Para o uso adequado do termo neurodivergente
Dr. Manuel Moreira da Silva*
Em “Neuroqueer Heresies: Notes on the Neurodiversity Paradigm, Autistic Empowerment, and Postnormal Possibilities” (2021), Nick Walker, escritora queer, transgênero e assumidamente autista, docente no Instituto de Estudos Integrais da Califórnia (CIIS), nos apresenta uma contribuição fundamental para o uso e o entendimento adequados do termo neurodivergente. Assim, no que segue, nos limitamos a uma adaptação do texto da autora para o português.
Neurodivergente é um termo bastante amplo. Mas, em síntese, às vezes abreviado como ND, significa ter uma mente que funciona de maneiras que divergem significativamente dos padrões sociais dominantes de “normal”.
A neurodivergência (entendida pela autora como o estado de ser neurodivergente) pode ser em grande parte ou inteiramente genética e inata, ou pode ser em grande parte ou inteiramente produzida por experiências de alteração cerebral, ou alguma combinação das duas.
O autismo e a dislexia são exemplos de formas inatas de neurodivergência, enquanto alterações no funcionamento do cérebro causadas por traumas, prática de meditação de longo prazo ou uso intenso de drogas psicodélicas são exemplos de formas de neurodivergência produzidas através da experiência.
Uma pessoa cujo funcionamento neurocognitivo diverge das normas sociais dominantes de várias maneiras – por exemplo, uma pessoa que é autista, disléxica e epiléptica – pode ser descrita como neurodivergente múltipla. Essa a terminologia que também pode ser descrita como tríplice ou múltipla condicionalidade.
Algumas formas de neurodivergência inata ou em grande parte inata, como o autismo, são fatores intrínsecos e difundidos na psique, na personalidade e na forma fundamental de um indivíduo se relacionar com o mundo. O paradigma da neurodiversidade rejeita a patologização de tais formas de neurodivergência, e o Movimento da Neurodiversidade opõe-se às tentativas de se livrar delas.
Outras formas de neurodivergência, como a epilepsia ou os efeitos de lesões cerebrais traumáticas, poderiam ser removidas de um indivíduo sem apagar aspectos fundamentais da sua individualidade e, em muitos casos, o indivíduo ficaria feliz por se livrar de tais formas de neurodivergência. O paradigma da neurodiversidade não rejeita a patologização destas formas de neurodivergência, e o Movimento da Neurodiversidade não se opõe a tentativas consensuais de curá-las (mas ainda se opõe definitivamente à discriminação contra as pessoas que as têm). Assim, a neurodivergência não é intrinsecamente positiva ou negativa, desejável ou indesejável – tudo depende do tipo de neurodivergência de que se fala.
Neurodivergente não é sinônimo de autista. Existem inúmeras maneiras possíveis de ser neurodivergente e ser autista é apenas uma delas. Existem inúmeras maneiras de ser neurodivergente que não têm qualquer semelhança ou conexão com o autismo. Nunca, jamais use neurodivergente como eufemismo para autista. Se você quer dizer que alguém é autista, diga que é autista. Não é um palavrão.
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* Dr. Manuel Moreira da Silva é psicanalista, fundador e Coordenador Geral da Sociedade Brasileira de Daseinspsicanálise – Instituto de Daseinspsicanálise (SBDp-ID), professor do Departamento de Filosofia da Unicentro (Guarapuava) e pesquisador de Filosofia e Psicanálise. Contato: E-mail: manuelmoreira@efp-id.info; WhatsApp: 42 988084402.

