O governo perfeito e o fim do conto de fadas
No conto de fadas da política, tudo costuma funcionar muito bem: a administração avança, os problemas são passageiros e qualquer cobrança mais insistente pode ser acomodada na prateleira das “críticas da oposição”.
Até que os próprios aliados resolvem falar.
A sessão de segunda-feira, 19 de outubro, da Câmara Municipal de Pinhão trouxe um inconveniente para a narrativa do governo perfeito: vereadores da base do prefeito Valdecir Biasebetti ocuparam a tribuna para expor dificuldades, cobrar respostas e demonstrar preocupação com os rumos da administração.
Dessa vez, ficou mais difícil atribuir todo o desconforto à oposição. O alerta veio de dentro de casa.
Solange Adronski cobrou explicações sobre os cortes nas jornadas extraordinárias de professores e seus efeitos no atendimento aos estudantes. Alain Cesar de Abreu manifestou tristeza e preocupação com a Saúde, advertindo sobre as consequências da redução de despesas em um setor que já enfrenta falta de profissionais. Aroldo Antunes Domingues reconheceu falhas, falou em revisão de contratos e antecipou novos ajustes.
Pelo visto, o castelo também tem contas para pagar. E a varinha mágica ainda não encontrou uma solução para a folha.
Há um significado político nessas manifestações: dificuldades que já vinham sendo apontadas pela oposição passaram a aparecer também nos discursos de quem sustenta o governo. Isso não transforma automaticamente toda crítica anterior em verdade comprovada, mas torna bastante desconfortável continuar tratando questionamentos como simples implicância de adversários.
Quando aliados começam a descrever os mesmos problemas, talvez seja hora de prestar atenção ao problema.
O corte sai da planilha e chega à vida
“Redução de despesas” é uma expressão organizada, dessas que ficam bonitas em uma apresentação. Na vida real, porém, é preciso explicar o que será reduzido, quem será atingido e como o serviço continuará funcionando.
Na Educação, a pergunta chega à sala de aula. Na Saúde, chega à recepção, ao agendamento e ao paciente que precisa de atendimento.
É justamente aí que termina a facilidade do discurso. Porque anunciar economia exige menos explicação do que demonstrar que ela foi feita no lugar certo.
Os vereadores governistas deram um passo necessário ao tornar públicas suas preocupações. Agora, a população poderá observar o passo seguinte: haverá cobrança de documentos, acompanhamento dos efeitos e exigência de respostas ou o desabafo ficará guardado na gravação da sessão?
A tribuna é um bom começo. A fiscalização precisa continuar depois que o microfone é desligado.
A Justiça entrou no enredo
A mesma sessão também marcou a constituição da Comissão Especial de Inquérito, após uma decisão liminar determinar sua instalação e suspender os efeitos da rejeição anterior do requerimento.
A CEI deverá investigar a movimentação e a utilização de recursos públicos relacionadas ao fundo rotativo e a cartões bancários. Sua constituição não comprova irregularidades nem autoriza condenações antecipadas. Abre, entretanto, um caminho institucional para buscar documentos, ouvir explicações e esclarecer responsabilidades.
Convenhamos: quando é necessária uma decisão judicial para que uma investigação parlamentar seja instalada, o capítulo merece leitura atenta.
À frente dos trabalhos estarão Vilma Kitcky, como presidente, Luciano Padilha, como relator, e Alain Cesar de Abreu, como membro. A expectativa é que a comissão entregue respostas compreensíveis à população, sustentadas por provas e acompanhadas das explicações dos envolvidos.
Na política dos vídeos curtos, uma versão pode caber em poucos segundos. A prestação de contas exige um pouco mais: documentos, datas, valores e disposição para responder.
E o cidadão nessa história?
A reflexão que fica é sobre a distância entre a imagem de uma gestão e o funcionamento da prefeitura. Publicidade pode apresentar realizações. Não substitui professor, profissional de saúde, planejamento ou transparência.
Também não basta reconhecer a crise quando os cortes já batem à porta. É preciso explicar como se chegou até ela, quais escolhas foram feitas e por que determinados serviços ou trabalhadores passaram a receber a conta.
Pinhão não precisa de um governo de conto de fadas. Precisa de uma administração capaz de mostrar suas contas, reconhecer seus erros e proteger os serviços essenciais.
Depois da sessão de segunda-feira, o “era uma vez” perdeu espaço para uma pergunta bem mais concreta:
Afinal, qual é a verdadeira situação da prefeitura — e quando a população terá uma explicação completa?










