Ananílio Silveira e sua história de vida

Ao lado de sua esposa Angelina, superou as dificuldades da época e construiu uma grande família e, hoje comemora Bodas de Chumbo

“Agradeço a Deus por você existir e me amar. Você me faz muito feliz. És a certeza do melhor de Deus na minha vida, agradeço também a Ele pelos frutos do nosso amor”. Palavras semelhantes a estas foram ditas pela primeira vez no dia 22 de maio de 1948, na cidade de Ipiranga, pelos jovens Ananílio Guimarães Silveira e Angelina Orloski ao subirem ao altar. Ao lado dos familiares, serão repetidas no domingo 22 de maio, quando comemorarão suas Bodas de Chumbo, seus 68 anos de casados.

Após Ananílio servir o exército, o casal resolveu mudar-se para Guarapuava, mais precisamente, para a localidade de Faxinal dos Soares, que hoje pertence a Reserva do Iguaçu. Vindo a fixar residência nas terras que seu pai, José Bernardino da Silveira, havia adquirido. Eram 300 alqueires divididos para três de seus 12 filhos: Ananílio, Rauzino e Juveni, estes dois não quiseram vir para esta região e ficaram próximos ao pai.

Como já tinha esposa e filha, o jovem decidiu que era hora de iniciar sua própria atividade agrícola. “Foram oito dias de viagem em duas carroças, uma conduzida por mim e outra por meu irmão Juveni. Ao meio dia parávamos para almoçar e descansar os cavalos e à noite, pernoitávamos nas carroças e assim prosseguimos. No sétimo dia chegamos à casa comercial do senhor Quintiliano, em Guarapuavinha. No dia seguinte passamos cedo pela tal Vila Nova, hoje Pinhão, que tinha umas 20 casas, uma forte casa comercial que pertencia à Família Dellê e ao final do dia, chegamos a Faxinal dos Soares e lá moramos por 12 anos e depois nos mudamos para Pedro Lustosa”, recorda Ananílio.

Com os filhos Maria Tereza, Anice e Altair (Foto: Arquivo Pessoal)
Com os filhos Maria Tereza, Anice e Altair (Foto: Arquivo Pessoal)

DIFICULDADES

Dispostos a enfrentar as dificuldades para iniciar uma vida nova, o casal se acomodou em uma casa de madeira bem precária por três meses até que pudessem construir sua morada. Na primeira noite, Ananílio levou um susto, pois uma cobra caninana de 11 palmos passou por cima dele. Para ter seu próprio lar era necessário primeiramente abrir uma estrada para transportar a madeira. Terminada a missão e com a família acomodada em uma casa digna, o jovem começou a ‘lida’ no campo, fazendo roças e criando animais.

A agropecuária foi a fonte de renda da família, criava e vendia porcos para o comprador Ernesto Orlandini, que levava os animais para Ponta Grossa.  O vizinho mais próximo estava distante cerca de dois quilômetros.  Houve ocasiões que contratou pessoas para trabalhar com ele, mas como a labuta exigia muito esforço, acabou ficando sozinho. “Certa vez empreitei uma roçada perto do Rio Iguaçu, mas os companheiros disseram que o trabalho era muito grande e tinha muita madeira para derrubar, algumas árvores com 40 polegadas, e acabei fazendo tudo sozinho”, contou.

HOMEM DA LEI

Por ser uma pessoa de índole exemplar, foi nomeado para ser delegado substituto. Primeiro trabalhou em Faxinal dos Soares como inspetor por dois anos, depois quando mudou para Pedro Lustosa o convidaram para ser juiz. “Não aceitei, mas então fui nomeado delegado e desempenhei a função por três anos. Antigamente não tinha reunião, festa de igreja ou baile que não eram desmanchados a bala. As pessoas vinham armadas e quando assumi, achei que a barra iria ser pesada. Eu proibi alguns homens de andarem armados. Tive apenas uma encrenca com um senhor que prendemos dentro da sua casa”, afirma Ananílio.

VIAGENS

As viagens a Guarapuava eram muito complicadas, o ônibus era muito velho e era frequente as pessoas pedirem caronas. Muitos tinham o costume de ficar no armazém do Ciro Dellê para esperar uma oportunidade de seguir viagem. Eram poucos que tinham um veículo para seguir em frente. “Agora está sobrando carros”, frisou.

Para se locomover de um lado para outro, o agricultor abriu muitas picadas. A construção de estradas próximas à sua propriedade e de outros agricultores somente aconteceu quando Pinhão teve como prefeito Sebastião Passos Ferreira, o Nho Tão. “Se caísse um pau na estrada tínhamos que cortá-lo no facão, não havia motosserra. Quando o prefeito fez a estrada tudo melhorou”, recorda.

ESTUDOS

Acerca de 40 anos seu Ananílio adquiriu uma residência para que as filhas pudessem estudar na sede, pois na localidade não tinham como prosseguir os estudos. “Eu ficava na fazenda e a esposa, o filho e as filhas em Pinhão, eu vinha nos finais de semana. Com o tempo também vim para cá e a fazenda ficou sob os cuidados dos empregados. Sempre que necessário vamos até lá para levar suprimentos ou vacinar o gado”.

Ele acompanhou o crescimento de Pinhão e observa que o povo reclama muito, principalmente dos administradores. “Cada um que é eleito faz alguma coisa pelo município, que nunca está parado, o povo sempre se queixa. Mas eles, os prefeitos, sempre fazem algumas obras, um vem e faz algo o outro entra e faz mais um pouco e assim vai. O Nho Tão foi quem trouxe a luz para Pinhão. Antes era na base do gerador, mas muitas vezes faltava e era aquela correria. Nunca quis concorrer a um cargo político, apesar de ter sido convidado. No pleito que Orlando foi candidato eles queriam que eu me candidatasse, mas não quis, pois não gostava de me envolver com política”, afirma.

AS CORRIDAS DE CARREIRAS

Um tradicional passatempo em Pinhão eram as disputas das carreiras. “Certa vez apostei uma carreira com um vizinho em Faxinal dos Soares. Eu produzia erva cancheada e como tinha aberto a carreira, precisava treinar, preparar o cavalo e passeava naquele local para ir acomodando a terra e depois voltava a canchear a erva. Angelina terminava o serviço e eu voltava no final da tarde para fazer a raia. Um dia antes da carreira fui negacear o treino do cavalo do meu vizinho. Havia caído uma grande geada e eu não tinha aonde me esconder, entrei debaixo de um pau de imbuia coberto de samambaia, pensei aqui me escondo bem. Lá estava o meu vizinho e os filhos A cerração era muito grande e as crianças do vizinho começaram a fazer fogo e vinham arrancar as samambaias que estavam me acobertando, a sorte que tinha espinho no meio e sapés, elas viravam a cara para não atingir o rosto, foi um sufoco, mas não me viram. Tive sorte que ninguém me viu.  Mas passei um sufoco danado e devido à cerração, não consegui ver como foi o tempo dos animais. Sai daquele lugar cheirando a porco”.

Ananilio e Angelia (Foto: Arquivo Pessoal)
Ananilio e Angelia (Foto: Arquivo Pessoal)

GRANDE COMPANHEIRA

Para seu Ananílio, a esposa Angelina sempre foi seu porto seguro, demonstrando muito amor e confiança por ele. “É minha grande companheira até hoje, o começo não foi fácil, ela deixou os pais e familiares lá em Ipiranga e veio para cá. Cartas demoravam até 60 dias para que pudéssemos recebê-las para ter notícias dos parentes. E me aguentou nas minhas ‘brabezas’. Tivemos uma grande perca, que foi o filho Altair de Jesus Silveira, em 2012. Mas temos nossas grandes alegrias, as filhas, que estão sempre se multiplicando: Maria Tereza, Anice, Alice, Ananita, Maria Idalina e a Célia Helena, nossos 16 netos e os nove bisnetos. Quer felicidade maior que esta?”, finalizou.

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