Por Dominique Acirema S. de Oliveira 

Sento-me em frente a uma folha em branco e a observo. Um misto de pavor e alegria é inevitável. Em meu meio social, tentei alertar, mostrar e até desenhar o tamanho do risco que estamos vivendo. E o risco é exatamente esse: de apenas se sentar em frente a folha em branco e não ter o “direito” de escrever e nem mesmo “ler” o que desejarmos.

E isso traz mais alguns problemas: não ter acesso a fontes diversas e variadas de informação, depender única e exclusivamente da “grande mídia” como fonte de verdade, absoluta, única e diga-se de passagem: mutável.

Um outro misto de temor e satisfação que gostaria de compartilhar: em minhas andanças nunca tinha visto tamanha variedade de uma edição literária a qual teve seu primeiro lançamento da década de 40. E o que afinal os alhos tem a ver com os bugalhos?

A obra em questão é uma velha conhecida, um clássico, “1984” de George Orwell, publicado pela primeira vez em 1949. Trata de uma distopia sobre um mundo totalitário, uma sociedade que vive controlada ao seu extremo, vigiada pelo “grande irmão”, isso mesmo, “Big Brother”, coincidência?

Wiston, personagem o qual a trama se desenrola, é funcionário de um dos quatro ministérios a que foram reduzidos o governo: o da Verdade, da Paz, Fartura e do Amor. Há quem não gosta de uma teoria da conspiração. Perdoe-me a divagação. É mera coincidência! Mas vamos lá.

Vamos dar uma atençãozinha ao Ministério da Verdade, bem de leve, sabendo que isso é apenas coincidência. Esse ministério, na obra de Orwell, era “responsável por notícias, entretenimento, educação e belas-artes”.

Como nos conta Wiston, o ministério da verdade se ocupa com notícias, dentre outras “cositas”. “E se os fatos atestarem algo diferente, então é preciso alterar os fatos. Dessa forma, a história é constantemente reescrita. Essa falsificação diária do passado, levada a efeito pelo Ministério da Verdade, é tão necessária para a estabilidade do regime quanto o trabalho de repressão e espionagem realizado pelo Ministério do Amor. (Orwell, 1984).

Pois bem, vemos que o controle do que as pessoas leem, se informam, buscam, deve ser revisto, modificado e alterado, com o objetivo do bem estar do regime totalitário no poder. A ideia das alterações é fazer com que tudo, passado, presente e futuro, condiga com que o partido diz ser a verdade.

É notório que as informações passadas as pessoas eram embrulhadas no papel da verossimilhança, do respeito, da autoridade competente e do bem-estar social, porém os dados trazidos por esse ministério não eram de fato informações, mas ordens, mandos e resoluções, as quais objetivavam manter o controle sobre as pessoas através do medo e da desconfiança.

Uma das formas de realizar isso é a mudança do conteúdo das palavras. Alterar, renovar e dar novos significados a língua, essa técnica na obra de Orwell é chamada de “novilíngua”, mas deixemos essa outra coincidência para a próxima meus “amigues”.

Caro leitor, espero que nessa altura do campeonato tenha compreendido a finalidade desse importante ministério na obra de Orwell, e esteja se perguntando: – E daí? Isso é apenas uma distopia, escrita em outra época, temos todos os meios de informações hoje disponíveis, posso comparar, ler, reler, ver imagens na internet, assistir vídeos no youtube, etc, etc, etc…

Lembra do medo no início dessa “escrivinhada”? Então, será que ficção poderia se tornar realidade? Isso porque vemos publicado em meios oficiais uma certa semelhança entre o mundo distópico de Orwell e nosso amado Brasil.

Vamos dar um confere mais de perto nessa teoria da conspiração. Na data de 30 de agosto foi publicado a criação de um tipo de “ministério da verdade”, vejamos: “Art. 1º Fica instituído o Programa de Combate à Desinformação (PCD) no Supremo Tribunal Federal (STF), com a finalidade de enfrentar os efeitos negativos provocados pela desinformação e pelas narrativas odiosas à imagem e à credibilidade da Instituição (grifei), de seus membros e do Poder Judiciário, a partir de estratégias proporcionais e democráticas, a fim de manter a proteção da Corte acerca das liberdades de comunicação.”

Olha só que coincidência! E mais: “II – ações de comunicação, com as seguintes as ações: a) alfabetização midiática (grifei): capacitação de servidores, funcionários terceirizados, jornalistas profissionais (grifei) e influenciadores digitais (grifei) para a identificação de práticas de desinformação (grifei) e discursos de ódio e as formas de atuação para combatê-las;”

Está aí, “alfabetização midiática”, nomes pomposos e com estilo juridiquês passa um apelo a falácia de autoridade e da nossa humilde ignorância, esfrega em nossa cara nossa incapacidade de buscar por si a “informação certa”. Desinformação, aham, sei.

Acabo de me recordar de uma frase atribuída ao filósofo Voltaire que parece calhar com o caso: “Para saber quem controla sua vida descubra quem você não tem permissão para criticar.”

Portanto feliz, sim, me sentei e venci a mera contemplação dessa folha em branco e sei que devo tal vitória a nossa desdenhada Constituição (mas ainda pulsante) que me garante: “é livre a manifestação do pensamento”, e desejoso que estas coincidências não passem disso.

Referência –

http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/DJE172.pdf

https://www.stf.jus.br/arquivo/djEletronico/DJE_20210827_172.pdf


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