EDITORIAL

                                               E agora Franciely…

O que as pessoas vão fazer para ouvir aquela risada gostosa que enchia o ambiente de alegria, ou para ver o seu rosto delicado, de olhar brilhante? Elas vão ter de buscar sua imagem e riso na memória, porque desde terça-feira você está continuando teu viver em outra dimensão. É importante que se diga que sua morte não foi uma tragédia, porque tragédia é quando o fato não pode ser evitado, como uma tempestade, um vendaval.

A sua morte foi uma crueldade, porque foi uma escolha, uma decisão de alguém que não deu conta de aceitar que você tinha direito de escolha, direito de voar outros vôos. E agora Franciely, quem vai ensinar seus alunos? O professor não se sabe ainda quem será, mas tomara que a sua morte mostre, ensine que é preciso ensinar aos pequenos e aos grandes que homens e mulheres são iguais e ambos têm direito de escolha.

O que aconteceu com você com certeza também não é problema de segurança pública. É questão de cultura, é a cultura machista se manifestando, mostrando toda sua agressividade. Cultura que ainda é muito presente na sociedade pinhãoense. Cultura nutrida e repassada por homens e mulheres. Cultura que destrói homens e mulheres.

Cultura que tira uma filha dos braços de seus pais e uma mãe da vida de suas filhas. Uma cultura que leva um homem a destruir sua própria família e a ceifar uma vida. Uma cultura que não traz nada de bom, só preconceito, aflição e dor. Assim, mudar esse quadro, essa situação é refletir e agir na formação, é trabalhar pala mudança de pensamento e da compreensão que na relação entre homens e mulheres, não há posse, há companheirismo, desejo de estar junto.

Amor não se obriga, conquista-se. E agora Franciely, seu companheiro vai preso, vai amargar o peso da consciência, da solidão. Precisa passar por tudo isso e que a justiça o faça pagar pelo ato tão vil e covarde que cometeu. Ele foi cruel com você e com todos que te amam. Mas ele também é vítima dessa cultura machista que transforma homens em animais, que os leva a agir por instinto animal, pelo possuir, pelo orgulho e o desrespeito à vida.

Você muito provavelmente não será a última, infelizmente, a viver sob a pressão e submissão do machismo e sentir toda a sua fúria, mas vamos torcer, lutar para que você seja a semente que vai levar à transformação. E agora Franciely, como suas amigas vão poder sentar para conversar com você?

Não vão, só vão se lembrar dos bons momentos vividos com você. Mas vamos torcer que a sua lembrança traga a elas força para lutar contra o machismo, a violência doméstica, o abuso sexual. Que tua ida tão cedo para a outra dimensão faça com que o Cras, o Crea, a procuradoria da mulher, o conselho da mulher, a secretaria de assistência e educação, o ministério público, as igrejas,os meios de comunicação e todos que desejam a paz de fato se unam, sentem e pensem em estratégias contínuas, constantes, que levem à formação de uma nova mentalidade e visão de mulher, relacionamento e mundo.

E agora Franciely, nós ficamos com a saudade, com a doçura e beleza do seu sorriso. Você siga sua vida ai do outro lado que nós do lado de cá vamos ficar aqui na luta para cada dia fazer algo que promova a extinção do machismo e suas cruéis consequências como o feminicídio.


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