Terça-feira, 29 de setembro de 2026
MPJ | Mais Pelo Jornalismo
Publicidade

Você quer isso ou só viu alguém querendo?

Mariana Huller, colunista do Portal Fatos do Iguaçu, com cabelos longos e ondulados, usando óculos, blusa de gola alta em tom terracota e cachecol marrom, diante de uma parede clara.

Até poucos minutos atrás, a sua sala estava boa. O sofá era confortável, a mesa cumpria sua função e você gostava da cor da parede. Então apareceu um vídeo: uma sala iluminada pelo sol, com um tapete claro e uma poltrona que parecia deixar a vida inteira mais bonita. Você olhou ao redor. De repente, havia alguma coisa faltando.

É curioso como uma falta pode surgir tão depressa. A gente abre o celular sem procurar nada e termina pesquisando o preço de um objeto que nem sabia que existia. Salva a referência, mede um canto da casa, imagina como ficaria. Entre um vídeo e outro, o que era de alguém se tornou uma necessidade nossa.

Sempre aprendemos a desejar olhando para os outros. Antes das redes sociais, já existiam as revistas, as novelas, a casa da vizinha. Nossos gostos também se formam nesses encontros, que apresentam possibilidades e ampliam o mundo que conhecemos. Na internet, porém, as referências chegam sem intervalo. Na mesma tarde, vemos alguém reformando a cozinha, mudando de país e anunciando que encontrou seu propósito. Estamos apenas sentados com o celular na mão, mas terminamos com a sensação de que precisamos tomar várias providências.

Publicidade

Cada imagem carrega uma promessa. A casa organizada sugere tranquilidade. A rotina das cinco da manhã, controle. O trabalho com vista para o mar, liberdade. Essas cenas dão forma a desejos reais: ter tempo, sentir segurança, viver com conforto.

Só que elas contam pouco sobre o cotidiano que apresentam. A cozinha bonita não mostra quem limpa, quanto custou ou o que precisou ser adiado. A mudança de carreira chega em um relato com final feliz. As incertezas aparecem, quando aparecem, organizadas por quem já sabe como tudo terminou.

Enquanto isso, estamos no meio da nossa história, sem edição e sem saber o que vem depois.

Publicidade

Talvez por isso a inspiração se transforme tão facilmente em cobrança. Gostamos de uma ideia e logo perguntamos por que ainda não conseguimos aquilo. A vida que levávamos com satisfação começa a parecer insuficiente. Vale perguntar o que nos atrai nessas imagens. É a poltrona ou o tempo para sentar e ler? É aquela profissão ou a possibilidade de terminar o expediente sem exaustão? Talvez você queira mesmo a poltrona. Mas talvez nenhuma compra resolva a falta de tempo que tornou aquela cena tão bonita.

Podemos deixar uma referência salva sem transformá-la imediatamente em projeto. Observar se a vontade permanece quando a tendência desaparece da tela. E olhar para a sala antes de abrir o aplicativo: reparar na luz, lembrar por que escolhemos as coisas que estão ali. Pode ser que ainda exista algo a mudar. Pode ser também que, antes do próximo vídeo, não esteja faltando nada.

Editoria Mariana Huller
Publicidade
Compartilhar

Leia também