Fotos: Nara Coelho/Fatos do Iguaçu
Por Nara Coelho – Portal Fatos do Iguaçu
A crise hídrica enfrentada por moradores de bairros e comunidades de Pinhão foi tema de audiência pública realizada nesta quarta-feira, 17 de junho de 2026, na Câmara Municipal. O encontro reuniu vereadores, representantes do Executivo, Assembleia Legislativa, Defensoria Pública, Unicentro, IDR-Paraná, Conselho de Desenvolvimento Rural, lideranças comunitárias e moradores.
A audiência foi proposta a partir de iniciativa da vereadora Vilma Kitcki, com apoio da Assembleia Legislativa do Paraná, por meio do deputado estadual Professor Lemos, que presidiu os trabalhos. O objetivo foi levantar diagnósticos, ouvir demandas da população urbana e rural e encaminhar medidas de curto, médio e longo prazo para enfrentar a falta de água e os problemas de qualidade no abastecimento.
Durante a abertura, foi destacado que o acesso à água potável é um direito fundamental e que a discussão ultrapassa a questão do abastecimento, envolvendo dignidade humana, saúde pública, moradia, meio ambiente e planejamento urbano. Entre os bairros citados com maior preocupação estão Pinheirinho, Vila Nova e Recanto Verde.

A vereadora Vilma Kitcky lembrou que a pauta não é recente e que, desde a audiência pública realizada em 2022, moradores vêm cobrando providências da Sanepar e do poder público. Ela citou avanços no Recanto Verde, mas afirmou que ainda há famílias sem acesso regular à água potável. Segundo a parlamentar, no Vila Nova há moradores cuja única fonte de água teve resultado considerado impróprio para consumo humano em análise recente.
A vereadora Solange Adronski reforçou que a crise hídrica já é uma realidade no município. Ela relatou o caso de uma mãe que precisou pedir água a uma vizinha para preparar a mamadeira do filho, usando o episódio como exemplo da gravidade do problema. Para ela, a população está cansada de esperar e cobra soluções concretas.
O vereador Josiel da Silva Santos defendeu a união entre os poderes e afirmou que a falta de água não pode ser tratada como disputa partidária. Ele também informou que, após pedido encaminhado à Sanepar, recebeu a notícia de que um gerador estaria sendo providenciado para auxiliar o sistema de abastecimento em momentos de falta de energia, uma das causas apontadas para interrupções no fornecimento.
Já o vereador Márcio Tigre chamou atenção para a degradação das nascentes e a necessidade de preservação ambiental. Ele lembrou que Pinhão possui muitas fontes de água, mas que parte delas vem sendo comprometida pela ação humana, pelo desmatamento e pelo uso inadequado do solo.

Um dos momentos técnicos da audiência foi a apresentação do professor Paulo Nobukuni, da Unicentro. Ele defendeu o planejamento territorial como caminho para enfrentar a crise hídrica e apresentou levantamento preliminar que identificou cerca de 1.895 nascentes no município. Segundo o professor, muitas delas estão desprotegidas, sem vegetação adequada ao redor, o que compromete a recarga hídrica e contribui para a redução da disponibilidade de água.
A Defensoria Pública do Paraná participou de forma virtual, representada pelo defensor público Ricardo Menezes, coordenador do Núcleo de Defesa do Consumidor. Ele afirmou que o acesso à água deve ser garantido mesmo em áreas em processo de regularização ou em áreas regularizáveis. Para o defensor, quando não for possível levar infraestrutura convencional, o poder público e a concessionária devem buscar soluções alternativas, como reservatórios, cisternas, poços, bebedouros e outras medidas adequadas.
O presidente do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural, Francisco de Oliveira, o Chico Imbuia, alertou para a necessidade de recuperação das matas ciliares e preservação das microbacias. Ele informou que o Comder pretende realizar diagnóstico participativo junto às associações rurais para orientar um plano de ação voltado ao desenvolvimento sustentável e à proteção dos recursos naturais.
Representando o IDR-Paraná, Ivan Júnior de Oliveira apresentou práticas de conservação de solo e água no meio rural, como terraceamento, plantio em nível, proteção de nascentes, manutenção de áreas de preservação permanente, caixas de contenção e integração entre estradas e lavouras para favorecer a infiltração da água no solo.
O secretário municipal de Meio Ambiente, Luis Caldas, também participou do debate. Durante a audiência, foi destacada a necessidade de atualização do Plano Municipal de Saneamento, maior cobrança sobre o cumprimento do contrato com a Sanepar e definição de estratégias técnicas para atendimento das áreas mais afetadas.
Moradores também se manifestaram, cobrando providências para o Pinheirinho e outras localidades. Uma das principais reclamações foi a existência de uma unidade consumidora coletiva, situação que dificulta a individualização do consumo e gera insegurança para as famílias. Também foram relatados problemas com água suja, interrupções no abastecimento e dificuldades em comunidades do interior.
Ao final, foram anunciados novos encaminhamentos. Entre eles, a realização de reunião em Curitiba, no gabinete do deputado Professor Lemos, com participação de representantes locais e da Defensoria Pública, para mapear as regiões afetadas e definir estratégias de atuação. Também foi citada a necessidade de aproximar Câmara, Prefeitura, Ministério Público, Defensoria Pública, Unicentro, IDR-Paraná, Conselho de Desenvolvimento Rural e comunidade na construção de soluções.
A vereadora Vilma Kitcky informou ainda que tramita na Câmara um projeto de lei de sua autoria que reconhece microbacias, nascentes, áreas de recarga hídrica e demais recursos hídricos como patrimônio hídrico municipal. Antes da votação, porém, o texto deverá ser debatido com o Conselho de Desenvolvimento Rural, associações e produtores, para esclarecer dúvidas sobre a aplicação da proposta em propriedades rurais.
A audiência terminou com o compromisso de continuidade das discussões e de organização das demandas apresentadas pela população. A expectativa é que o debate resulte em ações práticas para garantir água potável, preservar as nascentes e assegurar segurança hídrica às famílias pinhãoenses.

