Capa e Editorial da Edição nº: 883

DIZER NÃO AINDA É  MUITO PERIGOSO

Os júris de 2019 já começaram, por sinal já foram marcados sete júris entre fevereiro e abril. Um já aconteceu e semana que vem já tem outro marcado e nesses dois existe algo em comum. Em ambos os casos o crime é contra a mulher.

Em um, a vítima recebeu treze facadas e conseguiu sobreviver. Por que ela foi esfaqueada? Por ajudar o companheiro no atendimento aos clientes do bar que eles tinham. A ordem foi dada, “Não venha no bar!” e por que a ordem foi dada? Por ciúmes, sim ciúmes, pois ainda um bom número de homens considera que suas companheiras, namoradas, esposas e até amantes, são sua propriedade e eles é quem determinam o que elas podem e devem fazer. A violência no primeiro caso já começa com uma bofetada, que leva a vítima a cair. Além da violência física há a humilhação pública. No segundo caso, que ainda irá a julgamento, o réu não aceitou o término do relacionamento e a vítima perdeu a vida porque concluiu que não queria estar mais com aquele companheiro.

Novamente vem a posse, o sentimento de propriedade, e um sentimento extremado, se não é minha, não é de mais ninguém. Essa situação, em que uma mulher dizer não a um homem a coloca em situação de risco de vida, infelizmente é muito comum. Seja um não por não querer trocar a roupa, não querer parar de trabalhar, não querer manter relação sexual ou por não querer mais o companheiro, parceiro ou marido.

E ainda há as que são mortas dia-a-dia com chantagens, são colocadas em clausura, mas numa clausura discreta,  as escolhas de onde a mulher vai freqüentar, quem serão suas amigas e que roupas vai vestir são feitas por ele, mas de forma discreta, na sociedade tudo parece normal, ele vende a imagem de homem protetor e carinhoso, mas, na verdade, é carrasco, que mina a autoestima, a confiança da mulher em si e em seus potenciais.

Esses homens infelizmente não sentam no banco dos réus, às vezes são até brindados na comunidade por cargos e funções que os destacam como bons moços, pais de família e maridos atenciosos. Pois a sociedade, mesmo que vejam que uma mulher é a sombra do que fora outrora, ou que é o bibelô de estimação de um homem, finge que não vê.  Por isso ainda é grande a luta do feminismo.

Feminismo que luta pelo direito da mulher ser quem deseja ser, de escolher quem quer que fique a seu lado, de escolher o que veste, aonde trabalha e se trabalha. Feminismo que não quer colocar a mulher acima dos homens ao de colocar as mulheres em disputa com os homens para ver quem é melhor. O feminismo que deixa claro que mulheres e homens não são propriedades, são pessoas com vontades, com livre arbítrio para escolher seus caminhos e companheiros e companheiras de caminhada. Essa luta pelo feminismo, ou melhor, pela dignidade e respeito às mulheres tem que ser constante, cotidiana.

Tem que ser nas escolas dialogando, refletindo sobre os padrões machistas que a sociedade insiste em reafirmar, seja nas piadas, programas de televisão, propagandas, nas posturas dos pais diante de suas filhas, das mães que ainda acreditam que é preciso prender as cabras porque seus bodes estão soltos.

A luta para que as mulheres possam de fato e de direito dizer, Não!, é de todos porque o feminismo não é uma causa das mulheres, mas de todos os seres humanos que acreditam que a vida, e uma vida digna e com direitos de  escolhas é direito de todos. 

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