Quarta-feira, 26 de agosto de 2026
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Da UTI às comunidades: Ione Woynaroski relata trajetória marcada pela ciência, saúde e compromisso social

Em entrevista ao podcast “Falando De...”, fisioterapeuta falou sobre a atuação durante a pandemia, a aproximação entre conhecimento científico e saber popular, a força das lideranças femininas e o papel da fé

A fisioterapeuta e pesquisadora Ione Rodrigues Correia Woynaroski sentada no estúdio da TV Fatos, com as identificações do canal e do podcast “Falando De...” ao fundo.

Ione Rodrigues Correia Woynaroski participou do podcast “Falando De...”, da TV Fatos, e falou sobre sua trajetória na saúde, a atuação durante a pandemia, a ciência e o fortalecimento das comunidades. Foto: Naor Coelho/Fatos do Iguaçu

A fisioterapeuta e pesquisadora Ione Rodrigues Correia Woynaroski foi a convidada do podcast “Falando De...”, da TV Fatos. Em entrevista conduzida pela jornalista Nara Coelho, ela revisitou sua trajetória pessoal e profissional, relatou experiências vividas nas unidades de terapia intensiva durante a pandemia da Covid-19 e apresentou o trabalho que atualmente desenvolve com comunidades e organizações sociais de Pinhão.

Criada no município, Ione possui especializações em terapia intensiva, urgência e emergência e intervenção sociocultural. É mestre e doutoranda em Desenvolvimento Comunitário pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), com pesquisas relacionadas à telesaúde, às redes colaborativas e ao fortalecimento das comunidades.

Durante a conversa, a entrevistada definiu a busca por soluções e a defesa da vida como os principais motores de sua atuação.

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“Eu pulso pela vida. A minha mente trabalha no sentido de buscar soluções. Quero melhorar a vida e dar novas oportunidades para mim e para outras pessoas também

Ione Rodrigues Correia Woynaroski foi 

Da estética à terapia intensiva

A escolha pela fisioterapia aconteceu em um período de dificuldades pessoais. Mãe solo e com uma filha que enfrentava problemas respiratórios, Ione procurava uma formação que pudesse modificar a realidade da família. Inicialmente, pensou em trabalhar com estética e beleza.

A perspectiva mudou durante os estágios, quando teve contato com pacientes graves e pessoas que enfrentavam limitações de mobilidade. A experiência despertou seu interesse pela reabilitação e a levou a buscar uma residência em terapia intensiva.

Segundo a fisioterapeuta, o trabalho nas UTIs modificou profundamente sua maneira de compreender a profissão e a própria vida.

A UTI me trouxe outro olhar para o mundo. Ela mostrou a urgência de fazer as coisas, de se comprometer com as pessoas. Em um segundo você pode perder alguém. É a mãe, o filho ou o amor da vida de alguém

 Ione Rodrigues Correia Woynaroski

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Para Ione, o ambiente hospitalar também evidencia a importância do trabalho coletivo. Ela destacou que, diante de uma emergência, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e demais profissionais precisam atuar de forma coordenada para tentar preservar a vida do paciente.

Atuação durante a pandemia

Quando os primeiros casos do novo coronavírus começaram a ser registrados no Brasil, Ione estava em Pinhão, concentrada na conclusão de sua dissertação de mestrado. A mobilização de colegas da área da saúde fez com que retomasse os estudos sobre doenças respiratórias e coronavírus.

Com formação em terapia intensiva, ela acabou retornando à assistência. Atuou em hospitais, incluindo a UTI do Hospital Regional, e também prestou atendimento a pacientes e famílias nas comunidades.

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Durante o programa, Ione relatou a pressão enfrentada pelas equipes de saúde nos períodos mais críticos da pandemia, quando vários pacientes apresentavam agravamento simultâneo e as unidades hospitalares operavam sob forte demanda.

“Tivemos dias em que perdíamos três, quatro ou cinco pacientes em menos de uma hora. Enquanto uma equipe atendia uma parada, outro paciente também piorava. Nós, profissionais da saúde, vivenciamos aquilo”, recordou.

Ela também contou ter atendido pessoas em casa, principalmente nos momentos em que havia dificuldade para conseguir vagas hospitalares ou quando pacientes, assustados com a possibilidade de intubação e isolamento, resistiam em procurar uma unidade de saúde.

A fisioterapeuta sugeriu que os relatos de moradores de Pinhão que sobreviveram às formas graves da Covid-19 sejam reunidos em um documentário. Para ela, preservar essas memórias ajudaria a combater a desinformação e poderia contribuir para a preparação da sociedade diante de futuras emergências sanitárias.

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“Temos pacientes que foram gravíssimos, sobreviveram e têm coisas para contar. Acho que já passou da hora de fazermos esse resgate, porque teremos outros vírus e precisamos estar preparados”, defendeu.

Ciência, vacinação e desinformação

Outro ponto abordado foi a importância da ciência e da vacinação. Ione lamentou a redução da cobertura vacinal no país e afirmou que a polarização ocorrida durante a pandemia contribuiu para espalhar dúvidas sobre medidas de prevenção e tratamentos.

A entrevistada também criticou o uso de medicamentos sem indicação e acompanhamento profissional. Segundo ela, durante sua atuação no Rio Grande do Sul, encontrou pacientes que relatavam consumo excessivo de ivermectina. Ione associou alguns quadros observados naquele período ao uso inadequado do medicamento, destacando os riscos da automedicação.

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As declarações foram apresentadas como parte da experiência profissional relatada pela entrevistada. A orientação geral das autoridades sanitárias é que medicamentos sejam utilizados somente com indicação e acompanhamento de profissionais habilitados.

Ao falar sobre a condução política da pandemia, Ione criticou a comunicação adotada pelo então presidente Jair Bolsonaro e avaliou que manifestações de uma liderança nacional têm grande influência sobre o comportamento da população. Ela ressaltou, contudo, que não considera as pessoas desinformadas por falta de inteligência, mas sujeitas à confiança depositada em seus representantes.

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Para a fisioterapeuta, quanto maior a formação e o conhecimento adquirido por um profissional, maior também deve ser seu compromisso com a sociedade. Ela lembrou que teve bolsa parcial do Programa Universidade para Todos (Prouni), realizou residência e cursou um mestrado em instituição pública.

Quem faz um mestrado público tem um compromisso com a sociedade. O saber traz responsabilidade

Ione Rodrigues Correia Woynarosk

Ciência e saber popular

As experiências vividas fora do ambiente hospitalar levaram Ione a refletir sobre a relação entre o conhecimento técnico e os saberes tradicionais. Ao atender pacientes em suas casas, sem a estrutura de uma UTI, ela passou a dialogar mais intensamente com familiares e moradores das comunidades.

Segundo a pesquisadora, esse processo mostrou que o conhecimento popular pode colaborar com ações de cuidado, acolhimento e organização comunitária. Ela ressaltou, porém, que essa aproximação não significa rejeitar hospitais, medicamentos ou tratamentos científicos.

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“Não sou contra internamento ou hospital. Sou uma profissional de dentro da UTI. A questão é que, em uma pandemia, guerra ou desastre natural, a comunidade precisa estar preparada para atuar, porque o primeiro atendimento pode salvar vidas”, explicou.

Ione citou como exemplo o tornado que atingiu Rio Bonito do Iguaçu. Conforme seu relato, moradores e integrantes de movimentos populares participaram dos primeiros socorros antes que toda a estrutura institucional pudesse responder ao elevado número de vítimas.

A experiência motivou a elaboração de um projeto encaminhado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com a proposta de aproximar pesquisa, tecnologia, ciência e conhecimento tradicional das comunidades.

Rede reúne organizações de Pinhão

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Atualmente, a fisioterapeuta participa de um trabalho que envolve, segundo ela, 14 associações e organizações sociais de Pinhão. A rede reúne representantes de comunidades rurais, quilombolas, catadores de materiais recicláveis, pessoas autistas, surdas e outros grupos.

A proposta é identificar problemas comuns, promover formação e buscar soluções construídas coletivamente. Ione destacou que a extensão territorial de Pinhão, as condições das estradas e o isolamento de algumas localidades dificultam a articulação entre as comunidades.

Para a pesquisadora, apesar das riquezas naturais exploradas ao longo da história e dos recursos recebidos pelo município, muitas localidades ainda convivem com problemas semelhantes aos enfrentados pelas gerações anteriores.

“Podemos ficar uma semana falando sobre os problemas de Pinhão. A diferença é perguntar o que podemos fazer para solucionar. Quando as comunidades se reúnem em rede, elas passam a ter mais força”, avaliou.

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Ela também ressaltou que a pesquisa acadêmica precisa escutar a população. Uma proposta considerada relevante pelo pesquisador, observou, nem sempre corresponde à necessidade mais urgente de quem vive no território.

Liderança feminina e enfrentamento à violência

A participação das mulheres nas associações comunitárias também recebeu destaque. Na avaliação de Ione, são elas que frequentemente lideram mobilizações por estradas, saúde, educação e melhores condições de vida.

Ao tratar da violência contra a mulher, a fisioterapeuta defendeu a formação de redes de apoio, a autonomia financeira e a participação em grupos comunitários e espaços de estudo.

“Não há outra maneira de as mulheres vencerem a violência se não for pela união. Reunir-se com outras mulheres, participar de atividades e buscar formação já é um primeiro passo”, disse.

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Ione informou que uma formação em educação popular em saúde disponibilizou 40 vagas, rapidamente preenchidas, com participação majoritária de lideranças femininas.

Ela também chamou a atenção para a falta de remuneração das pessoas que comandam associações comunitárias. Na sua avaliação, muitas mulheres acumulam trabalho, responsabilidades familiares e atuação voluntária, o que limita a capacidade de mobilização e acompanhamento das demandas públicas.

A presença da fé

No encerramento do podcast, Ione falou sobre a fé e recordou parte de sua infância. Após a morte do pai, viveu por um período em um colégio de freiras ucranianas, em Cruz Machado. Mais tarde, foi acolhida por uma família e levada para Curitiba para receber tratamento de saúde.

Apesar de afirmar que atualmente não mantém uma vida religiosa institucional, ela contou que a devoção a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro marcou diferentes etapas de sua trajetória.

A fé também esteve presente no atendimento aos pacientes durante a pandemia. Ione relatou que rezava e cantava com pessoas hospitalizadas ou atendidas em casa quando percebia que aquela prática lhes oferecia conforto.

“Eu tive pacientes católicos e evangélicos, e eles me ensinaram muito. Para muitas pessoas, especialmente as mais velhas, a fé fazia muito sentido e ajudava naquele momento”, contou.

Ao concluir a entrevista, a fisioterapeuta agradeceu às famílias que confiaram em seu trabalho durante a pandemia e às comunidades que hoje participam da rede de organizações sociais.

“Eu aprendo todos os dias com vocês. Pinhão tem um povo maravilhoso, trabalhador, com muita fé e que, mesmo nas situações mais difíceis, consegue oferecer o seu melhor”, finalizou.

Assista  a entrevista completa com Ione Rodrigues Correia Woynaroski  no podcast “Falando De...”, da TV Fatos.


Editoria Pinhão
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