M.Selva
XIX. Buraco de minhoca
Depois que Nocapi saiu da sala, Liam e Sasha voltaram com Rebecca para a cama, ainda repleta de cacos de vidro. A pedido de Rebecca, talvez a única ali perplexa em todos os sentidos, começaram a conversar sobre o que – em realidade – estava acontecendo. Alguns metros à esquerda da cama, mas mais para o fundo, estava Master 1, à qual Rebecca também chamou para a discussão. Sasha ativou seu raio trator e puxou Master 1 para mais perto e a colocou em uma cadeira. Rebecca exigiu dos três uma resposta sensata que explicasse aquela que, para ela, era a maior balburdia de todos os tempos.
– Para início de conversa, quero saber como cada um de vocês chegaram aqui, e aquela coisa (referindo-se a Nocapi, apontando para a direção de onde Nocapi presumidamente estaria), ela estava com vocês? (Perguntou Rebecca, olhando firmemente para Liam e Sasha). E você (olhando para Master 1), o que te trouxe até aqui, sabia que esta é uma propriedade privada e está muito além de seus domínios?
Enquanto Liam e Sasha olhavam para o chão, Master 1 ficou desorientada com o que ouvira. “Como assim estou muito além dos meus domínios?”, perguntou-se em silêncio. A jurisdição das masterinteligências militares abrangia todos os corpos celestes na órbita do sol, de Mercúrio a Netuno, incluindo o próprio sol, à exceção do que se passava dentro de cada um desses corpos celestes. Construídas para a exploração de toda a energia possível do sol e dos nove planetas, elas tinham como prioridade a confiscação de toda fonte de energia que pudesse ser utilizada no esforço de elevar a civilização solariana a uma civilização de tipo 2.
Rebecca, Liam e Sasha também participavam desse esforço, mas com métodos e propósitos diferentes. Justamente por isso, além de olharem para o chão, Liam e Sasha se entreolharam incrédulos. Cada qual refletiu a seu modo, “e agora, digo ou não digo a verdade, se pelo menos Master 1 não estivesse aqui…”.
A verdade mesma é que nenhum dos três sabia realmente por que Master 1 estava ali, em especial naquelas circunstâncias. Contudo, sabedores da situação de Nocapi, Liam e Sasha faziam uma ideia clara e distinta – embora impossível de ser proferida – no tocante ao fato de terem sido seguidos pela AMI. Não obstante, ninguém entendeu o porquê de Nocapi se dirigir primeiro – de certo modo amigavelmente – à AMI e, de modo imprevisível, sem motivo aparente, ter-lhe cortado os quatro membros.
Todas e todos, incluindo Master 1, não conseguiam deixar de lado a ideia de que Nocapi representava um perigo iminente – e não apenas um perigo para cada um e cada uma, mas um perigo para toda a civilização. Com isso em mente, Master 1 quis falar primeiro, mas alguma coisa a impedia, ela se percebia cada vez mais fraca e qualquer balbucio era para ela resultado de um esforço incomensurável.
Foi então que ela percebeu não estar mais nos limites de sua jurisdição, compreendeu, enfim, que poderia estar ou no centro da Terra ou em um objeto transnetuniano. Sua alimentação online em tempo real falhara de modo persistente desde que entrara no Bunker de Oásis Prime; toda a sua energia tinha sido drenada. Disso Master 1 também se tornara ciente naquele instante; o porquê, no entanto, lhe escapava de modo inexorável.
Rebecca, Liam e Sasha estavam atônitos. Queriam compreender cada balbucio de Master 1; porém, como tais balbucios eram tudo, menos inteligíveis, começaram a discutir e a se culparem mutuamente. Até que Sasha percebeu que, na verdade, Master 1 tinha sido desligada remotamente e talvez viesse a explodir ali mesmo, talvez em alguns segundo ou minutos, talvez em questão de horas; pois essa era uma norma de segurança automática à qual todas as masterinteligências militares estavam sujeitas ao se distanciarem muito ou perderem contato com suas bases de operação ou postos avançados.
E como eles estavam além dos limites do sistema solar e mais ainda dos limites da jurisdição solariana, cujas fronteiras eram a órbita de Netuno, tudo começou a se esclarecer. Todavia, uma nova questão surgiu, pelo menos para Rebecca, que perguntou ingenuamente:
– Se as masterinteligências são desligadas automaticamente quando fora de sua jurisdição ou do alcance de seus alimentadores dedicados, então como elas são explodidas de forma remota? Isso não faz nenhum sentido, se não conseguem alimentá-la remotamente a uma distância além de seus limites, como conseguem explodi-la?
Ao que Sasha, de modo surpreendentemente amável, esclarece:
– Acontece que toda masterinteligência militar contém um dispositivo de segurança que, depois de algum tempo sem comunicação com a sua base ou algum posto avançado, quando comprovado de algum modo que ela está perdida ou que não está mais apta a prestar seus serviços, para a segurança do sistema, ela é descartada. Em tais circunstâncias, quando a AMI se desliga, por exemplo, nas circunstâncias em que acaba de acontecer com Master 1, o dispositivo de segurança nela instalado quando de sua construção é então acionado automaticamente. Isso tem o objetivo de que elas sirvam ao seu propósito último como arma de guerra, quer dizer, causar o maior dano possível ao inimigo, sem passar-lhe nenhum dado ou informação confidencial.
Rebecca ficou abismada com as palavras de Sasha. Algo transtornada, se levantou e saiu meio que correndo, meio que cambaleante para algum lugar. Liam quis ir atrás da mãe, Sasha, contudo, o interrompeu e lhe disse: “– Há um modo de retirar com segurança esse dispositivo, nós podemos fazer isso.” Liam, algo paralisado, apenas acenou com a cabeça. Com seu raio trator, Sasha colocou Master 1 sobre a cama e retirou alguns de seus mecanismos, entregou um a um a Liam, que devia colocá-los em um lugar seguro ali mesmo, na sala, numa certa ordem, para depois, em outro lugar e com mais tempo e assepsia adequada, remontarem Master 1 ou o que ela iria se tornar quando seu dispositivo fosse retirado. Um ou dois minutos mais tarde, Sasha retirou uma peça cilíndrica com um marcador silencioso, nele, a contagem marcava 29, 28, 27…, diminuindo um algarismo a cada segundo.
Liam deixou escapar um “– Deo-me exla!” [Meu Deus!], Sasha ficou olhando para o cilindro, que brilhava mais que o sol e se tornava cada vez mais e mais quente, irradiando mais e mais calor, prestes a explodir…. Sasha, como que hipnotizada, também não sabia o que fazer com aquele cilindro, até que…
Uma brisa suave atravessou os corpos de Sasha e Liam, que tiveram a sensação de estar na Terra, mais propriamente nas montanhas de Oásis Prime, admirando o pôr do sol de outono, com seus tons intensos em vermelho, laranja e dourado. Ambos se olharam com uma paz que jamais haviam experienciado em toda a vida por eles vivida até então. Naquele único segundo, melhor, naqueles poucos centésimos de segundo, tudo se passou como se toda a vida e todas as possibilidades a eles abertas até ali, ainda que não efetivadas, e todas as outras que ainda se abririam, estivessem dadas e eles pudessem simplesmente escolher qual iriam efetivar.
Contudo, naqueles poucos centésimos de segundo, tudo se passou como se todas as possibilidades fossem reais e, portanto, já efetivadas, como se a única coisa que ainda precisavam fazer era tão somente contemplar o momento, aquele instante absoluto. Um instante que, em sua absolutez, parecia jamais passar, um instante que continha em si todos os instantes que, de certo modo, nada mais tinham a ver com o que os seres humanos designam passado, presente e futuro. Algo do qual nem Liam nem Sasha jamais suspeitaram que um dia poderiam realizar.
Antes disso, porém, uma força extremamente veloz, algo como um fóton ou um conjunto de fótons, mas centenas de vezes superior à velocidade da luz tal como a conhecemos, contudo em um feixe superconcentrado, em poucos centímetros, irradiando uma cor violeta intensa que inundou completamente o recinto, perpassa igualmente os corpos de Liam e Sasha. Esse feixe os envolveu de tal maneira que eles como que foram transportados no tempo, isto é, foram retirados de onde eram para estar, ficando como que suspensos entre o tempo tal como o vivenciamos e um tempo do qual, até aqui, ao que parece, não nos é dado jamais experienciar, pelo menos ao nível de uma percepção usual ou, mais propriamente, trivial – em rigor, não alterada – do tempo e do espaço.
Isso, contudo, pode fazer surgir uma falsa impressão de que nada disso é real, que seria pura e simplesmente uma espécie de transe de Liam e de Sasha; o que, pelo menos para Sasha, é impossível devido à sua natureza própria, em muito a mesma de Master 1, com a diferença de que seus elementos biológicos são inteiramente funcionais. Aquele evento era, portanto, uma experiência real tanto para Liam quanto para Sasha; contudo, em vista do maravilhamento de ambos, nenhum deles conseguia esboçar uma palavra sequer. Apenas se entreolhavam como se quaisquer exigências de compreensão imediata jamais tivessem sido o caso.
O fato é que o cilindro se escapou das mãos de Sasha e começou a cair. A cada centésimo de segundo de sua queda, Sasha e Liam vivenciavam um acontecimento completo de sua existência total em todas as suas possibilidades, mesmos as mais contraditórias entre si – não havia neles nenhum sentimento de culpa, nenhuma forma de arrependimento ou remorso de qualquer natureza. Não obstante, Sasha olhava para o cilindro, e ele, caindo, caindo, lhe despertava um misto de medo e prazer, algo que ela, apesar de seu corpo biológico ou de sua contraparte orgânica, jamais havia sentido de verdade.
Ela olhava, sabia de tudo o que poderia e estava prestes a acontecer, mas não acreditava naquela possibilidade; não porque fosse uma negacionista e sim porque estava vivenciando justamente ali, naquele átimo, tudo o que jamais vivera ou viveria em toda a sua existência. Aquela era somente uma das múltiplas possibilidades, uma das mais diversas linhas do tempo então abertas aqui e agora à sua experiência de mundo; ela percebe assim – em um presente eterno – que o mundo é ordem pura a um tempo una com seu outro, o caos. Maravilhou-se com a eficácia criativa da destruição e com o mundo cuja dinâmica não é senão a imanência do caos.
Liam, por sua vez, tremia como vara verde. Ao ver o cilindro soltar-se das mãos de Sasha, ele tentou agarrá-lo; isso, porém, ocorreu de modo como se ele estivesse a nadar em águas viscosas e a querer segurar um peixe em seu habitat natural – que, por isso mesmo, se escorregava mais e mais de suas mãos. Estas, no entanto, não chegaram nem mesmo a se aproximar do cilindro, o qual, para ele, parecia estar em um tempo diferente tanto de seu próprio tempo, quanto do tempo de Sasha. Assim, embora de uma perspectiva diferente da de Sasha, Liam como que se viu em dois lugares completamente diferentes a um só e mesmo tempo.
De um lado, via diante de si todos os acontecimentos passados e futuros de sua vida em todas as suas ocorrências; entretanto, dado que não havia uma linha do tempo clara e distinta, mas unicamente n (ene) possibilidades uma ao lado da outra, Liam permanecia sem saber qual acontecimento era anterior e qual era posterior. De outro, Liam se via a si mesmo como um-com todos aqueles acontecimentos, sem se fixar em nenhum deles. Nesse caso, Liam como que se confundia com os acontecimentos por ele experienciados naquele instante, neles se dissolvendo, na mesma medida em que estes, em Liam, igualmente se dissolviam.
Longe dali, na verdade do outro lado de Sedna, Rebecca se escondia – certa do fato de que, em alguns segundos, seu pequeno planeta e redenção de toda uma família, iria se transformar em milhares de rochas na Nuvem de Oort. Certa disso, mas sem tempo de uma fuga mais elaborada, ela pegara o teletransporte e se refugiara em um bunker; de fato, uma nave espacial de última geração, capaz de suportar os maiores impactos e mesmo adentrar-se em uma estrela. Em posição fetal, Rebecca chorava e praguejava sobre seu destino; mas também, de certo modo, prometia; prometia mudar de vida se conseguisse sair daquela situação e pudesse entender o que estava acontecendo. Dizia para si mesma que estava em um sonho, que nada do que estava acontecendo era real ou verdadeiro; “– o que mais quero é acordar desse pesadelo”, dizia para si mesma.
A essa altura, ainda se dirigindo a si mesma, se perguntava se aquele era algum tipo de sonho lúcido e, se fosse, onde realmente ela estaria. Em alguns momentos ela se beliscava e puxava os cabelos, também tentava prender a respiração – contudo, sem muito sucesso –, então sentia dor e se convencia de que estava desperta. Como a explosão parecia demorar, Rebecca começou a perguntar se, de fato, ela já não teria acontecido e ela mesma, Rebecca, não já tivesse se tornado um grão de poeira cósmica oortina…
E Nocapi, o que aconteceu com ele? Logo depois que saíra da sala, pois ninguém o compreendia, e nem ele compreendia quem quer que fosse, em um espaço com as rochas naturais de Sedna então aparentes, o sem cabeça se põe a fazer os mesmos movimentos que fizera na enseada de Oásis Prime. Uma luz azul neon, pouco a pouco, assim se produz e ganha forma, uma forma circular de aproximadamente dois metros de circunferência que, por algum motivo por nós desconhecido, parece entrar em um movimento de diástole e sístole.
A luz azul neon se propaga por todo o ambiente e Nocapi como que passa a moldá-la; ele se torna o próprio molde e com ela se confunde, desaparecendo e aparecendo novamente. Nocapi, a luz azul neon e a forma circular inundam todo o ambiente, aqueles cada vez mais centrados na forma circular e esta, por conseguinte, ganhando mais e mais profundidade e largura, até chegar a aproximadamente 5 metros de circunferência.
Não é possível precisar quanto tempo Nocapi permaneceu nessa atividade; o fato é que, em um átimo, menos de um centésimo de segundo, a luz azul neon se concentrou e tomou a forma de um feixe superconcentrado, que parecia desaparecer naquela forma circular, ao mesmo tempo em que também se irradiava pelo e para fora daquele ambiente. Nocapi desaparecera por completo no feixe ou era um com ele, o qual, por seu turno parecia dotado de inteligência.
Sasha não percebeu, mas ela contemplou o cilindro por cerca de 25 segundos, até que ele caísse de suas mãos. Tanto ela quanto Liam tentaram resgatá-lo, mas sem sucesso; mesmo durante a queda, eles conseguiram apenas contemplar o objeto. Antes que este se desprendesse das mãos de Sasha, ele começou a crescer e a irradiar calor e uma luz de violeta intenso…, até que, em centésimos de segundos, ainda em queda, ele inicia um movimento horizontal, como se fosse automotor, fazendo com que o violeta intenso tome a forma de um feixe.
Previamente, porém, numa questão de milésimos de segundos, um feixe da mesma cor, vindo de algum lugar, já envolvia toda a sala e enlaçou o cilindro, o envolveu e o dissolveu, talvez retirando-o dali. Era Nocapi, que, em todo caso, desaparecera sem deixar rastro…


