Há um velho dito popular que nos diz que uma única imagem vale muito mais do que mil palavras. E, de fato, isso é verdade. Uma grande verdade.

Há certas cenas que adentram nossos olhos e invadem nossa alma que valem muito, muito mais do que volumosos tratados palavrosos. Porém, tal dito é apenas válido para aqueles que têm o coração aberto para receber as luzes que nos são trazidas por meio de uma imagem. Apenas para esses corações, não para os peludos.

Um bom exemplo disso é o filme “A Paixão”, dirigido por Mel Gibson. Uma pessoa como o Papa Emérito Bento XVI, após ter assistido a película, disse que trocaria todas as suas homilias, livros e artigos sobre a dolorosa paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo por algumas cenas do filme, tamanha é a luz que emana das imagens desse filme.

Já outras figuras, de coração peludo, após terem visto o mesmíssimo filme, apenas foram capazes de manifestar sua indignação frente à violência que era retratada no mesmo. Enfim, nesses casos, de fato, os corações apenas são capazes de transbordar ao mundo o que há neles em abundância.

Em se falando de imagens, francamente, gostaria muito de tecer alguns comentários a respeito das imagens das ruas desse fim de semana onde, em inúmeras cidades brasileiras tivemos boleiras de pessoas que foram às ruas para se manifestar em favor do voto auditável e da apuração transparente e pública dos mesmos. Na verdade, até iria, mas creio eu que as imagens e filmagens que foram compartilhadas pelos cidadãos brasileiros, através das redes sociais, falam por si só. Imagens essas que foram desdenhadas pelos atentos olhares da velha mídia e demais tranqueiras similares.

Na real, não é por isso não. É por outro motivo.

Em meio à muvuca de imagens que invadiram meu aparelho celular neste domingo e, consequentemente, adentraram as janelas de minha alma, houve uma que, francamente, me deixou profundamente tocado. Tão bela que, naturalmente, não tive como não compartilhá-la.

Na fotografia em questão vemos um homenzarrão com um chapéu de cowboy sendo abraçado por um homem e por uma mulher, ambos franzinos. A mulher estava com um estetoscópio sobre o peito do homenzarrão e ela, e o outro homem, seu esposo, estavam entregues a um pranto copioso que nos faz, num primeiro momento, estranhar, mas, logo em seguida, estremecer. Quanto ao homenzarrão, esse estava afetuosamente abraçando a ambos e estava com seus olhos amendoados marejando em lágrimas.

A razão de tal cena é que o grandalhão havia recebido um transplante de coração; coração esse que era do filho do casal que, naquele momento, estavam ouvindo as batidas do coração do seu filho que estava agora entre as costelas daquele homem.

O coração do filho amado continuava vivo, inundando de vida aquele senhor.

Bah! Como a vida é pequena; digo, como vivemos de forma miúda, como nos permitimos ser movidos pela pequenez nossa de cada dia e aí, em meio a uma e outra mesquinharia, do nada, somos brindados com uma imagem que faz luzir toda a grandeza que é semeada por Deus no coração humano que, com um gesto carregado amor, faz-nos ver que a vida é muito mais do que nossos maculados olhos são capazes de ver.

Não temos como não sentirmos toda a alegria presente na cena e, ao mesmo tempo, não temos como fechar nossas vistas para toda a dor que é exalada por esse recorte do tempo que, junto com o regozijo reinante naquele momento, reflete a luz da eternidade.

Isso mesmo. Dor e alegria. Como nos ensina o poeta (Camões), o músico (Renato Russo) e, bem como e principalmente, o Apóstolo dos Gentios (São Paulo), amor é uma dor que não se sente. Não se sente, mas dói e, quem ama sabe muito bem o que esse paradoxo quer dizer.

Qualquer um que tenha filhos não consegue ficar indiferente diante de uma cena como essa. Não temos como não nos colocar no lugar dos pais do doador; não temos como não nos colocar no lugar da pessoa que foi brindada por esse singular gesto de amor e, não podemos, nem desejamos deixar de participar do turbilhão de emoções que integram a composição que nos chega às janelas de nossa alma. E, assim o é, porque, depois disso, algo em nós é mudado para sempre.

Tendo a pensar que muitos dos que agora estão a deitar suas vistas sobre essas turvas linhas, e que mergulharam seus olhos na referida imagem, possivelmente estão com certo aperto no peito e com as vistas a ponto de transbordar, se essas já não se derramaram pelas linhas de expressão da sua face.

Também não descarto que existam algumas pessoas que, após terem visto a mesma cena, tenham simplesmente ignorado o fato retratado, por mero automatismo, ou até, quem sabe, tenham achado graça, por desprezar a realidade vivaz comunicada pelo retrato, simplesmente por estarem com pressa para sair do nada para chegar a lugar nenhum.

Aliás, estamos sempre sem tempo para aquilo que é necessário e, frequentemente, procurando mais e mais tempo para nos perdermos em nós mesmos, e de nós mesmos, em alguma banalidade do último momento.

É inegável que há algo em nosso íntimo que tende ao bem, da mesma forma que há em nós alguma coisa que nos arrasta para o mal e que nós, muitas vezes, por total falta de discernimento, acabamos por dar ouvidos para o que há de mais torpe em nós; mesmo porque, como todos nós sabemos, discernimento exige algum esforço de nossa parte e, para muitos de nós, isso é demais da conta.

Para conquistar esse dom, o discernimento, devemos nos entregar de corpo e alma ao amor pela verdade, pois, como todos nós muito bem sabemos, não há amor onde a verdade não pode fazer morada.

Por fim, em sua última carta, escrita em 02 de agosto – dia em que escrevinho essas linhas – de 1940, Walter Benjamin escreveu sua última carta para Theodor Adorno. Nela, entre outras coisas, ele havia dito: “Meu medo é que o tempo disponível, para nós, possa ser muito mais limitado do que supúnhamos”. E o tempo é sempre muito mais limitado do que costumamos supor. Sempre.

Por isso tentemos – se possível for – não esquecermos que a verdade se revelou a todos nós nessa imagem que foi desenhada amorosamente pelo gesto dessas pessoas; e que a verdade revelada por elas toque nossos peludos corações, que nos permitamos ser, também, instrumentos nas mãos Daquele que é amor para, quem sabe, aprendamos a amar.

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

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