O paradigma da neurodiversidade e o sujeito neurodivergente

 Dr. Manuel Moreira da Silva*

 A Psicanálise da Neurodivergência se define como a psicanálise do modo de ser neurodivergente, isto é, do modo de ser próprio dos sujeitos neurodivergentes, à distinção dos neuroconvergentes, em rigor, no que tange à especificidade de sua demanda clínica. Quer dizer, a constituição subjetiva e, sobretudo, a capacidade de constituir e reconhecer essa demanda como a sua própria, distinta daquela dos neuroconvergentes, nos quadros do paradigma da neurodiversidade. Este que se mostra uma perspectiva específica sobre a neurodiversidade.

Tal perspectiva, conforme Nick Walker (em Neurodiversity: Some basic terms & definitions, de 2014), se resume a estes princípios fundamentais:

1.) A neurodiversidade é uma forma natural e valiosa de diversidade humana.

2.) A ideia de que existe um tipo “normal” ou “saudável” de cérebro ou mente, ou um estilo “correto” de funcionamento neurocognitivo, é uma ficção culturalmente construída, não mais válida (e não mais propícia a uma sociedade saudável, ou para o bem-estar geral da humanidade) do que a ideia de que existe uma etnia, gênero ou cultura “normal” ou “correta”.

3.) As dinâmicas sociais que se manifestam em relação à neurodiversidade são semelhantes às dinâmicas sociais que se manifestam em relação a outras formas de diversidade humana (por exemplo, diversidade de etnia, gênero ou cultura). Estas dinâmicas incluem a dinâmica das desigualdades de poder social, e também a dinâmica pela qual a diversidade, quando abraçada, atua como fonte de potencial criativo.

Para Judy Singer (em NeuroDiversity: The Birth of an Idea, 2016),

A ascensão da neurodiversidade leva a fragmentação pós-moderna um passo adiante. Tal como a era pós-moderna vê todas as crenças, outrora demasiado sólidas, derreterem-se no ar, mesmo as nossas suposições mais dadas como certas: que todos nós mais ou menos vemos, sentimos, tocamos, ouvimos, cheiramos e classificamos informações, em mais ou menos da mesma forma (a menos que estejam visivelmente desativados) estão sendo dissolvidos.

Nesse quadro emergem os sujeitos neurodivergentes. A saber, todas as pessoas que se reconhecem portadoras de um neurodesenvolvimento atípico, que não só apresentam alterações neurológicas em seu funcionamento psíquico, mas que também as assumem de um modo ou de outro, marcando assim a sua posição no mundo, em resposta àquilo que, desde a sua perspectiva, delas é esperado pela sociedade. Neste sentido, a neurodivergência pode ser dita o estado de ser neurodivergente ou o modo de ser próprio do sujeito neurodivergente.

Um indivíduo neurodivergente se constitui como sujeito na medida em que assume sua parcela de responsabilidade naquilo que fizeram dele, caso em que ou se submete à realidade do que ele se tornou, aceitando-a, ou enfrenta essa realidade de modo a transformá-la, dela se emancipando. Para saber mais, faça contato!

* Dr. Manuel Moreira da Silva é psicanalista, fundador e Coordenador Geral da Sociedade Brasileira de Daseinspsicanálise – Instituto de Daseinspsicanálise (SBDp-ID), professor do Departamento de Filosofia da Unicentro (Guarapuava) e pesquisador de Filosofia e Psicanálise. Contato: E-mail: manuelmoreira@efp-id.info; WhatsApp: 42 988084402.

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