A falta recorrente de água e as reclamações sobre a qualidade do abastecimento levaram moradores de Pinhão a realizar uma manifestação nesta quarta-feira, 28 de outubro. A mobilização começou às 18h30, em frente ao escritório da Sanepar, e seguiu, às 19h, para a Câmara Municipal, onde a população cobrou explicações e providências do gerente operacional regional de Guarapuava, Carlos Alberto Gonçalves.
Durante o encontro, realizado antes da sessão ordinária, moradores relataram dificuldades para tomar banho, preparar alimentos, lavar roupas e manter a frequência dos filhos na escola. Também questionaram a coloração da água quando o fornecimento é retomado, o atendimento aos consumidores e as cobranças nas faturas.
A Sanepar atribuiu o agravamento recente do desabastecimento a uma sequência de ocorrências nas últimas três semanas: um assalto na estação de tratamento, um problema no sistema de bombeamento e as chuvas intensas, que dificultaram o tratamento da água captada. Os participantes, porém, ressaltaram que as dificuldades são anteriores a esses episódios e exigiram medidas que impeçam a repetição das interrupções.
Famílias relatam dificuldades e prejuízos às aulas
Uma das participantes, identificada como Luana, contou que criou um grupo de WhatsApp para reunir moradores e buscar uma solução coletiva. Segundo ela, a falta de água para lavar o uniforme tem prejudicado a frequência escolar da filha. Para conseguir lavar as roupas, relatou que precisa se deslocar até a casa da mãe, a mais de 20 quilômetros.

A professora Neusa Maria Camargo, que se identificou como moradora da Vila Caldas, afirmou que a interrupção do abastecimento também compromete o funcionamento das escolas. Conforme seu relato, houve situações em que os alunos precisaram ser dispensados, com necessidade de reposição das aulas.
Ela destacou que o problema acompanha as crianças mesmo depois de deixarem a escola, pois também falta água nas residências. A professora relatou ainda dificuldades para lavar roupas quando o fornecimento retorna com aspecto barrento.
A gente quer a solução. A gente não quer mais explicação
Moradores também manifestaram preocupação com a saúde das crianças e mencionaram episódios de diarreia. Esses relatos, no entanto, não vieram acompanhados de laudos ou investigações sanitárias que permitam estabelecer relação entre os sintomas e a água distribuída.
Moradores pedem plano emergencial e prazos definidos

A professora Juca, apresentou reivindicações que incluem um plano emergencial de abastecimento, um cronograma de manutenção e normalização do serviço e a apresentação dos investimentos previstos para o sistema.
Ela também pediu a avaliação da instalação de mais reservatórios nos bairros, citando o Dois Irmãos, e cobrou providências em prazo curto. Segundo a professora, as famílias não podem aguardar apenas por obras previstas para 2027 enquanto enfrentam dificuldades diárias.
Nós estamos cheios de promessas, nós não aguentamos mais, nós estamos no limite
Os participantes questionaram ainda a capacidade dos reservatórios existentes de garantir o abastecimento durante as interrupções. Em resposta, o gerente explicou que essas estruturas também ficam sem água quando a paralisação se prolonga e o sistema não consegue repor o volume consumido.
Sanepar explica sequência de interrupções

Carlos Alberto Gonçalves relatou que criminosos invadiram a estação de tratamento durante a madrugada, renderam um operador e levaram cabos necessários ao funcionamento dos equipamentos. Segundo ele, a retomada da operação exigiu o deslocamento de equipes e materiais de outras cidades.
Com a paralisação, os reservatórios e a rede perderam água. O gerente explicou que reiniciar o tratamento não significa restabelecer imediatamente o abastecimento em todas as casas: é necessário recuperar os níveis dos reservatórios e a pressão nas tubulações, processo que pode levar dias, especialmente nas regiões mais altas.
Na sequência, conforme a companhia, ocorreu uma falha na elevatória responsável por bombear água do reservatório central para a parte alta da cidade, provocando nova interrupção.
O terceiro episódio apontado foi o aumento da turbidez da água do rio após as chuvas intensas. Segundo Gonçalves, o excesso de partículas em suspensão exige a redução do volume tratado e, em determinadas condições, a paralisação temporária da estação.
Ele acrescentou que o aumento do consumo depois da chuva dificultou a recuperação do sistema. A empresa informou ter utilizado caminhões-pipa e realizado buscas por vazamentos, inclusive durante a noite, com apoio de equipes de fora do município.
Embora o gerente tenha afirmado que o sistema havia sido recuperado no fim do dia anterior ao encontro, moradores questionaram a regularidade do abastecimento nas regiões onde vivem e cobraram garantias de continuidade.
Companhia anuncia melhorias no bombeamento e no tratamento
Entre as providências apresentadas, o gerente anunciou uma intervenção na elevatória que atende a parte alta da cidade, com previsão de execução no domingo seguinte à reunião, durante a noite. A proposta, segundo ele, é corrigir de forma definitiva o problema que recebeu atendimento emergencial.
A Sanepar também informou que pretende instalar um módulo adicional de tratamento de água. Conforme a apresentação, o equipamento já estava no município e dependia da preparação de uma base de concreto e da instalação. A previsão mencionada foi de entrada em operação entre o fim de 2026 e o início de 2027.
Outra medida anunciada foi a instalação de um gerador fixo na captação, para acionamento automático em caso de falta de energia. O gerente citou uma licitação prevista para dezembro e a expectativa de disponibilização do equipamento a partir de janeiro. Até lá, segundo ele, a regional dispõe de gerador para atendimento emergencial.
Gonçalves ressaltou que existem ações imediatas em andamento, além das intervenções de maior prazo.
“Vocês não podem esperar. Eu não posso esperar mais”, declarou.
Qualidade da água e atendimento são questionados
Sobre a água com aspecto turvo nas torneiras, o gerente afirmou que a retomada da pressão pode desprender resíduos acumulados nas tubulações e levá-los até os imóveis.
Segundo ele, a companhia realiza análises de hora em hora na estação de tratamento, além de coletas na rede para avaliação em laboratório. Também mencionou a fiscalização feita pela Vigilância Sanitária.
O representante pediu que os consumidores registrem reclamações nos canais oficiais para gerar protocolos e permitir o encaminhamento de equipes aos endereços afetados. Moradores, entretanto, relataram dificuldades tanto nos canais remotos quanto no atendimento presencial. Diante das críticas, Gonçalves se comprometeu a discutir o problema com a área comercial e ampliar a divulgação das formas de contato.
As faturas também foram tema de cobrança. Participantes pediram descontos pelos períodos sem abastecimento e questionaram o funcionamento dos hidrômetros durante as interrupções. Não houve anúncio de abatimento coletivo; o gerente orientou que as situações sejam apresentadas ao atendimento para análise individual.
Uma moradora relatou ainda uma cobrança de R$ 55 que associou à troca do hidrômetro. Gonçalves afirmou que a substituição preventiva não deve gerar custo ao consumidor e orientou a apresentação da fatura para verificar o lançamento.
Câmara pede compromissos por escrito
O presidente da Câmara, João Paulo Levinske Mendes, cobrou a formalização das medidas anunciadas. Ele solicitou um cronograma para que o Legislativo, o Executivo e a população possam acompanhar as intervenções, além do registro dos compromissos em ata.
O representante da Sanepar concordou com a formalização e afirmou que a companhia apresentaria as informações à Câmara, à Prefeitura e à Associação Comercial.
O procurador do município, Sérgio Lopes, também participou do encontro. Ele disse que compareceu como consumidor e afirmou que o Executivo não havia sido oficialmente convidado.
Lopes informou ter acionado o órgão regulador para tratar da necessidade de ampliação do sistema de tratamento. Também defendeu a revisão das cláusulas contratuais e a cobrança dos investimentos previstos, além de orientar os consumidores que não conseguem resolver suas demandas junto à companhia a procurar o Procon municipal.
A reunião terminou com o compromisso da Sanepar de apresentar o cronograma e formalizar as ações anunciadas. A entrega desse documento e a conclusão das intervenções ainda dependem de acompanhamento. Para os moradores, a principal cobrança permanece: ter água com regularidade e qualidade nas torneiras.









