Capa e Editorial da Edição nº: 815

Editorial

Até quando?

O Jarcans foi um sucesso, movimentou a cidade, promoveu momento de lazer e de encontro entre famílias, amigos e compadres, entre gerações e “tribos” diferentes. Agitou as quadras, as ruas e o comércio. Quem foi aos locais onde aconteciam as disputas, na maioria das vezes assistiu a bonitas disputas, quase todos os jogos estavam equilibrados, em campo sempre duas equipes preparadas e com muita vontade de vencer, mas de vencer pelo ponto conquistado, pelo drible, pela bela cesta feita, pela defesa feita de forma excepcional. Mas, infelizmente, nem tudo foi flores, primeiro porque mesmo sendo a vigésima quinta edição do Jarcans, ainda tivemos times que não aprenderam o espírito esportivo e em vez de realizar um lindo espetáculo em quadra ou campo, preferiram transformar o jogo em luta livre. Isso é triste, pois perde todo mundo, atletas que acabam não mostrando toda a sua habilidade, arbitragem que ganha sem trabalhar e tem que se transformar em segurança, o público perde de assistir os talentos, deixa de se divertir, volta para casa chateado e decepcionado. É preciso que se diga que há torcedor que precisa aprender que o papel da torcida é animar, elevar a moral do time, é mostrar que confia e que está ali para torcer e reconhecer o talento dos seus atletas. Não para provocar a outra torcida, para inflamar mais ainda atletas que já estão nervosos a irem para o tapa. Porque quando os atletas deixam de jogar para se esbofetearem, mais do que perder um jogo ou uma classificação, perde o respeito pelo esporte, pelo público e pelo investimento, que cada um fez em si e que os técnicos fizeram nas equipes e que a própria estrutura do município fez no time. Quem perde jogando, ganha respeito, sai admirado, assim, é preciso que técnicos também invistam no emocional dos seus atletas para  não haver mais esses espetáculos de brutalidade e irracionalidade na bela festa dos Jarcnas. Outra coisa que deixou os ginásios feios foi o lixo, foi pena que o mesmo alto índice técnico das equipes não veio em cidadania nem nos atletas e muito menos na torcida, pois as pessoas jogavam suas garrafas, latas, papeis pelo chão sem o menor cuidado ou constrangimento, isso fora e dentro das quadras, porque ao final de cada partida, em volta dos bancos de reserva era um absurdo a quantidade de garrafas de água jogadas, esparadrapos, tubos de creme e remédios, feio, muito feio. As lixeiras estavam lá, espalhadas pelos ginásios e quadras, mas nunca estavam cheias, bem ao contrario, mas em compensação, nas arquibancadas, tinha quilos de lixos. Mas o que mais deixou nós, do Fatos do Iguaçu pensativos, foi o que na verdade passou praticamente despercebido pelo público, atletas, autoridades, organizadores, das pessoas que inclusive batem no peito para dizer que trabalham pelas crianças e adolescentes em situação vulnerável. Todos os dias o Ginasião esteve cheio de crianças brincando seja com os brinquedinhos trazidos de casa, de chutar bola, de chutar latinhas jogadas pelos adultos no chão. Mas, entre essas crianças, havia uma que não chutava nem a bola nem a latinha. Ela pegava a latinha, amassava com o seu pequeno pé e a colocava em um saco, muito provavelmente ao final dia seu pequeno pé deveria estar doendo, porque eram muitas, muitas latinhas encontradas pelo chão. Mas, de repente, uma bola rolou até seus pés e a criança olhou para ela, soltou seu saco de latinha e bem baixinho ainda olhando para a bola disse: posso? Que as outras crianças com certeza não ouviram, mas compreenderam pelo gesto que ele queria jogar bola com eles. Como criança é muito mais simples e sem preconceitos que os adultos, por alguns minutos o catador de latinha voltou a ser criança, seus olhos brilharam, vibrou com o gol que marcou, com o passe que deu ao colega e ai de repente alguém jogou uma lata no chão e o barulho lembrou-o que sua infância tinha sido roubada e voltou a catar latinhas. E ai fica a pergunta: até quando vamos ver essa triste realidade? Até quando vamos ter crianças com a infância roubada? Até quando essas crianças vão continuar invisíveis?

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