Terça-feira, 3 de novembro de 2026
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A vida que não aconteceu também deixa saudade

Mariana Huller, colunista do Portal Fatos do Iguaçu, com cabelos longos e ondulados, usando óculos, blusa de gola alta em tom terracota e cachecol marrom, diante de uma parede clara.

Existe uma saudade estranha que não cabe em fotografia nenhuma. Não é de uma pessoa, de uma casa ou de uma época. É saudade de alguma coisa que nunca chegou a acontecer.

Da cidade onde você quase morou. Do curso que pensou em fazer. Do emprego que parecia que seria seu. Dos planos feitos em conversas que, algum tempo depois, perderam o sentido.

Talvez uma das partes mais silenciosas de viver seja perceber quantas vidas precisamos deixar para trás sem nunca tê-las vivido.

Quando somos mais novos, o futuro parece enorme justamente porque quase tudo ainda é possível. Podemos morar em qualquer lugar, trabalhar com qualquer coisa, conhecer qualquer pessoa. Aos poucos, porém, escolher começa a significar também renunciar.

Quando você decide ficar, existe uma versão sua que foi embora. Quando escolhe uma profissão, existem outras que nunca serão suas. E isso não significa que escolhemos errado.

Talvez seja justamente aí que mora a parte mais difícil de explicar.

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Podemos estar felizes com a vida que temos e, ainda assim, olhar com carinho para aquela que não aconteceu. Podemos amar onde estamos e continuar imaginando, vez ou outra, quem seríamos se tivéssemos pegado aquela outra estrada.

Há uma tendência de tratar qualquer dúvida sobre nossas escolhas como arrependimento. Como se estar em paz exigisse nunca mais olhar para os lados. Mas talvez amadurecer seja justamente conseguir fazer as duas coisas: reconhecer que uma escolha foi boa e aceitar que aquilo que deixamos para trás também tinha beleza.

Porque não sentimos falta apenas do que vivemos. Sentimos falta das expectativas que criamos.

Às vezes, passamos anos imaginando uma determinada versão do futuro. Damos endereço, profissão, companhia e até personalidade para a pessoa que acreditamos que seríamos. Quando a vida segue por outro caminho, ninguém realiza um funeral para essa versão de nós. Simplesmente continuamos.

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Mas alguma coisa fica.

Talvez por isso certas perguntas nos atravessem de repente. Como seria se eu tivesse ido? E se tivesse aceitado? E se tivesse ficado? Quem eu seria hoje?

Não existem respostas. E talvez seja melhor assim.

A vida que aconteceu tem uma vantagem injusta sobre todas as outras: ela é real. Tem defeitos, boletos, segundas-feiras, pessoas complicadas e planos que dão errado. As vidas que não vivemos permanecem intactas na imaginação. Nelas, nada envelheceu, ninguém nos decepcionou e todas as possibilidades continuam abertas.

Por isso é tão fácil idealizá-las.

Ainda assim, não precisamos expulsá-las da memória para valorizar o presente.

Algumas vidas não foram feitas para serem vividas. Foram possibilidades que nos acompanharam durante determinado trecho do caminho e ajudaram, inclusive, a formar quem somos hoje.

Talvez crescer seja aprender que escolher uma vida significa se despedir de muitas outras.

E que podemos sentir saudade delas sem querer voltar atrás.

Editoria Mariana Huller
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