Francisco Carlos Caldas

Uma coisa que marcou a minha infância foi ver crianças, jovens e adultos ganhando dinheirinho e pão de cada dia, engraxando sapatos com uma caixinha que carregavam nos ombros.

            Hoje a gente não vê mais isso, e mesmo nossos calçados ficam não sei de que jeito por falta de manutenções e quando perdem vigor são descartados.

            Dia 24/04/21, amanheci pensando nisso. E passei uma água  e escova num sapato, e fui atrás de apetrechos para dar um trato no pisante. E encontrei um montão de tubos e latinhas de graxa empoeirados num canto, e ao dar um trato no pisante, fiquei matutando sobre isso.

            Dia desses ouvimos na TV a história de um rapaz pobre que se tornou advogado engraxando sapatos de advogados, autoridades e funcionários do Judiciário de um Estado.

            As páginas mais bonitas do meu currículo, não foram e não são os 3 cursos superiores feitos (direito, história e administração pública); 4 mandatos eletivos, mas sim as agruras, privações sofridas para poder estudar. Vendi alguns picolés por uns dias, com um carrinho e não caixinha de isopor na segunda metade da década de 1960, meia jornada no comércio dos 9 aos 12 anos,  mas há uma lacuna nessa caminhada. Nunca atuei de engraxate. E até tinha alguns preconceitos, e uns até eram um tanto insistentes e chateavam a gente.

            Gostaria de ver quem em Pinhão, tem guardado um daquelas caixinhas de madeiras de engraxar sapatos.

            Como o mundo mudou e as coisas estão mudando. E depois dessa pandemia, muitas coisas não vão mais ser como era antes.

            E os nossos calçados, como estamos os tratando? E as havaianas e seus pregos nas tiras? As tachinhas nos solados; as meias-solas? Calçado era muito caro antigamente, ou nossos pais não tinham dinheiro? Quando criança usei alpargata Roda, kets, e kichute foi avanço top. Na década de 1960, muitos calcanhares rachados, e se sofria muito com pulgas e bichos de pé como diziam e que geravam coceiras.

            Este pensante é do tempo que aqui muitas crianças andavam descalços (pé-no-chão). Criança quase não dava despesa. Com pouco se vivia. Hoje, até na pobreza, se tem mais comodidades, mas o preço disso está muito caro: uma geração muita consumista e apegada a facilidades, moleza, de muitos vícios, que não sabem dar valor as coisas e distinguir o essencial, e não está nada fácil lidar com essa gente. Um mais complicado  e problemático que o outro!  Está muito difícil, conciliar tolerância, paciência com as necessidades de eficácia e eficiência que todos os setores necessitam. Muitos projetos e ideias interessantes fracassam por falta de inteligência social, de capacidade de envolvimento em  ações operacionais e resultados.

Voltando ao foco, registramos aqui que temos muitas  história de sapatos, que resumimos algumas:  uma é de um de borracha que eu tinha; depois de atuar como trave de pelada no campinho em frente da hoje Escola Expressão, levai mais de mês para lembrar que havia esquecido lá. Outra vez, no segundo ano primário (1964), a saudosa professora Judith Rocha Bueno, queria que fossemos calçados para escola, e eu como não tinha calçado e para não perder recreio, achei um par de sapato velho jogado nos fundos da casa do seu Evandro de Almeida, também de saudosa memória, e usei algumas vezes para não perder o recreio.

E deixava o sapato num baldrame do assoalho da escola. Outra, em 1970 quando deixei de estudar no Colégio Agrícola para ir em 1971 para a Escola Santa Cruz onde é hoje a sede da UNICENTRO, por erros em documento de transferência tive que fazer várias idas e vindas de um Colégio ao outro, bem distante,  e tinha um desgraçado de um sapato que quase me deixou aleijado do garrão. Depois da peripécia joguei o mesmo, que nunca mereceu graxa ou pasta. Levei anos para me livrar da sequela.

Outra história: uma cozinheira do Colégio Agrícola, um dia vendo o estado deplorável do meu sapato (sem graxa e brilho há muito tempo), contou uma história de que moças para escolher namorado, noivo e casar, a primeira coisa que observavam era  brilho do calçado do pretendente. Preciosa lição que nunca levei a sério, mas que tinha e tem sentido.

A presente abordagem também remeteu a nossa memória a uma crônica sobre Realismo de contacto em 1974 quando cursamos o 3º. ano colegial no Colégio Estadual Manoel Ribas de Guarapuava. CrônicaUm par de botas” de Machado de Assis, que nos marcou e impactou para o resto da vida, e de profundas reflexões sobre felicidade.

Para encerrar o enfoque, uma dica, sapatos/calçados esgualepados ou não, cheirosos ou chulezentos, é salutar que tenhamos e desenvolvamos o hábito de não entrarmos em casa, com os que andamos fora e pelas ruas.

             Francisco Carlos Caldas, advogado,   municipalista e cidadão.

  E-mail  “advogadofrancal@yahoo.com.br”

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