CADA UM NO SEU DEVIDO QUADRADO

Discutir é bom; a gente cresce através do debate. Assim reza a lengalenga contemporânea. Reza ao ponto de fazer os ouvidos zunirem, porém e, por isso mesmo, discordo em gênero, número e grau desse papo furado com bafo de intelectual orgânico-progressista. Mas, discutir não é bom? Depende zoiudo. Se for só pra convencer o outro a tomar partido duma causa “X” ou “Y” isso tem o seu valor, mas ele é limitadíssimo, haja vista que o objetivo duma contenda desse tipo não é conhecer mais sobre algo através da confrontação de pontos de vista divergentes, mas sim, convencer alguém a tomar partido do siriri que somos partidários.
Só isso e olhe lá. No fim das contas, sim, é verdade, discutindo com esse intento podemos nos tornar mais habilidosos na arte de persuadir, mas, infelizmente, não se aprende a conhecer algo de modo responsável com esse tipo de prática. Isso mesmo. É muito fácil persuadir uma pessoa a incorrer em erro. É muito fácil vencer uma discussão sem ter razão. Todavia, vamos supor que realmente queiramos conhecer algo em profundidade e com responsa. Show de bola! Então me diga: quantas pessoas você conhece que realmente nutrem esse tipo de interesse? Quantas? É aí justamente que mora a encrenca. Muitas vezes, uma pessoa toda imbuída de boas intenções, com um sincero desejo de conhecer, acaba tomando como interlocutores os tipos mais escrotos da face da terra e que, devido a sua boa vontade, irão receber dela um tratamento que não lhes é devido e, fazendo isso, o sujeito acaba projetando sobre os biltres uma imagem falseada deles e, consequentemente, acaba distorcendo a realidade do caráter de si e dos outros e, dessa forma, termina por sabotar a sua sincera vontade de conhecer.
De mais a mais, acreditar ter razão sobre algo e tentar através de todos os meios convencer-se e convencer o outro disso não é, de modo algum, sinônimo de conhecer as razões sobre algo e, por essas e outras, que discutir não é o bicho da goiaba como muitos gostam de pintar. Tem que se estudar muito antes de querer se dedicar as lides dessa perigosa arte. Por isso, muito mais importante que se enfiar em contendas vazias motivadas pela nossa vaidade, seria aprendermos a ficar em silêncio, a suportarmos o estado de dúvida prolongado, sem faniquito, e estudarmos sem pressa para dizer algo a alguém, comprometendo-se unicamente com o conhecimento da verdade, seja ela qual for; mesmo que ela fira mortalmente nossas convicções, ideias e ideais.
Quando aprendemos a fazer isso nós amadurecemos e robustecemos nosso caráter e, com toda certeza, estaremos bem melhor preparados para lidar com os vaidosos tagarelas que, por sua deixa, imaginam tontamente que repetir palavras de ordem vazias seja o suprassumo da tal criticidade que, no fundo, não passa duma azia mental que só pode ser realmente curada com uma boa dose de vontade de conhecer. Remédio esse que gente assim quer, a todo custo, manter uma boa lonjura.
(*) Professor, caipira, cronista e bebedor de café.
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