Estava nesses últimos dias lembrando da oração fúnebre que foi proferida por Lula no funeral de sua esposa. Na época, não escrevi nada a respeito, nem comentei, tendo em vista que a dor de uma perda deve ser sempre devidamente respeitada, pouco importa quem seja aquele que esteja padecendo com ela. Penso que isso é o mínimo que nós precisamos saber fazer para não ser um canalha.

Na época, inclusive, se minha memória não está me traindo, lembro-me que apenas fui ver a referida oração algumas semanas depois da cerimônia e, do mesmo modo, procurei permanecer silente; na ocasião, não considerava apropriado, nem mesmo relevante, comentar algo a respeito do que vi e ouvi.

Porém, todavia e, entretanto, os anos passaram e, cá estamos, relativamente afastados dos fatos e, penso eu, que o que agora irei dizer, possa ter alguma relevância, ou não. Seja como for, imagino que agora seja menos inapropriado falar sobre o assunto.

Se retomarmos o vídeo para assistir a preleção de Lula diante do caixão de sua falecida esposa, veremos que o ambiente onde o mesmo foi realizado era muito estranho, para não dizer outra coisa.

No ambiente, ao fundo, vemos um gigantesco mural – um imenso mural – com uma imagem em preto e branco muito bonita onde Lula, à frente, dá um beijo amoroso na face sorridente de dona Marisa que se reclina sobre seu peito [por favor, não caiamos na tentação de fazer uma análise semiótica. Obrigado].

De cara, quando vi, me perguntei: que raios um banner gigantesco como esse está fazendo em um velório? O que o rosto de Lula e de dona Marisa Letícia estavam fazendo ao fundo de um salão mortuário? Simples: o banner estava ornando um palco para realização de um comício.

Francamente, é compreensível que houvesse um banner tamanho família com uma imagem da finada como uma homenagem à sua memória. Seria um exagero? Provavelmente, mas um excesso compreensível. Mas a imagem em destaque não era a da falecida, mas sim, a da efígie do viúvo.

Seja como for, estávamos diante de um cenário, montado para realização de um ato, que não ornava com o momento.

Mais adiante, logo que Lula chegou ao local e se aproximou do caixão, ocorreu o fenômeno que realmente deixou-me estarrecido ou, como diria o Gil Brother Away, que me deixou “perplecto”. Não me refiro ao discurso fúnebre, onde Lula falava mais de suas [supostas] qualidades pessoais – rendendo a si mesmo uma estranha homenagem – e deixando num segundo plano a homenagem que deveria ser feita àquela que partiu desta vida para o descanso eterno. Nada disso. O que me deixou, de fato, estarrecido, foi o comportamento de incontáveis figuras anônimas em relação ao viúvo que estavam presentes na cerimônia.

Voltemos a fita: Lula chegou, colocou-se ao lado do caixão e, enquanto alguns amigos o cumprimentavam, inúmeras pessoas se aproximavam dele não para manifestar os seus sentimentos e dar-lhe um abraço apertado de urso solidário. Não. Essas pessoas se aproximavam do viúvo, que estava ao lado do corpo embalsamado de sua mulher, para tirar uma foto com Lula. Uma foto sorridente, feliz da vida, como se eles estivessem no término de um show, ou de um comício, ou de algo que o valha.

Abre parêntese: isso sim, amiguinho, que é idolatrar um líder político. Isso sim. O resto é quirerinha. Fecha parêntese.

Ora, é mais do que compreensível, mesmo que seja inapropriado, que uma figura pública profira um discurso de caráter político durante um funeral. Aliás, muitos dos discursos retóricos mais imponentes da história da humanidade foram proferidos em momentos assim. Um bom exemplo é o discurso de Gettysburg proferido pelo então presidente Abraham Lincoln, dos Estados Unidos. Aliás, esse é o discurso mais famoso do referido presidente. Merece destaque, também, os discursos que foram proferidos por ocasião da morte de Júlio de Castilhos no Rio Grande do Sul no começo do século XX.

Nesses dois casos foram realizadas cerimônias claramente políticas, sim, mas que procuravam honrar a memória dos falecidos. Agora, o que realmente me espantou nessa ocasião foi justamente a espetacularização do velório juntamente com a atuação dessas inúmeras figuras anônimas que, de certa forma, atestaram por “A” mais “B” que estavam diante de um tipo de show.

Espetáculo. Essa é a palavra. Guy Debord, em seu livro “A Sociedade do Espetáculo”, nos lembra que a espetacularização da vida não seria simplesmente um conjunto de imagens, arbitrárias ou aleatoriamente apresentadas para as janelas de nossa alma. Nada disso. A espetacularização da vida se dá nas relações sociais, nas relações de interdependência que são estabelecidas entre as pessoas e as instituições sociais que, por sua vez, são mediatizadas pelas imagens que acabam ocupando o centro da vida de incontáveis indivíduos.

Nesse sentido, um espetáculo como esse apresenta uma visão cristalizada do mundo e acaba transparecendo aos olhos de todos os valores que se fazem presentes nas relações que se estabelecem entre as pessoas e as imagens com as quais elas interagem e, diante do referido “velório”, francamente, a visão que temos não é nem um pouco bonita.

Ao chamar a atenção do amigo leitor para isso, não estou apontando simplesmente para o culto idolátrico que há em torno da figura de Lula que, para alguns, seria um sujeito com a prerrogativa para poder pairar acima e além do bem e do mal. O que realmente me espanta até hoje é a forma como tais figuras portaram-se no velório, demonstrando uma cabal dessensibilização diante da morte ao ponto de instrumentalizá-la sem o menor pudor.

Não há dúvida alguma que uma cena como essa é um exemplo [mais do que perfeito] que bem retrata um mundo realmente invertido pela ideologização da vida, onde o verdadeiro é abolido e substituído por um conjunto de momentos artificiosos que, sem querer querendo, revelam o quão torpe é essa inversão de valores que impera no coração de muitos que, ao mesmo tempo que são capazes de tirar uma self com um viúvo, diante do caixão da finada, também são capazes de rezar – ou dizer que rezam – pela morte de um desafeto político.

E essa perversão, para aqueles que são tomados por ela, acaba sendo o elemento que unifica e explica tudo por meio da unidade aparente do espetáculo que, por meio de um ícone publicitariamente edificado, toma posse dos contrastes e contradições e organiza-os de tal forma que passa a ser um simulacro de ordem que toma o lugar da realidade para muitos, imprimindo um sentido [turvo] em suas vidas instrumentalizadas.

Trocando por dorso: a verdade subjacente à espetacularização dos mais variados momentos da vida – como um velório – é que a vida espetacularizada, dos dias atuais, termina sendo apenas uma visível negação da vida. Uma negação da vida que se tornou visível, interativa e com alta resolução.

Gostemos ou não de admitir, a consciência que temos da morte, e da fragilidade da vida, acaba dando a medida e o sentido dos atos que dão forma a nossa existência. Esse sentido pode ser profundo, ou meramente espetacularizado, reduzido a nossa jornada a apenas um conjunto de momentos que pode ser instrumentalizado politicamente.

Aliás, como nos ensina o padre Vieira, a morte é única, certa e incerta. Ocorre uma única vez, é inevitável e não temos como prever o dia em que ela irá nos visitar e, por isso mesmo, a forma como nós encaramos e tratamos dessa realidade revela a quantas anda, e em que ritmo seguem, os nossos vacilantes passos por esse vale de lágrimas.

Enfim e por fim, reflitamos sobre a morte para, quem sabe, mudarmos a maneira como vivemos a nossa vida.

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

 

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