Foto: Arquivo/Pessoal
Do balcão da farmácia à inspiração para a filha futura médica, Edson Meira conta como sua trajetória ajudou a transformar vidas, fortalecer a comunidade e revelar o verdadeiro espírito do Pinhão.

Tem semente que não encontra o solo logo de início: rola um pouco aqui, outro ali, até achar a terra certa, firme e acolhedora. Quando isso acontece, finca raízes, vira árvore frondosa e acaba dando muitos frutos. Assim é a história do farmacêutico Edson Meira, o “Edson da Farmácia”, filho de Antônio Rodrigues de Meira e de Lindamir Aparecida Meira. Nascido na comunidade de Santa Terezinha, interior de Pinhão, aprendeu cedo o valor do trabalho, ajudando a mãe na indústria Zattar – onde ele próprio também viria a trabalhar. Mas foi a vinda para a sede do município, para estudar, que mudou o rumo da sua vida.
Da serraria ao balcão de farmácia
Edson cresceu num mundo marcado pelo movimento intenso da serraria, do armazém cheio, da escola na própria comunidade. “A gente saía pouco de lá, tinha quase tudo em Santa Terezinha”, lembra. As idas à “cidade” eram para médico, compras mais específicas e, na memória, o Pinhão ainda tinha ruas de chão, lajotas irregulares e um ritmo bem mais tranquilo.
Foi na escola, porém, que a semente do futuro farmacêutico começou a germinar. O professor de Educação Física, Jacir Thadeu Ferreira Dellê , que também era proprietário de farmácia, enxergou no jovem da comunidade de Santa Terezinha um atendente em potencial. “Ele me chamava de Meira e perguntou se eu não queria trabalhar com ele. Eu pensei: ‘não sei nem entrar numa farmácia’. Mas ele insistiu, disse que me ajudava, e eu topei”, recorda Edson.
Ainda adolescente, Edson passou a viver o dia a dia atrás do balcão, na farmácia que tinha como referência o João Luiz Ribas. Ali, aprendeu observando, lendo bulas, perguntando, decorando nomes de medicamentos. Foram quase 20 anos como atendente e balconista, até que a prática acumulada encontrou o conhecimento acadêmico: Edson formou-se farmacêutico e hoje soma perto de 30 anos dedicados à área.
Edson da Farmácia: profissão, vocação e política
Com o tempo, a farmácia deixou de ser apenas local de trabalho e passou a ser extensão da casa e da vida de Edson. Ele ganhou um sobrenome afetivo – “da Farmácia” – e um carinho que se traduz em confiança: “o doutorzinho” que muita gente preferia procurar antes mesmo de ir ao médico.
“Farmácia não é só comércio de remédio, é unidade de saúde”, resume. Por isso, gostar de gente virou condição básica. Do balcão, nasceu também a vocação para a política: “Fui eleito praticamente atrás do balcão”, brinca. Na primeira eleição, fez votos em todas as urnas do município, tornou-se vereador, presidiu a Câmara por dois mandatos e foi o primeiro secretário municipal de Indústria e Comércio.
As viagens às comunidades, o contato direto com a população e a preocupação em orientar quem o procurava consolidaram a imagem de um político que sabe ouvir. Hoje, Edson diz ter colocado um ponto final na vida partidária, mas não esconde: “Quando chega a época de eleição, ainda fico meio assanhado”. Apesar disso, sente que já deu sua contribuição: “A política é um instrumento importante, mas agora minha missão é continuar servindo como farmacêutico”.
A filha que virou semente de futuro na saúde

A rotina de portas sempre abertas, gente batendo de madrugada em busca de ajuda, receitas, orientações e lenço amigo também marcou profundamente a filha caçula, Maria Vitória Mendes Meira, hoje com 22 anos e acadêmica de Medicina.
“Desde criança eu dizia que queria ser médica. Via as pessoas procurando o pai em casa, muitas vezes de madrugada, e aquilo não me assustava, pelo contrário, fez eu gostar ainda mais da área da saúde”, conta. Depois do ensino médio, trabalhou na farmácia e também no posto de saúde, como estagiária da prefeitura, experiência que confirmou sua escolha.
Morando em Guarapuava para estudar, ela admite a saudade de Pinhão e já desenha o futuro de volta ao “ninho”: “O Pinhão tem uma demanda muito grande na área da saúde. Eu gostaria de contribuir com isso. Meu plano é voltar e trabalhar aqui”.
Um olhar atento para Pinhão e seus desafios
Acompanhando a trajetória política e comunitária do pai, Maria Vitória desenvolveu um olhar crítico e ao mesmo tempo apaixonado pela cidade. Ela reconhece os avanços: pavimentação, crescimento do comércio, chegada de redes de farmácia, supermercados e lojas. Mas aponta carências claras: falta lazer, cultura, cinema, espaços que estimulem arte e convivência; e ainda é preciso fortalecer a estrutura de saúde para evitar tantas viagens a outras cidades.
Edson, que viu o Pinhão ser chamado de “vila” e se transformar em município estruturado, também enxerga uma boa caminhada feita em 61 anos, com prefeitos e lideranças que ajudaram a abrir caminhos. Lembra com carinho do professor Mario Evaldo como ícone das lutas antigas. Mas insiste: é preciso ir além.
Ele defende com convicção que o turismo e o empreendedorismo local são chaves para o futuro. Recorda uma viagem, quando era secretário, a um encontro com empresários em Barracão, na divisa com a Argentina, para apresentar o potencial de Pinhão – cachoeiras, lagos, florestas. “Um empresário disse que nosso município era lindo pelo que eu mostrei. Turismo pode ser um caminho importante para gerar renda e segurar nossos jovens aqui”, projeta.
Povo hospitaleiro e juventude protagonista

Atendendo há três décadas, Edson garante que o Pinhãoense mudou, mas manteve a essência: continua gostando do bate-papo, da prosa, da atenção olho no olho. A tecnologia trouxe agilidade e informação até as comunidades mais distantes, mas não apagou a hospitalidade e a simpatia.
Para os 61 anos de Pinhão, tanto o pai quanto a filha deixam um recado especial à juventude. Maria Vitória reforça o otimismo: “Pinhão tem grande potencial e nós, jovens, temos capacidade de mudar muita coisa, participar da política, do mundo do trabalho, trazer cultura, lazer, inovação. Sou muito feliz por ser Pinhãoense”.
Edson completa com o olhar de quem viu gerações nascerem, crescerem e passarem pelo balcão da farmácia: “O povo do Pinhão é trabalhador, honesto, carismático. Acorda cedo, volta tarde, luta todo dia. Todos nós fazemos parte dessa história. Eu acredito no Pinhãoense e na força dessa cidade. Ainda temos muito a conquistar – e é justamente por isso que vale a pena continuar acreditando e cuidando dela, como quem cuida de uma semente que nunca para de brotar.”
Reportagem publicada originalmente na edição impressa comemorativa aos 61 anos de emancipação política do município de Pinhão – PR.


