Com o retorno das aulas do ensino básico, eu tive a grata oportunidade de assumir minhas aulas, num projeto de leitura e produção textual, na escola onde trabalho, com turmas de 4° e 5º anos. Para quem me conhece, sabe que ler e escrever, sempre foi uma das minhas paixões. E as pessoas com quem convivo, muitas vezes me inspiram, para a composição dos meus textos. Inclusive este. Então, no aconchego da minha casa, preparando o material para, retornar a sala de aula, no dia seguinte, me lembrei de uma passagem que acontecera, a um tempo atrás.
Não lembro com exatidão a data. Nesse momento em que eu coletava os tais materiais, pensei: por que não partilhar, este fato, típico de sala de aula, com meus leitores? De antemão, ressalto a vocês, que tais discussões a respeito, aqui contidas, sempre fizeram e fazem parte do nosso trabalho como professor de literatura, ou também de outras disciplinas vinculadas, que falem sobre problemas sociais, arte, personalidade individual e históricos familiares, tais assuntos pertinentes a atividade de leitura e produção textual.
Logo, resolvi dividir com vocês, também, parte dos meus relevantes conhecimentos dentro da área, adquiridos ao longo de décadas, que terão quatro capítulos, falando a respeito do impacto que um texto bem escrito nos causa, e quando nós, individualmente, produzimos também, na maioria das vezes, temos uma sensação de liberdade mental. Considerando, que a minha profissão efetiva, também implica em partilhar informações.
Mas vamos ao que interessa: Então, nesse dia, depois me apresentar aos alunos que não me conheciam, desejei boas vindas a todos, e falando da minha primeira formação acadêmica, minha experiência na área, salientei que era a disciplina iria trabalhar com eles, durante o ano. Comecei perguntando: -O que é a vida, para vocês? Fui perguntando, fila, por fila. Várias concepções a respeito, chegaram aos meus ouvidos. Até que no meio da sala, me aproximei de um, daqueles sujeitos, com ar de astuto, tipo, que tudo sei e ninguém me conteste, que me disse num tom sorrateiro:
- Nada a vê professor! Que pergunta! O que a nossa vida, tem a vê… com os livro? Livro da escola é prá aprendê a lê e vê desenho! Disse enfaticamente. Até agora só li os livro em que os animal falum. Livro prá criança! Ironizou. Não sei falá sobre minha vida. Muito menos escrevê arguma coisa, sobre ela. Cansa muinto!Ah, não! É falta de praticar… E é o que faremos neste ano. Retorqui. E ele continuou: - E essa pergunta… que feiz prá nóis… nada a vê com a tua matéria! Insistiu, falando pausadamente. Só os médico, psicólogo, se não me ingano, que faiz, pra sabê como a gente tá de saúde da cabeça. Ninguém aqui gosta da tal de filosofia de vida, de lição de moral: (as ditas, regras sociais ou educacionais)- ou de falá da nossa vida, na casa. Dos nossos pobrema. Falou ele, em nome da turma. O sinhor que qué sabê da muinto, da vida aieia.
Brincou. Não tomei como uma afronta. Era o que ele conhecia sobre a vida, a medicina clínica e sobre os textos. Porque na verdade, socialmente falando, ninguém gosta de falar sobre a própria vida. Preferem esconder e ou sofrerem calados. De fato, livros de fábulas é o que se trabalha nas escolas visando melhorar comportamentos e compreensão de texto e produção, apropriado para até aquela idade. Mas porque não produzir também historias infantis? Até nós adultos temos o nosso lado criança?
Questionei superficialmente, mas não alimentei mais a discussão, porque constatei, que ninguém em sua casa, ou no seu meio, o ensinaram a refletir sobre o sentido da vida, presumo que a professora da disciplina, talvez pela tenra idade. do aluno, acreditava que ele poderia até não compreender a complexidade do assunto, como principio não compreendeu, que chegou a refutar o meu conteúdo planejado.
Acredito que a regente, como muitos atarefados do oficio, não teve tempo de explicar à turma, muito menos a ele, uma base, ao seu nível de compreensão, a relação do nosso quotidiano com a literatura, adequada a idade, e se possível, que o aluno se identifique com o que lê, a leitura de bons livros, a escrita à mão e os benefícios dessas anotações, para o nosso desenvolvimento, de uma forma geral, principalmente cognitivo. E que poderemos ir muito além das fábulas, que também tem grande importância na formação dos pequenos intrigantes.
E a bem da verdade eu tinha de começar a minha aula. Mas logo, notei que ali eu teria que enfrentar um problema. No entanto, acreditava piamente, que com o tempo, eu iria “ganhar campo” e conseguiria colocar naquela cabecinha, que a literatura, o texto escrito, a filosofia, a história de ontem de hoje, o nosso modo de ser e de viver está tudo entrelaçados, nesse mundo que engloba também o lúdico, a nossa criatividade e por conseguinte cura as nossas dores. Pois passando para o papel nosso anseios, nossos maiores segredos alivia nossa alma.
Por fim, com doses homeopáticas que mexiam com suas contradições, anseios, e curiosidades trazendo a luz, a cada aula, assuntos do interesse dele, consegui convence -lo. E por fim, até se tornou um aluno que trazia questões muitas delas, por ele vividas, para serem discutidas ou produzidas através da arte literária, em sala, naturalmente os demais alunos o acompanharam, textos com pequenas frases, sugestões, contações de suas histórias familiares, mas aquele ano, foi muito proveitoso. Presumo que muitos que lerem este texto irão pensar que eu escrevi está historia para ilustrar a importância de escrever texto, fazer literatura, compreende – la como um bem a nossa mente e formação, como já foi descrito e o que ainda vai ser comentado nas próximas publicações.
Mas independente do que vão pensar, que foi mera criação minha, ratifico, que essas são passagens, de alunos que questionam, trazem levantam hipóteses a respeito de um determinado assunto que pode ser aproveitado em sala de aula, não são raras de acontecer. É o que nos motiva, quanto professores, a qual se torna digna de uma recordação, que sempre será lembrada por ambos os personagens envolvidos nessa atmosfera que envolve, paixão por fazer, criação sem limites, emoção e sensibilidade, verdadeiramente humanas.
Edmilson Siqueira Caldas
Professor, músico e escritor

