A escritora Dinah Silveira de Queiroz, numa de suas crônicas, nos conta que, certa feita, um jovem amazonense havia dito que lá no meio da floresta sem fim, do norte do nosso triste país, existiria uma espécie de passarinho que canta sem parar e sem cansar. Tanto canta que é capaz de matar uma cobra de cansaço e de raiva.

Bem, assim o são, desse jeito, meio que sem prumo, todos aqueles que se movem guiados pela procura amorosa pela verdade. Sim, esses são como os pássaros que cantam para todos aqueles que tiverem ouvidos para ouvir e um coração suficientemente dilatado para acolher a verdade semeada das alturas com o auxílio do ancinho da palavra.

Também não seria exagero dizer que encontramos muitas pessoas que reagem de forma similar às víboras do causo narrado no primeiro parágrafo desta simplória escrevinhada, quando chega aos seus ouvidos uma e outra verdade desagradável. Quase morrem ou, quase matam quando ouvem.

Quer dizer, toda verdade é, por sua própria constituição, desagradável, porque, como todos nós sabemos, quando ela vem ao nosso encontro não é para afagar o nosso ego inchado. Não. Ela vem até nós para nos libertar dos grilhões que, na maioria das vezes, foram forjados por nós mesmos.

Vale lembrar que não existe pessoa que se assemelha totalmente às serpentes que morrem de raiva diante do canto da liberdade, como também não há pessoas que sejam idênticas, no todo e nas partes, com os pássaros que amorosamente cantam as belezuras da verdade.

De certa forma, como todos nós sabemos, ambas as criaturas se aninham no âmago do nosso ser. Ambas. Não tem lesco-lesco. O problema é reconhecermos com a devida clareza qual das duas criaturas recebe mais atenção de nossa parte e, a resposta para esse espinhoso problema depende, necessariamente, de quantas verdades sobre nós mesmos, e sobre o mundo, estamos realmente dispostos a ouvir e a acolher.

Essa é a questão que não pode parar de entoar seu canto nos átrios do nosso coração. Se parar é porque não foi a víbora que definhou em nós, mas sim, o pássaro que calou, que foi calado pela malícia de uma língua bifurcada que fala em nós e por nós.

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

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