Sem doce

Ela acordou cedo e ficou quietinha na cama como se ainda estivesse dormindo.

No almoço de família no meio da tarde, na festa com as amigas à noite e em tudo que comera.

Lembrou-se de quantas vezes repetira o almoço e de quantos pedaços de torta fora feita a sua sobremesa.

E na festa à noite?

Foram tantos pães de queijo, coxinhas e doces que não dá nem pra contar. Também, aqueles doces estavam tão lindos e com a cara tão irresistível, tão deliciosos…

Comera que se lambera.

Mas agora, ao se lembrar, deu uma vergonha que ela chega se encolheu.

“Estou comendo como um javali desenfreado, meu Pai. Preciso me controlar.”

Sentou na cama

Coçou a cabeça.

Espreguiçou.

“Será que javali come muito? Vai ver estou acusando o moço de um pecado que ele nem comete.”

Levantou na velocidade de um bicho preguiça sonolento e se arrastou até o banheiro.

Enquanto reinava, começou a assistir ao vídeo de um canal que seguia.

Lá, um casal contava, de maneira bem humorada e saltitante, que estava sem consumir açúcar há alguns meses e estava sentindo uma diferença absurda: disposição, criatividade, ânimo…, tudo tinha melhorado.

Além de terem perdido medidas, claro.

Lembrou-se dos dias que ficara sem todas as iguarias adocicadas e como realmente o peso diminuíra. Não vira todas aquelas vantagens que o povo do “Cadê a chave” falara no vídeo não, mas o peso diminuíra.

“Disso que preciso! Preciso ficar sem açúcar!”

Antes de pensar direito, falou bem alto para quem quisesse ouvir:

“Vou ficar sem comer açúcar por um tempo!”

Quando acabou de ouvir as próprias palavras, se lembrou dos milhares de chocolates que vira nas lojas:

“Misericórdia, minha gente, e a páscoa?”

O arrependimento tomou conta do coração de maneira imediata.

Enquanto ouvia as palavras de apoio que vinham de toda a casa por sua decisão, ela ia se arrependendo, se arrependendo…

“Posso muito bem gritar aqui que vou começar essa abstinência depois da Páscoa, ninguém vai me condenar por isso.”

Mas aí vem a consciência pequenininha e perturbadora, dando voz, ação e coração ao conflito interno:

– Mas você já falou pra todo mundo que vai começar a partir de hoje. Não tem palavra não, é?

Ela, toda contrariada e já se lembrando dos relatos da Nilce sobre como foi difícil a crise de abstinência do açúcar:

“Ai, meu Pai! Todo mundo comendo chocolate durante dias em todos os lugares e eu olhando? Como vou resistir?”

– Pense bem, criatura. Enquanto todo mundo estiver queimando as calorias ganhas na páscoa, você vai estar à frente: queimando só as que já estão aí, não vai ter nada de novo.

Ela, em um muxoxo de fazer pena, tentou contestar de todas as maneiras, mas foi derrotada em cada um dos seus argumentos:

“É verdade, né? Vou embarcar nessa então.”

E aquela vozinha, que na verdade era sua aliada, disparou para finalizar:

– Cada vez que você sentir vontade de comer alguma coisa engordativa, qualquer coisa, doce ou salgada, pense assim: valem a pena as calorias que vou ganhar com isso? Certamente, não valem, aí você se arrepende antes de comer.

A indignação tomou conta de quem ainda nem havia se levantado do trono para começar a dieta:

“Como assim? Eu disse que vou parar de comer AÇÚCAR agora e você já quer que eu coloque na berlinda todas as coisas que for comer? Poupe a minha pessoa. Tenha dó.”

E quem só estava tentando ajudar:

– Não está mais aqui quem falou.

Ela terminou o reinado e foi embora para começar a vida sem açúcar.

Vivi Antunes é ajuntadora de letrinhas e assim o faz às segundas, quartas e sextas no www.viviantunes.com.br

 

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