Escolha e consequência

Ela sabia que o erro fora seu.

Tinha consciência plena de que o que fizera não era certo.

Sabia, se lembrava, recordava cada um dos detalhes dos seus atos.

Planejara aquilo minunciosamente para não ser descoberta.

Cada detalhe fora pensado para não deixar rastros.

Telefonemas, mensagens, e-mails.

Tudo devidamente camuflado, escondido.

Não tinha como alegar que fora uma coisa de momento, de impulso.

Não fora.

Ela tinha consciência de que “impulso” era uma alegação que não podia ser apresentada.

Não tinha como.

Fizera todo o planejamento no mais absoluto sigilo.

Pela primeira vez na vida, conseguira realizar algo sem contar nada a ninguém.

Silêncio.

Discrição.

Tudo arquitetado na mais absoluta solidão.

O grande problema é o que não se faz sozinha.

Algumas coisas na vida não têm como serem feitas na mais absoluta solidão.

E essa era uma delas.

Não havia maneira de viver aquela aventura sem acompanhante.

Eram necessários dois.

A escolha do parceiro sim foi involuntária.

Parceiros para essas coisas não se acham em classificados.

Ela, ao menos, acreditava que não tinha como encontrar em uma lista de anúncios.

Não conseguiria.

Sabia, Ela sabia que Ele não era a pessoa certa. Sabia as consequências caso aquilo fosse a cabo.

Quando começaram a se envolver, de leve, como quem não quer nada, Ela pensava conhecer em que aquilo poderia acarretar.

Acreditava saber todas as consequências funestas de suas atitudes.

Algumas vezes, poucas, tentara recuar, parar, deixar de fazer.

Mas estava tão bom…

Resolveu continuar.

Já que iria em frente, apostou que daria conta de fazer tudo discretamente, sem deixar rastros.

A cada passo que dava, pensava temia:

“Acho que não vou dar conta, melhor desistir dessa ideia.”

Nessa hora, a vontade do desconhecido provocava um frio na barriga, fazia seu coração bater mais forte.

Ela sempre vivera com tranquilidade em sua zona de conforto.

Tudo em sua vida sempre às claras.

Nunca fizera nada escondido de ninguém.

Era conhecida por sua transparência.

Agora, depois da vida inteira sendo assim, tinha vontade de viver o novo, o desconhecido, o proibido.

E foi.

Planejou tudo tão direitinho que acreditou conseguir ir e voltar sem que ninguém ficasse sabendo:

“Vou e, quando voltar abandono. Vai ser bom, vai dar certo.”

Caso alguém descubra?

Quando essa ideia chegava, até sentia um calafrio percorrer sua coluna. Sentia como se o chão estivesse abrindo embaixo dos seus pés, tinha sensação de morte.

Um dia antes do embarque, quando todo o seu plano parecia perfeito, foi para frente do espelho enquanto sozinha estava e começou a seguinte conversa consigo mesma:

“Tem certeza do que está fazendo? Tem certeza do que está prestes a fazer? Tenho. Tenho sim. Eu sei que você está absurdamente encantada com todas as possibilidades que podem se abrir, mas você sabe das consequências dos seus atos caso eles venham a ser descobertos? Eu faço ideia do que possa vir a acontecer. Você faz ideia? É, só ideia. Sabe quantas pessoas perderão a confiança em você? Esquecerão toda a boa imagem que construíram da sua pessoa? Sabe que de uma coisa dessas as pessoas jamais se esquecem e contam umas para as outras e, mesmo depois da sua morte, os netos dos seus amigos ainda saberão do que você está prestes a fazer hoje? Eu sei. Mesmo assim, quer continuar? Não sei. Cara, aproveita essa ponta de dúvida e desiste disso! Não posso. Já investi demais em tudo, não dá para desistir agora. E tudo que investiu para chegar a esse ponto em que está a sua vida hoje? Isso não conta? Conta, mas, dessa vez, vou fazer o que manda meu coração.”

Saiu da frente do espelho, pegou a bolsa e foi colocar seu plano em prática.

Viveu, intensamente, todos aqueles dias.

Fez exatamente tudo que secretamente havia ensaiado e planejado.

Todas as suas vontades satisfeitas, cada um dos seus desejos, há tanto acalentados, realizados.

Todos.

Voltou.

Chegou como se fora à esquina comprar pão, com a maior naturalidade do mundo.

Naturalidade essa que durou apenas até encontrá-lo.

Em silêncio, foi fuzilada com um olhar que desnuda a alma.

Na hora soube: fora descoberta.

Tentou o cumprimento habitual, foi bruscamente afastada.

Chegando ao quarto encontrou sobre a cama todos os e-mails, fotos, comprovantes de compra e reservas, tudo, tudo, tudo que provava onde estivera nos últimos dias, com quem estivera.

Ouviu coisas que jamais sonhou escutar na vida.

O chão parecia se mover sob seus pés.

Mãos suadas, coração acelerado, boca seca.

Tentou falar.

Não conseguiu.

Começou a desgrenhar os cabelos em desespero e, de um segundo para o outro, viu tudo que acabara de destruir.

Lembrou-se da conversa que tivera no espelho: havia ponderado a possibilidade de que isso acontecesse, resolvera arriscar.

Mas e agora?

O que seria de sua vida?

Subitamente arrependeu-se.

“Mas não foi tão bom? Está arrependida somente por que foi descoberta?”

“Caso ninguém tivesse ficado sabendo, continuaria a farra que eu sei.”

Enquanto chorava em desespero, isso bailava em sua cabeça como se piões descontrolados fossem.

Tinha vontade de implorar pelo perdão, mas não tinha coragem.

Sabia tudo que fizera, sabia como fizera.

Tinha planejado tão bem, como dera tudo errado?

“Está pensando assim porque não está arrependida de fato. Vai ter coragem de pedir perdão mesmo? Cara de pau. Pode pedir. Você não vai conseguir convencer ninguém.”

Desistiu.

Não pediu.

Apenas chorava e chorava como se já não existisse o amanhã.

Depois que saiu da presença, os ânimos se acalmaram, Ela foi pensar: o que afinal dera errado?

Tudo fora planejado com tanta maestria.

Onde estava o furo?

“Sua vida acaba de tomar um rumo sem volta e tudo que você quer saber é onde errou nos seus planos? Realmente você não tem jeito. Devia estar preocupada em consertar tudo que fez, mas não, quer saber como pode fazer o mal feito mais bem feito.”

Precisava pedir perdão.

Não tinha coragem.

Em sua cabeça, só poderia fazê-lo quando de fato estivesse arrependida.

Não era o caso.

Estava, sim, com medo das consequências de seus atos, mas, quando lembrava o que fizera, ainda sorria.

O tempo passou rápido e as consequências vieram de forma avassaladora: desestruturação deu tudo, absolutamente tudo que construíra ao longo de uma vida inteira.

Quando se lembrava do fizera, já não sorria mais.

Seu choro não era por medo das consequências, pois essas já doíam em sua carne.

O choro era de real arrependimento.

Em sua cabeça, era hora de pedir perdão.

Mas agora, quando arrependida estava, não tinha coragem.

Precisava de mais tempo.

E o arrependimento foi tomando forma, foi dando força a sua coragem.

Lembrava-se de cada passo que a levara até ali.

Chorava sozinha cada um dos detalhes de seu “plano infalível”.

A cada dia ficava mais arrependida, a cada dia tinha mais coragem.

Quando sentiu que daria conta, tentou pela primeira vez a aproximação: foi execrada, completamente rejeitada.

Recuou sem desistir.

De tempos em tempos, tentava conversar.

Queria apenas que Ele soubesse: havia se arrependido, era verdade.

Ele parou para ouvir, enfim.

E Ela abriu o coração.

Falou tudo, pediu perdão.

E Ele, silenciosamente escutou sem contestar:

“Terminou?”

– Terminei.

“Posso ir?”

– Não queria que fosse.

“Mas você me obrigou. Agora, que já disse tudo, tchau.”

E Ela ficou ali com suas lembranças, aventuras, arrependimentos e pedidos de perdão, observando enquanto Ele se afastava silenciosamente.

Vivi Antunes é ajuntadora de letrinhas e assim o faz às segundas, quartas e sextas no www.viviantunes.com.br

 

 

 

 

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