Você tem uma lista de tarefas? No celular, em uma agenda, espalhada em papeizinhos pela mesa do trabalho? Ou ela fica apenas na sua cabeça?
Acho que todos nós temos essa lista interminável de tarefas que precisamos cumprir ainda hoje, amanhã ou até o fim do mês. A minha, por exemplo, nunca termina. É um grupo no WhatsApp que se chama “Eu”, uma conversa em que eu mesma me deixo falando sozinha, já que às vezes estou em pleno processo de procrastinação das tarefas descritas lá.
Atualmente, ela está assim: comprar ração; responder e-mail; ver curso; responder fulano; mandar mensagem para ciclano; comprar shampoo; marcar consulta; enviar documentos. E, enquanto escrevo isso, já me lembrei de mais duas coisas que preciso adicionar…
Todos os dias, risco um afazer e outros dois entram no lugar. É óbvio que jamais teria a ilusão de um dia terminar a lista. Afinal, a vida acontece nos intervalos desse aglomerado de tarefas que temos de cumprir. O problema é que, cada vez mais, tenho percebido como é difícil encontrar espaço entre uma atividade e outra.
Para o fim de semana, estou com a meta de ler um livro que há muito tempo está parado na minha cabeceira. Parece que até ele me olha com julgamento por eu não encostar em suas páginas há tanto tempo. Isso me faz pensar: quando foi que descansar se tornou mais uma das coisas da minha lista de tarefas?
Cuidar da pele, ir à academia, terminar a série, ir ao parque… E então começa outra lista de tarefas.
E não basta parar para descansar. Estamos tão atolados de informações e estímulos que as redes sociais fazem parecer que todos são produtivos o tempo inteiro. Às vezes, fico pensando se os influenciadores acumulam stories para postar justamente nos momentos em que pessoas normais – que cansam, adoecem, trabalham e estudam – querem apenas não fazer nada.
Mas parece que não basta parar: é necessário provar que a pausa valeu a pena.
Dormi o suficiente? Aproveitei bem o fim de semana? Fiz alguma coisa interessante? Voltei descansada? Estou preparada para começar a segunda-feira?
E, se ainda há tanta coisa por fazer, será que eu mereço parar?
Talvez a pergunta esteja errada. Descansar não deveria ser uma recompensa concedida apenas depois que todas as obrigações fossem cumpridas, até porque, se dependesse disso, ninguém descansaria nunca. Sempre haverá uma louça para lavar, uma mensagem para responder, um compromisso para marcar ou alguma versão mais organizada, saudável e produtiva de nós mesmas esperando para ser alcançada.
Byung-Chul Han escreveu sobre uma sociedade em que cada pessoa se transforma em sua própria fiscal. Já não é necessário que alguém repita o tempo inteiro que precisamos produzir mais. Nós mesmas fazemos isso. Organizamos metas, medimos passos, monitoramos o sono, registramos hábitos e sentimos culpa quando uma tarde não resulta em nada que possa ser anotado, publicado ou apresentado como progresso.
Talvez por isso o cansaço venha acompanhado de vergonha. Não basta estar exausta; ainda é preciso justificar a exaustão.
Dizer que trabalhou muito. Que dormiu pouco. Que teve uma semana difícil. Descansar sem uma razão considerada legítima parece preguiça. Parar antes do limite parece desistência. Recusar uma tarefa parece egoísmo.
Mas uma pessoa não deveria precisar entrar em colapso para conquistar o direito de parar.
Até o autocuidado entrou nessa lógica. A rotina de skincare precisa ter várias etapas. O exercício deve ser registrado. O livro precisa ser concluído. A caminhada deve contar passos. O sono é medido pelo relógio. A viagem precisa render fotos. E o hobby, se possível, deve se transformar em renda. Nada pode existir apenas pelo prazer de existir.
Para muitas mulheres, essa cobrança ainda se mistura à sensação de que há sempre alguém ou alguma coisa precisando de atenção. Mesmo quando o corpo para, a cabeça continua fazendo listas: o que falta comprar, quem precisa de resposta, qual compromisso não pode ser esquecido e como organizar uma semana que provavelmente não seguirá a organização planejada.
Talvez por isso seja tão difícil não fazer nada. O silêncio dá espaço para todas as pendências falarem ao mesmo tempo. Então pegamos o celular para descansar e encontramos outras pessoas treinando, viajando, estudando, arrumando a casa ou começando um novo projeto. Em poucos minutos, até a pausa parece uma escolha errada.
Descansar também virou uma habilidade que acreditamos precisar aprender. Existem vídeos ensinando a aproveitar melhor o domingo, técnicas para acordar com mais disposição e métodos para transformar o tempo livre em uma experiência realmente restauradora. Até isso precisa funcionar. Até o descanso precisa apresentar resultado.
Mas nem toda pausa será bonita, tranquila ou produtiva. Às vezes, descansar será dormir além da hora, abandonar um filme pela metade, passar tempo demais olhando para o teto ou simplesmente aceitar que naquele dia não haverá nenhuma história interessante para contar.
Talvez o descanso verdadeiro comece justamente quando paramos de avaliar se estamos descansando direito. Quando entendemos que nem todo tempo precisa ser útil, render alguma coisa ou nos preparar para trabalhar novamente.
Eu gostaria de dizer que encontrei uma maneira de terminar a lista. Não encontrei. Algumas pendências continuam no celular, outras estão espalhadas em papéis e muitas vivem apenas na minha cabeça, aparecendo precisamente quando tento dormir.
O que tenho tentado aprender é que tarefas atrasadas não representam uma vida atrasada. Há coisas que realmente precisam ser feitas. Outras apenas receberam urgência porque nos acostumamos a tratar qualquer desejo, expectativa ou cobrança como obrigação.
A lista continuará existindo. Novas tarefas aparecerão antes mesmo que as antigas sejam riscadas. Amanhã haverá mensagens, contas, prazos, roupas para guardar e decisões sobre um futuro que ninguém consegue organizar por completo.
Mas talvez a vida não aconteça apenas nos pequenos intervalos que sobram entre uma obrigação e outra. Talvez também seja preciso deixar alguns espaços vazios de propósito.
Algumas coisas podem esperar. Nós também não deveríamos precisar esperar a lista terminar para começar a viver.









