ENTRE A BODEGA E A GROTA # 001

Era sábado e, como de costume, seu Tibúrcio encilhou sua égua baia para ir até a vila para comprar uma e outra coisinha, entre elas, uns pacotinhos de fumo amarelo e umas garrafas de branquinha, para ele e sua senhora desfrutarem ao fim das tardes de lavoro, sentados na varanda de seu rancho, ainda sem se banhar, de frente para o açude, admirando a belezura do findar do dia.

No trote calmo e compassado da sua velha companheira, Índia era o nome da égua, seguia ele seu caminho até o vilarejo de Lalalândia. Sim, ele tinha um bom possante, mas não gostava de usá-lo no dia em que tirava para ir até a venda e para passear. Preferia o passo lento de sua égua, para apreciar a paisagem e degustar o vagar do tempo, coisa que o corrimaço dos cavalos de força do motor do seu corsa não lhe permitia. Com o possante, o que era para ser um passeio transformava-se num mero translado.

Um tanto da jornada era feito em acidentadas estradas de chão; outra porção num eito mais ou menos cascalhado. Mas ele não é de reclamar, apesar de ter motivos de sobra para tanto.

Dizia ele que não gostava de ficar de birra, porém, uma vez a cada morte de bispo, o homem soltava o verbo dum jeito que fazia aqueles que estivem por perto arregalar os zóios; uns por medo, outros de raiva. Mas ele não estava nem aí. Não guardava ressentimento. Espalhava tudo pra secar e morrer com o calor do sol.

Seu Tibúrcio é assim mesmo. Com ele não há mornidão. É mais ou menos assim: ou o amam com seu jeitão, ou o odeiam pela mesma razão. Uma coisa era certa: não tinha – e não têm – como ficarmos indiferentes frente ao velho galderio.

De mais a mais, como ele costuma dizer, não esperava nada que prestasse da camarilha que apenas se lembra dele – e do tal do povo – quando o que está em jogo são os seus cargos de poder e os benefícios que eles derramam sobre os seus apaniguados.

Bem, no trote de sua égua seguia no nosso amigo, rumo a sua venda preferida, que ficava nos fundos da rua dos velhacos.

É claro, pensava o velho, que essa raça de víboras irá vir em breve, mais uma vez, com aquela conversa melosa e cativante de que o que está em jogo é a sorte do povo, das pessoas do bem e dos homens de bem, e que eles ali estão para mover mundos e fundos para salvar o nosso couro dos gaviões, mas que, no frigir dos ovos, todos sabem muitíssimo bem que as únicas cartas que realmente estão na mesa são aquelas que lhes interessam e estas, referem-se sempre, a manutenção da sua pose do “otoridade” e as sinecuras de seus bajuladores.

Aliás, que triste deve ser essa vida. Só por Deus mesmo. Tanto daqueles que vivem da pose de “otoridade” quanto dos que tiram o seu sustento servindo de capacho destes. Triste porque tudo é fingimento. Tudo é uma farsa mal encenada e que, praticamente, não convence ninguém. Fingem estar profundamente preocupados com o futuro das gentes quando, na verdade, eles estão tão somente preocupados com o seu futuro e da sua gente. Na verdade essas tristes coisas lembram-me muito, pensa o velho, aqueles causos que minha filha Yolanda me contava dum livro, cujo o título não lembro, dum tal de Lima Barreto.

Tibúrcio se aproxima do riacho das cotovias e vê que a ponte foi arrumada. Acariciou de leve o pescoço de sua égua e disse, em alto e bom tom: “viu só Índia velha! Foi só a gente se loquia no tal do facebook que os hominhos resolveram o problema bem rapidinho”. A bichinha rinchou efusivamente como se estive respondendo o velho com uma gostosa gargalhada.

Seguindo em frente, seu Tibúrcio continuou a matutar com seus botões: mas é o Benedito mesmo. O fingimento é realmente a grande praga dessa nossa terra, porque não apenas as “otoridades” e os capachos de carreira vivem numa dissimulação só. Nós também. O tal do povo não é santo não. Aliás, estamos bem longe disso, não é mesmo Índia?

Tenho muito amigo que fica ansioso para que chegue logo a dita cuja da “época da política”. Uns porque gostam de ver o fervo e fazer parte dele. Parecem moleques quando chega um parquinho na vila. Para muitos essa é uma diversão, a maior diversão de suas miseráveis vidas. Outros aguardam ansiosos para, como dizem, morder os candidatos. Beliscar uns trocados dum aqui, outros caraminguás doutro lá, um favor aqui, uns litros de gasolina acolá e, ao final, poder folgar um pouco a minguada guaiaca.

Seja como for, no fundo, ninguém leva a sério esse trem fuçado. Pra ser bem sincero, é difícil por demais levar essa tranqueira com alguma seriedade, principalmente por causa desse clima fingido que impera em nosso rincão e em nossos corações.

As “otoridades” fingem que se preocupam com a sorte de todos, nós fingimos que nos importamos com os rumos de nossa comunidade e, desse jeitão, cada um permanece nos limites das cercanias de seus umbigos, fingindo ser esse trambolho que os diplomados engomadinhos da cidade chamam de cidadão.

No fundo ninguém vale a farinha que come nesses pampas, pensava ele, ninguém. E eu valho menos que todos.

Tibúrcio levanta a aba de seu chapéu e avista a imagem da bodega de seu Belmiro, seu velho e grande amigo. Aquele velho casarão de maneira azul já foi cenário de grandes encontros e de excelentes conversas. Uma casa que nasceu pequena e que, com o tempo, conforme o dinheiro sobrava, era aumentada de emenda em emenda, que eram feitas pelo próprio proprietário, seu Belmiro, que, com o passar dos anos, acabou se tornando uma senhora duma casa.

O índio velho amarrou a Índia velha junto à sombra dum pé de sinamão, que ficava em frente à bodega. Belmiro, com sua barriga saliente, saiu na porta, com as mãos nos bolsos e um sorriso sem vergonha no rosto, dizendo: “Buenas xiru velho! Há quanto tempo não te vejo seu pulguento?” “Menos do que eu gostaria turco velho. Ninguém merece ter que ver essa sua cara feia só pra comprar um tanto de canha e fumo”. Os dois riram. Apertaram-se as mãos, deram-se aquele quebra-costela bem apertado e Belmiro disse: “Chegue Tibúrcio! A mesa de sinuca está te esperando para que eu te dê mais uma surra”.

Tibúrcio riu, entrou e se atracou no jogo. Ele gostava muito de ouvir as palestras de Belmiro enquanto jogava e este, tinha em elevada conta os conselhos e opiniões de seu amigo de longa data.

Ou seja: nesse dia, como em muitos outros, a prosa ia começar sem ter hora pra acabar. Tomara que dona Marialva não fique brava com seu Tibúrcio se ele tardar em voltar pra casa.

Escrevinhado em 21 de outubro de 2019, por Dartagnan da Silva Zanela, diretamente do Fundo da Grota: http://zanela.blogspot.com

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