Foto: Paulo Lanzetta

Fenômeno climático tem até 99% de probabilidade de permanecer ativo até o início de 2027; nota técnica reúne recomendações para reduzir riscos na agricultura e pecuária

Redação Portal Fatos do Iguaçu


A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) divulgou uma nota técnica com orientações para que produtores rurais da Região Sul do Brasil se preparem para os impactos do fenômeno climático El Niño, cuja permanência tem probabilidade estimada entre 97% e 99% até o início de 2027. O documento reúne recomendações para reduzir prejuízos provocados pelo excesso de chuvas, aumento da incidência de doenças nas lavouras e outros efeitos esperados sobre diferentes cadeias produtivas.

O material foi elaborado em conjunto por sete unidades da Embrapa — Clima Temperado (RS), Florestas (PR), Pecuária Sul (RS), Soja (PR), Suínos e Aves (SC), Trigo (RS) e Uva e Vinho (RS) — integrantes da Plataforma Colaborativa para Mitigação de Efeitos Climáticos Adversos na Agropecuária da Região Sul do Brasil.

Segundo informações da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), há ainda 63% de probabilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Para os estados do Sul, a expectativa é de chuvas acima da média, maior nebulosidade e temperaturas mais elevadas durante o inverno, cenário que exige atenção dos produtores.

Planejamento reduz prejuízos

Para a Embrapa, o momento é de planejamento, e não de alarmismo.

O pesquisador e agrometeorologista da Embrapa Trigo, Gilberto Cunha, afirma que o conhecimento científico acumulado ao longo das últimas décadas permite que agricultores e técnicos adotem medidas preventivas para minimizar perdas.

“Hoje sabemos muito mais sobre o El Niño do que sabíamos na década de 1980. O desafio não é prever o fenômeno, mas transformar esse conhecimento em decisões no campo”, destaca o pesquisador.

Segundo ele, embora exista incerteza natural nos fenômenos climáticos, isso não deve impedir a adoção de estratégias de gestão de riscos baseadas em informações técnicas e monitoramento constante.

Cunha ressalta ainda que o El Niño não representa, necessariamente, apenas prejuízos.

“Os impactos do El Niño não são inevitáveis. O conhecimento acumulado sobre eventos anteriores permite reduzir riscos e, em alguns casos, até aproveitar condições ambientais favoráveis para determinadas culturas.”

Seguro rural e Zoneamento Agrícola são fundamentais

Entre as principais recomendações apresentadas pela Embrapa estão:

  • respeito ao Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc);
  • acompanhamento permanente das previsões meteorológicas oficiais;
  • planejamento dos investimentos conforme o cenário climático;
  • contratação de seguro rural;
  • adequação das expectativas de produtividade às condições previstas.

A orientação é que produtores evitem decisões baseadas em cenários extremamente otimistas e ajustem o uso de insumos ao potencial produtivo esperado para anos de El Niño.

Recomendações específicas para cada cultura

A nota técnica apresenta estratégias direcionadas para diferentes sistemas de produção.

Para os cereais de inverno, como trigo, cevada e aveia, a prioridade deve ser o controle preventivo de doenças, o manejo adequado da adubação e o planejamento da colheita.

Nas lavouras de soja, milho e arroz irrigado, a Embrapa recomenda atenção especial à drenagem das áreas cultivadas, proteção do solo contra erosão e monitoramento fitossanitário mais frequente, reduzindo perdas decorrentes do excesso de umidade.

Já na fruticultura, culturas como videira, macieira, pessegueiro, oliveira e nogueira-pecã exigem cuidados adicionais com drenagem, conservação do solo e controle de doenças favorecidas pela alta umidade.

O pesquisador Alex Mayer, da Embrapa Clima Temperado, explica que os pomares estão entre os sistemas agrícolas mais sensíveis aos efeitos do El Niño.

“Além do encharcamento do solo, que pode comprometer o sistema radicular e levar à morte das plantas, também podem ocorrer perdas provocadas por ventos intensos, granizo e erosão, prejudicando pomares, estruturas de cultivo e a produtividade.”

Conservação do solo e sistemas mais resilientes

A publicação também propõe medidas voltadas ao planejamento ambiental das propriedades rurais.

Entre elas estão:

  • conservação do solo;
  • recuperação de microbacias hidrográficas;
  • fortalecimento da infraestrutura natural;
  • adoção de Sistemas Agroflorestais (SAFs);
  • expansão da Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF).

Segundo os pesquisadores, essas práticas aumentam a capacidade das propriedades rurais de enfrentar eventos climáticos extremos.

Tecnologia e informação como aliadas

Outro ponto enfatizado pela Embrapa é a necessidade de ampliar a transferência de tecnologia para o campo.

A Plataforma Colaborativa prevê ações de capacitação de profissionais da assistência técnica, produção de conteúdos digitais e desenvolvimento de ferramentas que facilitem o acesso dos produtores às informações climáticas e às recomendações técnicas.

Para o pesquisador José Reinaldo Moraes, da Embrapa Clima Temperado, o principal objetivo é preparar os agricultores para um cenário previsível.

“O El Niño exige atenção, mas não é sinônimo de prejuízo garantido. Trata-se de uma mudança no padrão de risco que pode ser enfrentada com planejamento antecipado, boas práticas agrícolas e acesso à informação técnica qualificada.”

Atenção permanente

Os pesquisadores reforçam que as experiências obtidas em eventos anteriores devem servir de aprendizado para o futuro.

A recomendação é que produtores mantenham estado permanente de vigilância, acompanhem as previsões meteorológicas oficiais e adotem práticas preventivas capazes de reduzir perdas econômicas e aumentar a resiliência das propriedades.

Para regiões agrícolas como o Centro-Sul do Paraná, onde culturas como soja, milho, trigo, hortaliças, fruticultura e pecuária possuem forte importância econômica, o documento representa uma ferramenta importante para orientar decisões nos próximos meses.

A principal mensagem da Embrapa é clara: o El Niño é um fenômeno previsível e seus impactos podem ser significativamente reduzidos quando planejamento, ciência e gestão caminham juntos.

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