A fratura da intimidade nos sujeitos neurodivergentes (2)

 Dr. Manuel Moreira da Silva*

 

Posições da Identificação (1)

A identificação se põe como tal mediante cinco mecanismos que se mostram – cada um à sua maneira – de modo sucessivo e probatório: introjeção, assimilação, idealização, projeção e interjeção. As três primeiras já presentes em Freud, a quarta delineada por Melanie Klein e a quinta proposta por Christoffer Bollas. A identificação se mostra como um processo finito nos sujeitos neurotípicos, aliás, neuroconvergentes, sobretudo nas estruturas de matriz edípica e narcísica, mas, ao contrário, se mostra como um processo infinito nos sujeitos neurodivergentes e, em rigor, na matriz antinarcísica. Neste flash nos limitaremos a jogar alguma luz nas primeiras três formas de identificação, ficando as duas últimas para o seguinte.

Em linhas gerais, a identificação introjetiva está presente em todas as pessoas e tem por mecanismo a introjeção, processo por meio do qual, já em Freud – sobretudo na Interpretação dos sonhos (1900/2019), nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905/2016) e, especialmente, em Psicologia das massas e análise do eu (1921/2011), ocorre a incorporação primitiva da imagem de outrem (no limite, o devoramento de outrem) e que, para a sua integração, nas palavras de Erikson – em Identidade: Juventude e crise (1967/1972) –, no processo da formação do sujeito vivo, depende da mutualidade satisfatória entre o assistente e o assistido.

Já na identificação assimilativa ocorre a identificação no sintoma do outro então assimilado (logo assumido) pelo indivíduo (mais precisamente pelo Eu, o sujeito do inconsciente reprimido) como seu no lugar daquele. Essa a forma de identificação em jogo sobretudo nas estruturas neuróticas (quando A toma para si o fardo de B) e que, em geral, se sobrepõe às não-neuróticas; o que termina por encobri-las como tais, tanto as narcísicas (narcisistas e o antinarcisistas) quanto as antinarcísicas (em especial, aquelas que estruturam o sujeito neurodivergente). Esse o motivo de, em muitos casos, neurodivergentes serem diagnosticados de modo equivocado ou considerados igualmente neuróticos ou, ainda, psicóticos.

Por sua vez, a identificação idealizativa tem como mecanismo a idealização, que, juntamente com a assimilação e a projeção, também se constitui enquanto um mecanismo de defesa do Ego. Em sua estrutura básica, essa posição consiste na identificação do Ego com o Superego ou, ainda, o Ideal do Ego, portanto no colocar-se do Eu (o sujeito do inconsciente reprimido) no lugar do outro (como determinação do Outro: o sujeito do inconsciente repressor, que castra, ou aquele que se impõe como seu ideal). Essa a identificação do indivíduo com a comunidade e, assim, constituidora da relação deste e seu líder. Entretanto, tal situação se mantém apenas na perspectiva de uma relação de três pessoas, ou triádica, própria da matriz edípica.

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* Dr. Manuel Moreira da Silva é psicanalista, fundador e Coordenador Geral da Sociedade Brasileira de Daseinspsicanálise – Instituto de Daseinspsicanálise (SBDp-ID), professor do Departamento de Filosofia da Unicentro (Guarapuava) e pesquisador de Filosofia e Psicanálise. Contato: E-mail: manuelmoreira@efp-id.info; WhatsApp: 42 988084402.

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