A diferença entre esperar sobrar combustível e decidir ativamente se preparar para a viagem que pretende fazer.
Na nossa última conversa, encerramos com uma pergunta que vale levar para o dia a dia: quando o seu dinheiro entra, quem é abastecido primeiro — a vida que você deseja alcançar ou todas as demandas que surgem pelo caminho?
É nesse ponto que o planejamento precisa sair do mapa e ganhar movimento. Conhecer o carro, calcular o consumo e traçar a melhor rota não bastam se, a cada abastecimento, todo o combustível for consumido antes de sair da cidade. Para que a viagem avance, parte dele precisa ser direcionada aos imprevistos e aos destinos que ainda estão adiante.
Na teoria, todos queremos construir reservas, ter tranquilidade financeira e garantir um futuro seguro. Na prática, fazemos o contrário: atendemos a todas as demandas do presente e esperamos para ver o que sobrará no final do mês. O problema é que o presente tem uma habilidade impressionante de consumir tudo o que colocamos à disposição dele — sempre aparece uma nova saída, uma parada não planejada ou alguma conveniência que parecia absolutamente necessária naquele momento. E o “se sobrar” raramente se transforma em um plano.
A caixinha do gás
Isso não significa abrir mão de tudo que nos traz prazer, ou do pingado com pão de queijo na beira da estrada, nem esperar que a situação financeira esteja perfeitamente organizada. No início, o mais importante é criar o hábito de direcionar algum recurso antes de consumir o restante — ainda que para um objetivo pequeno.
Quando eu e minha esposa fomos morar juntos, nossos salários, somados, não chegavam a R$ 500. Isso faz muito tempo, mas mesmo naquela época, era pouco dinheiro para uma família de três pessoas que morava de aluguel. Nesse tempo, um botijão de gás custava aproximadamente R$ 36. Em determinado mês, o gás acabou e não tínhamos dinheiro para comprar outro. Felizmente, minha mãe tinha dois botijões e nos emprestou um até que conseguíssemos comprar o nosso.
O problema imediato estava resolvido, mas chegamos a uma conclusão: não poderíamos depender da mesma sorte na próxima vez. Para resolver isso a conta era simples. Como um botijão durava, em média, seis meses, bastava separar R$ 6 por mês para que, no momento da troca, o dinheiro da reposição já estivesse disponível.
Criamos, então, a nossa caixinha do gás. Todos os meses, aqueles R$ 6 eram separados antes de qualquer outra despesa. Pode parecer pouco — e realmente era —, mas funcionou: a despesa seguinte deixou de ser uma surpresa. A experiência deu tão certo que passamos a aplicar a mesma lógica a outras contas sazonais. Sem conhecer o nome, estávamos construindo nossa primeira reserva tática.
A principal lição daquela caixinha não estava no valor guardado, e sim na ordem em que a decisão era tomada. O dinheiro do gás não dependia mais do que sobrasse no final do mês: ele era separado porque tinha uma finalidade definida. Em uma escala muito simples, estávamos aprendendo a nos pagar primeiro.
Quanto devemos separar?
Não existe um percentual que funcione igualmente para todas as famílias. A renda, o custo de vida, a existência de dívidas e os objetivos de cada pessoa tornam qualquer fórmula apenas um ponto de referência. Ainda assim, gosto da sugestão apresentada no livro TOP Planejamento Financeiro Pessoal, publicado pela CVM:
- 20% para os projetos e sonhos;
- 65% para as despesas essenciais e necessárias;
- 15% para os gastos discricionários (as despesas ligadas ao estilo de vida que você decide se e quando fazer).
A lógica por trás dessa divisão importa mais do que os próprios percentuais. A parcela destinada aos projetos, às reservas e à construção patrimonial aparece primeiro; as despesas essenciais vêm em seguida; e os gastos voluntários ocupam o espaço restante. Quando é preciso ajustar, começamos pelo que tem menor prioridade.
Nem todas as famílias conseguirão direcionar 20% da renda desde o início, e isso não invalida o princípio. Talvez seja necessário começar com 10%, 5% ou com os mesmos R$ 6 da nossa caixinha do gás. Em determinadas situações, a primeira destinação será justamente reduzir uma dívida cara que compromete parte da renda futura. Pagar-se primeiro não começa com um percentual perfeito: começa quando o futuro deixa de receber apenas o que sobra. E quase nunca sobra!
Separar uma parte da renda antes de consumi-la também não significa ignorar as despesas e responsabilidades atuais. Significa reconhecer que as reservas, os objetivos e a vida que desejamos construir também são igualmente compromissos do presente — ainda que seus benefícios só sejam percebidos mais adiante.
Do plano ao movimento
Ao longo das últimas conversas, construímos uma sequência: compreender onde estamos, definir para onde queremos chegar e avaliar os caminhos possíveis entre esses dois pontos.
Mas conhecer o ponto de partida e traçar a melhor rota ainda não coloca o carro em movimento. A viagem só começa quando parte do combustível é direcionada para percorrê-la e para os contratempos do percurso. É isso que fazemos ao nos pagar primeiro: transformamos uma intenção futura em uma destinação concreta no presente.
Vale lembrar que nem todo dinheiro reservado possui a mesma função. Uma parte atende despesas previsíveis; outra fica disponível para o imprevisto; e os recursos de objetivos distantes podem percorrer caminhos diferentes.
Na próxima conversa, vamos retomar e aprofundar dois conceitos importantes da nossa viagem: a reserva tática, destinada aos gastos previsíveis que aparecem em determinados momentos do caminho, e a reserva de emergência, o nosso estepe financeiro para aquilo que não estava no roteiro.
Eles vão nos ajudar a responder à pergunta que aparece depois da primeira mudança de hábito: “Comecei a me pagar primeiro. E agora, o que faço com esse dinheiro?”
Ficou alguma dúvida, quer sugerir um tema ou discordar de algo que leu aqui? Escreva para mim. Muitas vezes a pergunta de um leitor é a de várias outras pessoas — e pode virar o assunto de uma próxima conversa: aln.po@outlook.com.br










