato direto com o Tribunal Virtual, elas não precisavam ouvir a sentença – pois teriam que voltar ao primeiro chamado do ACSP. Então acionaram o Modo L e, assim que saíram da água, acionaram o Modo I, voltando sorrateiramente para o bunker, mas sem ultrapassar a zona em que o campo de força seria acionado. Seria preciso encontrar um elo frágil naquela fortaleza e isso teria que ser rápido, pois o ACSP não poderia segurar o tribunal por muito tempo.
A decisão do Tribunal, contudo, determinou em caráter de urgência urgentíssima que toda e qualquer masterinteligência militar fosse automática e sumariamente desligada em caso de ultrapassagem da barreira de 50 quilômetros do perímetro exterior de todos os oásis existentes e a serem construídos na Terra, assim como do Bunker de Oásis Prime. A decisão tinha poder imediato e os sistemas de proteção desses lugares já estavam recebendo o modo de segurança para o desligamento automático das Amis caso elas transgredissem a medida protetiva.
Para o juiz que proferiu a sentença, essa teria um caráter a um tempo ecológico e educativo; os donos do poder (os T’u e os p’H), proprietários das Amis militares, teriam de reconstruir a enseada em prazo recorde, algo em torno de dois dias terrestres. Master 1 e Master 2, entretanto, quando entraram no Modo I, também desabilitaram seus comunicadores – não sendo portanto informadas quanto à sentença.
Enquanto isso, já em Sedna, Rebecca tem um ataque cardíaco – motivado por um susto – ao deparar-se com uma situação inusitada, algo que ela jamais esperaria naquele lugar. Já estressada em razão dos acontecimentos da noite em Oásis Prime, do sumiço de seu filho e sócio nos negócios da família, além do sumiço de Sasha – seu braço direito em tudo e, de certo modo, a companheira de Liam –, o único recurso de Rebecca é dormir e relaxar durante toda a sua viagem.
Quando acordou, ainda em sua nave, descobriu o que se havia se dado na enseada e no bunker da família, também conhecido como Bunker de Oásis Prime; isso fez com que ela se arrependesse de ter dormido, tomou esse como o seu maior erro – algo imperdoável para uma mulher de negócios. Porém, como o Zelador Mor conseguiu resolver a situação no bunker e, ao que parece, o Guardião de Oásis Prime também o conseguira no caso da enseada, as coisas pareciam estar bem encaminhadas e ela poderia dedicar-se simplesmente ao negócio em Sedna. Embora resignada, ela parecia feliz quando seguia para a sala de teletransporte…
Ao se rematerializar, algo fê-la paralisar pernas e braços – ficou sem ação, o coração disparou. Uma dor excruciante atemorizava seu peito, faltava-lhe ar, também as costas e a mandíbula pareceram pesar toneladas, náuseas e fadiga apoderaram-se de seu ser. Sem equilíbrio, tombou ali mesmo, em um átimo, diante daquela cena inesperada e absurda…


