Foto: reprodução

COXINHA É TUDO DE BOM

Fim de tarde em Lalalândia. Seu Timbaúba estava voltando para sua casa, que fica na beira do perímetro urbano. Ou seria nos limites da zona rural? Bem, o velho sempre diz que ele vive no limbo.

Mas antes de rumar para seu rancho, resolveu parar na panificadora da Nhá Chica pra dar uma beiçada numa boa xícara de café e comer uma daquelas misturas que só tem em padaria.

Faceiro da vida, sentou-se numa mesinha que fica do lado de fora do estabelecimento, junto a uma parede delicadamente grafitada.

Uma moça, muito gentilmente, foi até ele.

“Boa tarde seu Timbaúba”. “Boa tarde menina”. “E o que vai ser para o senhor”? “Qualquer coisa que não me custe um rim”. A moça, discretamente, riu. “Veja para mim uma xícara, mas uma xícara daquelas, de café, uma coxinha de galinha e um bolinho de carne”. “Tudo bem, já trago para o senhor”.

Enquanto a senhoria Florbela foi providenciar o pedido, nosso amigo tirou do bolso seu aparelho celular. Deu uma olhada rápida nas mensagens que estavam apitando no whatsapp e, rapidinho, abriu o seu leitor de e-book.

É, seu Timba não é fraco não. Sempre gostou muito de ler. Sempre está com um livro na mão. Se ele tiver que parar em algum lugar ou ter de enfrentar alguma fila, ele puxa o bicho velho para prosear com o autor, com suas personagens, ideias e opiniões.

Faz algum tempo que ele utiliza o leitor de e-book e, ao contrário de muitos, ele até que gosta de deitar as vistas na tela luminosa. Diz ele que quando está lendo um livro, de papel, as pessoas sempre o interrompem imaginando que ele esteja aborrecido ou fazendo algo de pouca importante. Agora, com o celular, são outros quinhentos. Ninguém o interrompe porque, segundo ele, as pessoas devem imaginar que estou tão infeliz quanto elas ou fazendo algo profundamente inútil com meu tempo, como elas geralmente fazem com o seu.

Passado alguns minutinhos, a gentil atendente voltou com o pedido do velho. Ele sorriu feito criança em festa de aniversário. “Bah! Muito obrigado menina. Deus a abençoe”. “Amém. E obrigado nada, está aqui sua conta seu Timbaúba”. Ele riu, bem alto, ao ponto de a guria levar um susto. Tadinha. “É isso aí. Gostei de ver. É assim mesmo que se faz Florbela”.

Quando estava na metade do caminho de regresso ao balcão, resolveu voltar até a mesa do simpático senhorzinho, tendo em vista que não tinha movimento naquele momento na casa de gostosuras.

Ela se aproximou da mesa e disse: “Posso me sentar um pouquinho com o senhor”? “Claro menina, sua companhia muito me alegra”. “Eu queria fazer uma perguntinha pro senhor”. “Diga. Não faça cerimônia”. “Em quem o senhor vai votar para prefeito? No Tibiriçá, no Pafúncio, no Cana Brava ou no Fugimo Nacombi?”

Seu Timbaúba deu uma mordida na coxinha, mastigou lentamente o salgadinho, tomou um talagaço de café e disse: “Por que você está me perguntando isso Florbela”? “É que o senhor é um homem vivido, já acompanhou tantas eleições e sempre o vejo dando uns bons conselhos aí para essa piazado do Saci e, por isso, resolvi perguntar. Mas se o senhor não quiser dizer nada, não tem problema não”.

“Não, não. Nada disso. Te respondo sim. Se eu respondo as perguntas dessa piazada virada no tocha, porque não haveria de responder a sua pergunta, não é mesmo”? A menina arregalou os olhos e ficou prestando atenção. “Veja, antes de perguntarmos para alguém, ou para nós mesmos, em quem pretendemos votar, eu acho interessante que nós procuremos indagar outra coisa”. “O quê”? “Como que as alianças políticas que se formaram nesse pleito eleitoral foram forjadas? O que foi acertado e de que maneira isso foi feito”.

A menina ficou pensativa, colocando seu queixo sobre a palma da sua mão e, atenta, continuou a ouvir a palestra de seu Timbaúba.

“Todos nós nos perguntamos, em todo ano eleitoral, como pode Fulano e Beltrano, que se odiavam de morte na última disputa política, estejam hoje trocando beijos e juras de amor”. “Verdade”. “Você já parou pra imaginar como é uma reunião política?” “Pior que não”.

O velhinho deu mais uma mordida na coxinha, tomou um gole de café, e voltou ao ponto do conto.

“Essas reuniões devem ser parecidas com uma reunião de demônios no inferno”. “Credo seu Timbaúba”! O velho riu enquanto a menina fazia o sinal da cruz. “Calma menina. Calma. Já explico”. “Então diga”. “Os demônios, por sua própria natureza, se odeiam mutuamente. São uma casa dividida. Mas eles se reúnem e firmam pactos entre eles para fazer o mal. E mesmo estando aliados em torno de uma causa diabólica comum, todos eles se odeiam e mal podem esperar para passar a perna um no outro. No meio político, infelizmente, não é muito diferente”.

“Caramba! Nunca tinha pensado dessa forma”. “Pois é. Então calcule o tamanho da falsidade, da malícia, da dissimulação que há nesse meio. Qualquer coisa acertada desse jeito, minha filha, tem praticamente tudo para não dar certo”. “Que coisa”. “Pois é”.

“Tá. Mas em quem o senhor vai votar?” “Ainda não sei menina”. “Mas quando o senhor decidir, por favor, me conte”. “Com certeza”.

Florbela voltou para o balcão e seu Timbaúba continuou a degustar seus salgadinhos, bebericando seu café, enquanto lia no seu celular o livro “Os Demônios” de Fiódor Dostoiévski.

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

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