A fratura da intimidade nos sujeitos neurodivergentes (5)

 

Dr. Manuel Moreira da Silva*

 

O segundo tempo da fratura originária

No segundo tempo da fratura originária ocorre a separação da progênie e do próprio seio materno, isso acarreta a formação do assim chamado complexo do desmame, o qual, segundo Lacan (Os complexos familiares, 1938/2008, p. 19), representa a forma primordial da imago materna e, assim, funda os sentimentos mais arcaicos e mais estáveis que unem o indivíduo à família. Tais sentimentos, contudo, não são senão a memória ela mesma arcaica da forma primordial originária, o Uno-todo ou o Todo-uno que o indivíduo era antes de aceder ao sentimento de si, antes portanto de ser afetado pela fratura originária e, por isso, antes de tornar-se dois, isto é, o duplo de si mesmo, ele próprio enquanto Si mesmo e o Outro de si que ele mesmo é enquanto se afeta a si ou é afetado por si mesmo.

O complexo do desmame opera justamente ao nível daqueles sentimentos de modo a sustentar a separação da progênie e do seio materno, mantendo, porém, certa familiaridade com este; razão pela qual é justamente a familiaridade com o seio materno que cria a identidade fraterna e, a um tempo, introduz o complexo fraterno. Embora vista como normal por alguns, por exemplo Winnicott, para o indivíduo que vivencia o complexo do desmame, ao contrário, a separação do seio materno se mostra duplamente traumática porquanto aquele já perdera seu ser-próprio originário – quando a mãe era o bebê e quando o bebê era a mãe – e, agora, igualmente perde a ligação privilegiada com quem o mantinha na memória inconsciente daquele ser. Tal ligação e tal memória, em termos biológicos, mas também antropológicos e psicológicos, permanecem inscritas no âmbito da formação do inconsciente da progênie desde seu nascimento.

Ligação e memória que foram de certa maneira reconhecidas por Freud (Três ensaios…, 1905/2016, p. 85) e Imre Hermann (O Instinto filial, 1943/1972) na chamada pulsão do agarro. Uma pulsão que, no agarro, ou mais precisamente no abraço, tende a retornar àquele estado de conforto e segurança, assim como de confiança e dependência; a qual, também, para Freud (Três ensaios…,1905/2016, p. 84-85), está ligada ao ato de chupar e de sugar sem a finalidade da alimentação, isto é, por simples prazer sexual. Desse modo, ainda que concebida por Freud e Hermann nos limites de uma pulsão parcial, a pulsão do agarro guarda em si a memória – sempre inconsciente – da ligação originária do indivíduo a si mesmo, com o tempo em que ele era de fato “in-divíduo”, logo uno, e não “indiví-duo” ou, mais precisamente, dois. Em suma, cindido ou separado de si mesmo.

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* Dr. Manuel Moreira da Silva é psicanalista, fundador e Coordenador Geral da Sociedade Brasileira de Daseinspsicanálise – Instituto de Daseinspsicanálise (SBDp-ID), professor do Departamento de Filosofia da Unicentro (Guarapuava) e pesquisador de Filosofia e Psicanálise. Contato: E-mail: manuelmoreira@efp-id.info; WhatsApp: 42 988084402.

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