M.Selva

V.O problema da verdade

Apesar de todas as suas qualidades no concernente à descrição de fenômenos físicos e fisiológicos, que têm lugar em seu corpo próprio, assim como à velocidade de seu pensamento em termos de representações e de padrões estatísticos, nada possibilitava ao antipodiano permanecer em um pensamento propriamente dito e muito menos experienciar a duração de tal permanência.

Tudo se passava como se o antipodiano fosse completamente desprovido de memória, em especial de memória afetiva; por isso, em relação aos acontecimentos pretéritos, sua lógica centrada em objetivos em nada se assemelhava à dos humanos, com os quais ele mantinha certas relações, e muito menos com a dos livros escritos por humanos – livros que, para ele, eram essenciais para o cumprimento de seus objetivos. De fato, ele possuía objetivos, não propósitos, o que dificultava ainda mais a sua relação com o tempo, sobretudo o tempo enquanto função constitutiva do sujeito humano.

Justamente por isso, o antipodiano jamais experimentara o tédio ou a angústia. Tudo o que ele estabelecia como sua meta era perfeitamente exequível segundo certos passos e certos padrões de qualidade. O problema é que o antipodiano também nunca havia experimentado uma situação como aquela, na qual sua busca por tautologias teria que ceder a um outro tipo de necessidade – essa até então irrepresentável para ele. O texto de Rorty lhe impedia de simplesmente descartá-lo como um disparate, pois havia nele algo que capturara sua atenção de modo indelével; em vista disso, mesmo que pudesse deixá-lo de lado como algo irrelevante – dado que dificilmente poderia ser uma tautologia –, o que ali estava escrito se lhe mostrava radicalmente relevante. Assim, o único caminho era seguir em frente, uma vez que foi justamente para investigar situações como essa que ele viera para o planeta Azul.

O objetivo principal do antipodiano naquele momento era investigar a existência do que, para ele, seria uma colônia antipodiana na Austrália e na Nova Zelândia. Tudo se resumia então a encontrar a referida colônia, que ele tomara como realmente existente – no aqui e agora de seu presente – tão só porque lera no texto de Rorty a alusão deste aos filósofos antipodianos, sem se dar conta do problema da verdade dos acontecimentos pretéritos. Para ele, em rigor, coisas como tempo, passado e futuro inexistem; justamente por isso, estes últimos se constituem como uma e a mesma coisa, a saber, como derivas do que é aí – do espacialmente determinado ou do eternamente presente – as quais com ele coexistem em um e mesmo instante, não havendo, pois, intervalo algum entre um instante e outro e muito menos instantes distintos. Esse o ponto, para o antipodiano, que o distingue completamente do terráqueos: o que os humanos designam lógica temporal e constante temporal se mostram, para ele, pura e simplesmente como constantes gerais de derivações puramente tridimensionais.

Munido de sua lógica atemporal, que se limita ao tratamento de proposições cujos valores de verdade constantes no tempo, o antipodiano retomou o trecho de A filosofia e o espelho da natureza (Relume Dumará, 1994, p. 83) no qual Rorty se refere à escola filosófica dos antipodianos e o reescreveu, sem nenhuma referência ao tempo. Leiamos novamente o texto rortyniano que, como visto anteriormente (O Antipodiano, III. Alucinações) paralisara o visitante galático, o qual, depois disso, se dera a tarefa de uma investigação exaustiva das proposições em jogo no fragmento em tela, cuja tradução em lógica simbólica e cuja verificação segundo a tabela-verdade poderia de antemão confirmar sua verdade – a única possibilidade que o antipodiano vislumbrava. Ele identificava verdade e validade sem mais, assumindo a la Parmênides que tudo o que é real é tautologia e tudo que não é tautologia não é real, devendo portanto ser deixado de lado como indigno de consideração.

Na metade do século XXI, uma expedição da Terra pousou nesse planeta. A expedição incluía filósofos, assim como representantes de cada uma das outras disciplinas estudadas. Os filósofos pensaram que a coisa mais interessante sobre os nativos era a sua carência do conceito de mente. Brincaram entre si dizendo que haviam pousado no meio de um bando de materialistas, e sugeriram o nome de Antipodéia para o planeta – em referência a uma escola de filósofos quase esquecida, centrada na Austrália e na Nova Zelândia, que no século anterior havia tentado uma das muitas fúteis revoltadas contra o dualismo cartesiano na história da filosofia terrena. O nome pegou, e assim a nova raça de seres inteligentes ficou sendo conhecida como os antipodianos.

Destituído, pois, de qualquer vivência do tempo enquanto duração e mantendo apenas seu índice verbal, o antipodiano reduziu cada proposição de Rorty (escrita, pois, em linguagem natural humana) ao seu elemento propriamente declarativo e, assim, procedeu à sua tradução e verificação formal[1]. Segue abaixo o que nessa tradução e verificação se mostra essencial:

 

  1. P: “Uma expedição da Terra pousou no planeta.”

  2. F: “A expedição incluía filósofos.”

  3. R: “A expedição incluía representantes das outras disciplinas”

  4. C: “Os nativos carecem do conceito de mente.”

  5. M: “A expedição nomeou o planeta de Antipodéia.”

  6. D: “O nome se refere a uma escola de filósofos.”

  7. S: “A nova raça é conhecida como antipodianos.”

Pode se observar nas proposições acima enumeradas a destituição de elementos temporais e emocionais dos quais o texto de Rorty se mostrava carregado. A falta desses elementos apenas justapõe as proposições, há um salto da proposição 2 para a proposição 4, que não se explica pura e simplesmente pela proposição 3, corretamente deixada de lado, mas também deixando de lado a investigação dos filósofos em torno da constituição do sistema nervoso central antipodiano, sua construção de sinapses e sua forma de interpretação destas.

A proposição 4 é central para a passagem às seguintes, mas se mostra solta em relação a estas e às anteriores. A proposição 4 também se mostra essencial para a passagem de 2 e 3 a 5, que então implica a proposição 6, por intermédio da qual passa então à 7. Com isso, todo o peso da argumentação, pelo menos para os objetivos do antipodiano, recai sobre as proposições 4 e 6, que devem portanto suportar todo o processo lógico. Esse assim constituído mediante a redução das relações entre as diferentes proposições à forma lógica da relação em jogo em cada caso:

 

  1. Proposições 1, 2 e 3 reduzidas à fórmula P implica F: P→(F∧R)

  2. Proposições 2 e 4 reduzidas à fórmula F implica C: F→C

  3. Proposições 4 e 5 reduzidas à fórmula C implica M: C→M.

  4. Proposições 5 e 6 reduzidas à fórmula M implica D: M→D

  5. Proposições 6 e 7 reduzidas à fórmula M implica S: M→S

 

Importante observar que o antipodiano manteve o substancial das proposições de Rorty, porém, segundo a sua própria formalização, as proposições 3 e 6 parecem supérfluas, dado que 3 praticamente em nada influi no processo total e 6 – mesmo se mostrando fundante – parece apenas uma explicação lateral. Não obstante, como já visto momentos anteriores, seu conteúdo se reveste da maior importância para o antipodiano; caso em que seu objetivo central se tornou precisamente a verificação da existência da escola de filósofos chamados antipodianos, assim como a possibilidade de estes serem, na verdade, antipodianos mesmo e, assim, de terem constituído uma colônia antipodiana aqui na Terra. O que, por si só, em termos terráqueos, seria uma contradição, mas não para o antipodiano, cuja lógica, à diferença da nossa, lhe permitiria um tratamento diverso do que é para nós o tempo cosmológico.

Dada a natureza extremamente necessitária da lógica do antipodiano, as relações formalizadas por ele ficaram adstritas à lógica da implicação, segundo a qual uma proposição P (p,q,r…) implica logicamente uma proposição Q (p,q,r…), ou seja, é verdadeira (V) se Q (p,q,r…) for verdadeira (V) todas as vezes que P (p,q,r…) também for verdadeira (V). Quer dizer, se P for verdadeira (V), Q tem que ser igualmente verdadeira (V); mas, se P for falsa (F), Q pode ser tanto verdadeira quanto falsa (F). Vejamos visualmente como essa regra funciona:

 

p q p → q
V V V
V F F
F V V
F F V

 

Embora o cerne da argumentação do antipodiano se apresente no termos de uma lógica da implicação, para a qual, no entanto, ele utiliza do símbolo da condicional (se … então), também é necessário, para compreender o que está em jogo para ele, observarmos as regras da conjunção, que aparece na formalização de 1, 2 e 3 e se apresenta na proposição: P→(F∧R). Consideremos então as regras da conjunção:

 

p q p q
V V V
V F F
F V F
F F F

 

A proposição conjuntiva “p ∧ q” é verdadeira apenas quando tanto p quanto q são ambas verdadeiras. Se uma ou outra se apresentar como falsa, a conjunção será falsa. Em vista disso e do que foi mais acima enunciado em relação à implicação, abstraindo-se de alguns detalhes do texto de Rorty, sua tradução e formalização levada a termo pelo antipodiano ficou assim construída:

 

[(P→(F∧R))  ∧  (F→C))]  ∧ [ (C→M)  ∧  ((M→D)  ∧  (M→S))]

 

Uma simples vista de olhos sobre a proposição acima fez com que o antipodiano quase tivesse um novo tilt. Ele jamais havia experimentado algo que não fosse uma tautologia, e já pela sua estrutura a proposição em tela se lhe apresentava como algo distinto de uma tautologia; todavia, ela também não era uma contradição. Se não era uma tautologia e nem uma contradição, ela não poderia nem ser assumida nem deixada de lado sem mais, como então determinar sua verdade? (Continua…)

 


[1] As formalizações do texto de Rorty e as verificações das proposições abaixo formalizadas, então apresentadas nesse capítulo, foram propositalmente solicitadas ao GPT-5 e a outras IA’s, como o Think Deeper, integrantes do Copilot, mantendo-se inclusive alguns de seus erros e equívocos, se for o caso, de modo a ilustrar o mais adequadamente possível o tipo de formação representacional ou irrepresentacional que é o do antipodiano, especialmente no tocante à sua confrontação com a forma de pensar (Denkform) humana.

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