Foto: reprodução do documentário
Redação Portal Fatos do Iguaçu
Um documentário com 1 hora e 18 minutos de duração, lançado no canal do YouTube Caminhos do Insólito, trouxe novamente à tona uma das histórias mais fantásticas, controversas e misteriosas do interior do Paraná. A produção aborda a trajetória da fábrica de celulose e papel Lutcher, idealizada na década de 1960 na então região de Segredo — atual município de Foz do Jordão — por um empresário norte-americano identificado como Frederick Lutcher Brow Wells.
A obra convida o público a uma verdadeira jornada histórica, desde a implantação do empreendimento em meio à selva paranaense, passando pela construção de uma cidade planejada, até os enigmas e suspeitas que cercaram a fábrica e que, segundo relatos, permanecem sem respostas definitivas até os dias atuais. O documentário foi indicado em duas categorias no 1º Festival de Cinema Paranaense Curucaca: Melhor Roteiro Documental e Melhor Montagem, reconhecimento que reforça a relevância cultural do trabalho.
Da lenda ao território chamado Segredo
Antes mesmo da chegada da fábrica, a região já era cercada por histórias lendárias. Conforme relatos preservados na memória local, o nome Segredo teria surgido a partir de uma lenda envolvendo jesuítas expulsos do Brasil em 1759, durante o reinado de Dom José I, por ordem do Marquês de Pombal. Segundo a narrativa popular, os religiosos teriam deixado a área de forma discreta, escondendo um gigantesco caixão repleto de ouro no leito do rio Jordão, próximo ao ponto onde ele deságua no rio Iguaçu.
A lenda sustenta que o caixão só poderia ser visto em noites de lua cheia e que qualquer pessoa que tentasse recuperá-lo seria amaldiçoada, sendo libertada apenas se distribuísse todo o ouro a outras pessoas, sem guardar nada para si. Embora sem comprovação histórica, esse imaginário ajudou a moldar a identidade simbólica da localidade.
A chegada da fábrica Lutcher
Foi nesse território marcado por lendas que, décadas depois, surgiu um projeto industrial considerado audacioso para a época. Após estudos realizados na década de 1950, Frederick Lutcher Brow Wells decidiu instalar uma fábrica de celulose e papel na Fazenda Coqueiro, então distrito de Paz, pertencente ao município de Guarapuava.
De acordo com registros e relatos apresentados no documentário, o empreendimento recebeu um financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento, em 1961, no valor de 4,7 milhões de dólares, a ser liberado em parcelas. O investimento chamou atenção por envolver um empresário estrangeiro, milionário, em uma região ainda isolada e com pouca infraestrutura.
Uma cidade no meio da mata
Mais do que uma fábrica, o projeto deu origem a uma verdadeira cidade planejada. Segundo depoimentos de ex-moradores e trabalhadores, foram construídas cerca de 300 casas para operários, além de residências destinadas a chefes de setor e diretores estrangeiros, conhecidas como a “Casa dos Seis”.
A vila contava com energia elétrica própria, sistema de abastecimento e tratamento de água, supermercado com carrinhos, farmácia, hotéis, restaurante, campo de futebol, igreja e um cinema com exibições diárias e gratuitas — algo incomum para o interior do Paraná nos anos 1960. O conjunto urbano passou a ser visto como um símbolo de modernidade em meio à floresta.
Boatos, segurança e mistérios
Com o crescimento acelerado e a movimentação intensa de pessoas e equipamentos, começaram a surgir boatos e desconfianças. Relatos falam de segurança rígida, áreas de acesso restrito, túneis subterrâneos, uso de explosivos, desvios temporários de cursos d’água e transporte de cargas envoltas em sigilo.
Esses elementos alimentaram especulações sobre uma suposta mineração clandestina de minerais estratégicos, como urânio e ouro, que estariam sendo ocultados sob a fachada da produção de papel. A própria transcrição do documentário menciona que tais histórias ganharam força diante da falta de informações claras à população local e do clima de segredo imposto pela empresa.
Investigações e versões oficiais
Segundo o documentário, o caso chegou a mobilizar órgãos federais, incluindo o Exército Brasileiro e o Ministério de Minas e Energia, que realizaram investigações na região. Testes com equipamentos como contadores Geiger teriam sido feitos para verificar a presença de radioatividade.
Análises mais recentes, citadas na produção, indicam que os níveis encontrados no solo e nos sedimentos da região são compatíveis com a radioatividade natural presente em áreas de floresta e preservação, sem indícios de anomalias. Ao final das apurações da época, as investigações teriam sido arquivadas, muitas delas sob classificação de sigilo, e a versão oficial apontou que a fábrica produzia apenas papel de alta qualidade.
O fim do projeto e o que restou
Com a não liberação de parcelas finais do financiamento e o acúmulo de problemas financeiros, a fábrica encerrou as atividades em 1966. A vila foi gradualmente desmantelada e parte das estruturas reaproveitadas em outras construções da região. O que restou foram o prédio da antiga fábrica, a pequena usina hidrelétrica e algumas poucas casas, hoje cercadas pela vegetação.
Atualmente, a geração de energia no local é mantida pela empresa Rio Jordão Papéis, ligada ao grupo Trombini S.A.. A antiga região de Segredo tornou-se oficialmente o município de Foz do Jordão, emancipado em 1997.
Memória e legado
Entre fatos documentados, depoimentos pessoais e narrativas lendárias, a história da fábrica Lutcher permanece viva na memória coletiva. Para muitos moradores, aquele período representou um salto no tempo, quando uma comunidade rural experimentou, ainda que por poucos anos, um modelo de vida inspirado em padrões industriais e urbanos pouco comuns no interior brasileiro da época.
O documentário Caminhos do Insólito reforça esse legado ao registrar relatos, imagens e memórias que ajudam a preservar um capítulo singular da história paranaense — um episódio em que progresso, mistério e imaginação caminharam lado a lado, deixando marcas que ainda despertam curiosidade décadas depois.
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