A fratura da intimidade nos sujeitos neurodivergentes (1)

 

Dr. Manuel Moreira da Silva*

 Nos anos de 1960, em Identidade: Juventude e Crise, de 1967, Erik Erikson tivera que lidar com a vastidão e a limitação excessivas dos conceitos de ‘identidade’ e de ‘crise de identidade’. Nos dias de hoje ocorre uma situação semelhante quanto à noção de ‘identificação’, especialmente quanto aos sujeitos neurodivergentes; o que exige um tratamento mais aprofundado e pormenorizado do que se entende por ‘identificação’ na atualidade.

De um lado se perde a especificidade e, de outro, o caráter global desse conceito; não obstante, o que torna o problema ainda mais dramático é a necessidade do seu uso para a consideração de fenômenos a um tempo tão próximos e com elementos comuns entre si, mas igualmente tão diversos e dispersos como os da neurodivergência, em especial as AH/SD, o TEA e o TDAH. Essa a dificuldade que está na base, por exemplo, do que aqui se designa a querela da identificação.

Ora, o que aqui se designa a querela da identificação tem a ver com o que em psicanálise e em psiquiatria se nomeia a querela dos diagnósticos, logo com os tipos de diagnóstico, que geralmente se confrontam, assim como com os tipos de identificação que em cada caso estão em jogo. Exemplo disso são, de um lado, o discurso psicanalítico tradicional, que tudo reduz às estruturas e aos fenômenos edípicos – oposto à identificação e ao diagnóstico em geral e nas AH/SD em especial –, e, de outro, o discurso psicologista e psiquiátrico cientificista, que tudo reduz ao DSM e ao CID. Ao contrário desses discursos, defende-se aqui a função primal da identificação, a saber, a formação da identidade, mais especificamente, a formação da identidade pessoal. Situação em que a identificação formal da neurodivergência em cada caso em questão constitui o primeiro para a construção ou a reconstrução da identidade íntima do sujeito.

Uma identidade pessoal, íntima, se forma em sua completude apenas quando, ao final de um processo contínuo de identificações parciais – introjetivas, projetivas, interjetivas, sucessivas e probatórias com outrem –, o indivíduo se autoriza e, assim, se mostra capaz de afirmar-se a si mesmo como Si mesmo. À distinção do Self, do Ego e do Je, o Si mesmo é o sujeito do Inconsciente poiético, a um tempo: sujeito erógeno, suporte de afetos e emoções, mas também sujeito do pensar, do agir e do desejar. Afirmar-se como Si mesmo, eis a função da identificação, que, como tal, devido à fratura da intimidade, falha inexoravelmente nos sujeitos neurodivergentes. Isso, porém, ao clivar seu Si mesmo, desafia cada um a confiar em si mesmo, como Outro; a ter que ser, ainda que sem ser. (Continua…).

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* Dr. Manuel Moreira da Silva é psicanalista, fundador e Coordenador Geral da Sociedade Brasileira de Daseinspsicanálise – Instituto de Daseinspsicanálise (SBDp-ID), professor do Departamento de Filosofia da Unicentro (Guarapuava) e pesquisador de Filosofia e Psicanálise. Contato: E-mail: manuelmoreira@efp-id.info; WhatsApp: 42 988084402.

 

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